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quarta-feira, junho 2

 

DA INQUISIÇÃO

Tem piedade de mim, ó Deus, pelo teu amor!
Pela tua grande compaixão, apaga a minha culpa!
Lava-me da minha iniquidade
e purifica-me do meu pecado!
Porque eu reconheço a minha culpa,
e o meu pecado está sempre diante de mim.

(Salmo 51, 1-5)

De acordo com as palavras de Seymour Hersh, jornalista da revista New Yorker, os interrogatórios de prisioneiros do Iraque suspeitos de ligações à Al-Qaida e aos taliban inserem-se (sim, porque não acabaram) numa estratégia de «melhorar a produção de informação». Citando fontes do Pentágono e da CIA, Hersh revela que as humilhações e sevícias de natureza sexual e envolvendo animais foram consideradas particularmente eficazes, atendendo ao «espírito dos muçulmanos». Também a utilização de fotografias – pelo risco da sua divulgação – se inseria nesta estratégia, pois aumentava nas vítimas o medo, a submissão e a vergonha.
Dizia ainda a soldado Sabrina ao Washington Post que «tínhamos ordens para os manter acordados e para lhes transformar a vida num inferno até que falassem», ordens essas dadas por oficiais dos serviços de informações militares e por agentes da CIA.
Mas, mais que a nudez forçada, os capuzes (cuja função é despersonalizar o objecto da tortura, não o olhar como uma pessoa), a trela e a coleira ou os fios eléctricos da prisão de Abu-Ghraib, o mais chocante é ver a pose, o sorriso, o polegar levantado dos algozes, em frente a uma pilha de corpos nus, debruçados sobre um cadáver ou arrastando um prisioneiro. Algozes esses com quem cada um de nós partilha uma cultura, um modo de olhar para o mundo, muitos valores, ambições, virtudes e fraquezas. São jovens de vinte e poucos anos que, na vida civil, não diferem em nada de um jovem português da mesma idade. Como é, então, possível, que, ainda que cumprindo ordens, sejam eles os alegres carrascos dos seus semelhantes?
Historiadores e psicólogos que estudaram a tortura dão a mesma e perturbadora resposta: eles são como nós. Sob certas circunstâncias, cada um de nós tem em si o potencial de capacidade (de fraqueza) para cometer as mesmas atrocidades exibidas nas fotos que nos chocaram. Em situações em que as pessoas detêm um poder completo sobre outrem, em especial se o seu comportamento for sancionado por uma qualquer autoridade externa ou por um grupo, é demasiado fácil assumirem atitudes sádicas mais extremas (lembremo-nos do romance de William Golding, «O Deus das Moscas»).

A Experiência
Em 1971 um grupo de psicólogos sociais, liderados por Philip Zimbardo levou a cabo uma experiência que ficou conhecida como a Experiência da Prisão de Stanford. Consistiu na simulação de uma prisão em que os papéis de guardas prisionais e de prisioneiros foram atribuídos a estudantes voluntários, com características psicológicas semelhantes e que visava estudar os efeitos psicológicos da vida numa prisão. Previa-se uma duração de quinze dias e, segundo as regras, quem quisesse poderia abandonar a experiência a todo o momento.
Apesar das regras bem definidas e de todos os participantes saberem que se tratava de uma simulação da realidade e de um estudo científico, a verdade é que a experiência foi interrompida ao fim do sexto dia, porque os participantes começaram a viver com total entrega e intensidade os seus papéis, confundindo a representação com a realidade vivida e identificando-se com os personagens que encarnavam. Alguns “guardas” tornaram-se especialmente violentos, abusaram da autoridade que lhes havia sido concedida e humilharam os seus “prisioneiros”, deixando mesmo de cumprir as regras da “prisão”. Por seu lado, os “prisioneiros” foram-se tornando submissos, obedecendo gradualmente às ordens mais absurdas (ver relato completo em http://www.prisionexp.org).
Diz Philip Zambrano que depois de observar a sua prisão durante apenas seis dias compreenderam o modo como as prisões desumanizam as pessoas, reduzindo-as em objectos e inculcando-lhes sentimentos de desespero. E, quanto aos guardas, deram-se conta de como pessoas vulgares podem transformar-se facilmente do bom Dr. Jeckyll no malvado Mr. Hyde.
Já os antigos o sabiam. Nós é que nos esquecemos depressa.

A Experiência (Das Experiment) é também um filme do alemão Oliver Hirschbiegel que, entre outros prémios, ganhou o Prémio Especial do Júri do Fantasporto de 2002, e que é baseado no romance de Mario Giordano, «Black Box», que por sua vez foi inspirado no projecto da Experiência da Prisão de Stanford. É um filme soberbo, uma incursão no mais íntimo da pessoa humana: o medo, as relações de poder, a liberdade, a dignidade humana observados à lupa.

Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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