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segunda-feira, junho 28

 

"DIEU LE VOLT! (I)"




Como é sabido - e embora seja difícil distinguir a lenda da realidade - foi a 27 de Novembro do ano 1095, durante os trabalhos do Concílio de Clermont, que o Papa Urbano II exortou os cavaleiros cristãos a reconquistar a Terra Santa aos muçulmanos. Com a sua apaixonada exortação, o Pontífice Romano deu origem à Primeira Cruzada (1096/1099). Embora não se conservem exemplares do discurso original, chegaram até nós várias reproduções das palavras de Urbano, escritas alguns anos após o Concílio.

Uma das mais conhecidas é a que consta da crónica de Fulcher de Chartres, que reza o seguinte: "(...) Embora, oh filhos de Deus, vos sabeis, prometeram mais firmemente que nunca manter a paz entre vocês e manter os decretos da Igreja, ainda existe um importante trabalho que devem realizar. Ungidos pela correcção divina, devem aplicar a força de vossa rectidão a um assunto que interessa a Deus. Posto que vossos irmãos que vivem no Oriente, requerem urgentemente as vossas ajudas, e vós deveis esmerar para prestar-lhes a assistência que a eles vem sendo prometida faz tanto tempo. Aí que, como sabeis todos, os Turcos e os Árabes os têm atacado e estão conquistando vastos territórios da terra de România [Império Bizantino], tanto no oeste como na costa do Mediterrâneo e em Helesponto, que é chamado o braço de São Jorge. Estão ocupando cada vez mais e mais os territórios cristãos, e já venceram sete batalhas. Estão matando e capturando muitos, e destruindo as igrejas e devastando o império. Se vós, impuramente, permitires que isso continue acontecendo, os fieis de Deus seguiram sendo atacados, cada vez mais com dureza. Em vista disso, eu, e não bastante, Deus, os designa como herdeiros de Cristo para anunciar em todas as partes e para convencer as pessoas de todas as gamas, os infantes e cavaleiros, para socorrer prontamente aqueles cristãos e destruir a essa raça vil que ocupa as terras de nossos irmãos. Digo isto para os presentes, mas também se aplica a aqueles ausentes.

Mais ainda, Cristo mesmo os ordena. Todos aqueles que morrerem pelo caminho, seja por mar ou por terra, em batalha contra os pagãos, serão absolvidos de todos seus pecados. Isso lhe é garantido por meio do poder com que Deus me investiu. Oh terrível desgraça se uma raça tão cruel e baixa, que adora demónios, conquistar a um povo que possui a fé de Deus omnipotente e tem sido glorificado em nome de Cristo! Com quantas reprovações nos oprimiria o Senhor se não ajudarmos a aqueles, que como nós, professam a fé de Cristo! Façamos que aqueles que estão promovendo a guerra entre fieis marchem agora a combater contra os infiéis e conclua em vitória uma guerra que deveria ter se iniciado há muito tempo. Que aqueles que por muito tempo tem sido foragidos, que agora sejam cavaleiros. Que aqueles que estão pelejando com seus irmãos e parentes, que agora lutem de maneira apropriada contra os bárbaros. Que aqueles que estão servindo de mercenários por pequena quantia, ganhem agora a recompensa eterna. Que aqueles que hoje se malograram em corpo tanto como em alma, se dispunham a lutar por uma honra em dobro. Vejam! Neste lado estarão os que lamentam e os pobres, e neste outro, os ricos; neste lado, os inimigos do Senhor, e em outro, seus amigos. Que aqueles que decidam ir não adiem a viajem senão que produzam em suas terras e reúnam dinheiro para os gastos; e que, uma vez concluído o inverno e chegada à primavera, se ponham em marcha com Deus como guia."
A isto, o povo cristão respondeu entusiasticamente: "Deus le volt! Deus le volt!" ("Deus o quer! Deus o quer!")

