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segunda-feira, junho 28

 

"BUDA" É SANSKRIT PARA "ATENTO"

“Buddha é Sanskrit para o que chamas atento, miraculosamente atento. Respondendo, curvando as sobranceiras, piscando os olhos, mexendo as mãos e pés, é tudo a tua natureza miraculosamente atenta. E essa natureza é a mente. E a mente é o Buddha. E o Buddha é o caminho. E o caminho é Zen. Mas a palavra Zen é uma que continua um enigma para ambos, mortais e sábios. Ver a tua natureza é Zen. Enquanto não vês a tua natureza, não é Zen.

Mesmo se fores capaz de explicar milhares de sutras e shastras, senão vês a tua própria natureza, os teus ensinamentos são os dum mortal, não dum Buddha. O caminho verdadeiro é sublime. Não pode ser exprimido em linguagem. De quê são as nossa escrituras? Mas alguém que vê a sua própria natureza encontra o Caminho, nem que sabe ler uma palavra. Alguém que vê a sua própria natureza é um Buddha. E desde que o corpo dum Buddha é intrinsecamente puro e imaculado, tudo o que diz é expressão da sua mente, sendo basicamente vazia, um Buddha não pode ser encontrado em palavras ou algures no Décimo Duplo Canon.

O Caminho é basicamente perfeito. Não requer aperfeiçoamento. O Caminho não tem forma ou som. É subtil e difícil de reconhecer. É como quando bebes água: sabes quão quente ou frio está, mas não consegues contar a outros. Daquilo que só um Tathagata sabe, homens e deuses continuam inconsciente. A atenção dos mortais fica aquém. Até ao ponto em que eles estão apegado a aparências, não reparam que as suas mentes são vazias.

E erradamente agarrando-se à aparência de coisas eles perdem o Caminho. Se sabes que tudo vem da mente, não te deixes apegar. Uma vez apegado, estás desatento. Mas uma vez que vês a tua própria natureza, o inteiro Canon passa a ser tanta prosa. Os seu milhares de shastras e sutras só acumulam para uma mente clara. Compreensão vem no meio da frase. Para quê servem doutrinas? A última Verdade está para além de palavras. Doutrinas são palavras.”

Bodhidharma: Bloodstream Sermon


Bodhidharma viveu oitocentos anos antes de Meister Eckhart, e no outro lado do mundo.
Mesmo assumindo o meu conhecimento só fragmentário dos ensinamentos de ambos, parece-me bastante evidente que eles dizem, no essencial, o mesmo.

Como professor em Paris e homem poderoso da Igreja, Eckhart teve acesso a uma enorme parte da literatura disponível no mundo cristão do seu tempo, e daí possivelmente também ao conhecimento do budismo. Mas não acho necessário assumir, nem me parece provável, que o misticismo de Eckhart foi influenciado pelo budismo.
As “doutrinas” dos místicos não são edifícios que se erguem em cima dos ensinamentos dos outros. Não sei se seria possível, mas sei que não é preciso: O conteúdo – o volume de informação daquilo, que os místicos dizem, é quantitativamente muito limitado. E é manifesto uma enorme redundância nos seus discursos! - Uma única vida humana, até uma bastante curta, é o suficiente para abranger tudo. Não há aqui muito detalhe, nem ramificações, não há vastos campos de saber que ficam, como nas ciências, por explorar para futuras gerações de discípulos. (Ao contrário nas ciências, também não há aqui progresso.)

Claro que sei que há essas escolas: não são isso as próprias religiões? Mas nunca me convenceu que elas contribuam, em termos de saber essencial, qualquer coisa relevante para além das mensagens do seus fundadores. Há fundadores de religiões que não o quiseram ser. Do Buddha histórico diz-se que se opôs – em vão – à criação das organizações que se institucionalizaram após a sua morte e que – de facto – asseguraram que os seus ensinamentos chegaram aos nossos dias, embora talvez um pouco corrompidos. (Num desses dias tenciono fazer um post sobre um homem, que com sucesso evitou a fundação duma nova religião em seu torno...)

A minha tese é (caseira, eu sei...), que não é só pelos livros sagrados e pelos mestres/professores que se transmita o conhecimento do Divino. Nem por instituições que se dedicam à tarefa da sua correcta tradição às gerações futuras (e à sua correcta aplicação na vida). Ele está sempre lá, no ar, ou melhor: dentro de nós. Em princípio, Ele está ao alcance de qualquer um. Não é algo que se tem de aprender da forma como se aprende a ler e escrever, ou a nadar: pelo treino. Isto é, pela interiorização e automatização de comportamentos ou raciocínios. Não é assim. É antes o contrário: Um desaprender, um perder de tudo que nos (pré)ocupa, e que nós torna inacessível para Ele. Aquilo que está dentro de nós tem que sair para que haja espaço para Ele entrar. Mas a nós só cabe criar o espaço dentro de nós. Não cabe a nós procurar aquilo que deve ocupar o espaço! Não se trata de substituir algo por nossa iniciativa! Porque seja o que for que nós eventualmente apanhamos para lá meter, se nós o agarrámos, para o lá meter, já o temos transformado num objecto, já não é aquilo que deve, que quer entrar em nós.
Ele entra por si, se Ele quiser. Cabe a nós abrir a porta. Mais nada.

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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