Não pretendo aqui discorrer sobre as verdadeiras motivações que estiveram na origem da Primeira Cruzada, ou os posteriores desenvolvimentos militares da expedição. Procuro sim recordar o impacto que a Cruzada teve junto dos Judeus, dos Bizantinos e dos Muçulmanos, recorrendo para tal a fontes contemporâneas dos acontecimentos. Estou neste momento a ler "The First Crusade - The Chronicle of Fulcher of Chartres and Other Source Materials", de Edward Peters (segunda edição, University o Pennsylvania Press, 1998), obra que contém diversos textos judeus, árabes e bizantinos sobre a questão. Além de outros da autoria de cruzados participantes na expedição, assim como de vários clérigos francos seus contemporâneos.

Começo pelos Judeus. As primeiras vítimas da fúria sanguinária dos cruzados foram as comunidades judaicas da Europa Central. Ainda antes dos barões e cavaleiros com os respectivos séquitos, se porem a caminho do Oriente, já um grande exército - se é que assim se poderia chamar - se tinha reunido sob o comando de um célebre místico, que ficou para a História como Pedro, O Eremita. Pedro reuniu uma multidão heterógenea de dezenas de milhares de camponeses, de pequenos nobres e todo o tipo de pessoas sem pertença ou nação, que aspiravam a atingir e conquistar Jerusálem, a "terra do leite e do mel". Movidos pelo ardor do fanatismo, alguns destes cruzados decidiram dar ali mesmo início à sua divina tarefa, massacrando milhares de Judeus alemães.

O "Gezerot Tatnu" ("Livro dos Massacres"), de um judeu anónimo de Mainz, narra as atrocidades cometidas por alguns milhares destes cruzados. Entre outros tristes acontecimentos narrados na referida obra, sucedeu o seguinte, na cidade alemã de Worms: os chefes dos cruzados acirraram o ódio da multidão contra os Judeus, mostrando-lhe um cadáver que teria sido, alegadamente, cozido pelos Judeus de Words. Com tal acto, quereriam os judeus contaminar os "gentios" da cidade, espalhando nela a água da cozedura. O autor do "Gezerot Tatnu", naturalmente, considera infundada esta acusação, atribuindo aos Cruzados o desenterramento do cadáver e todo o embuste, no intuito de incitar o ódio contra os Judeus.

Foi então que, narra o "Gezerot Tatnu", na tradução que consta da obra supra-citada, "When the crusaders and burghers heard this [sobre a alegada tentativa de contaminação], they cried out and gathered - all who bore and unsheated [uma espada], from great to small - saying: «Behold, the time has come to avenge Him who was crucified, whom they ancestors slew. Now let not a remnant or a residue escape, even "an infant or a suckling' in the cradle». They then came and struck those who remained in their houses - comely young men and comely loving young women along with elders. All of them stretched forth their necks. Even manumitted serving men and serving women where killed (...)". O "Gezerot Tatnu" conta ainda que uma grande multidão de Judeus se tinha reunido na casa do Bispo local, que lhes dera asilo e alguma protecção, na medida do possível. Mas nem a propriedade da igreja foi respeitada por aqueles que se diziam cristãos: a casa foi cercada e centenas de judeus massacrados. Nas suas derradeiras horas, enquanto alguns tentavam ainda resistir ao ataque, os pais e as mães degolaram os respectivos filhos, para que não caíssem nas mãos dos cruzados. O livro narra ainda outras atrocidades deste calibre.

Os massacres, assim como as conversões forçadas dos poucos sobreviventes, não passaram despercebidos na Cristandade. Mas as reacções divergiram. Se Alberto de Aachen foi extremamente severo na forma como condenou o líder dos ditos cruzados, o Conde Emico, e a própria multidão pelo seu "crime detestável", Ekkehard de Aura, por seu turno, saúda Emico como o "Novo Saúl", um homem que, "apesar dos seus defeitos", "foi chamado por Deus a massacrar a raça execrável dos Judeus". Da mesma forma, se o primeiro condenou as conversões forçadas ("porque o Senhor não quer que ninguém seja obrigado a converter-se"), o segundo dá graças pelo facto de Emico trazer os Judeus para o seio da Igreja.

A respeito desta temática, talvez o Nuno Guerreiro possa acrescentar alguns elementos.

(Continua)

Filipe Alves (RESPUBLICA)

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