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segunda-feira, junho 21

 

AUGUSTO COMTE E A "LEI DOS TRÊS ESTADOS"

Comte é um dos filósofos responsáveis pela introdução de erros sistemáticos na intelectualidade ocidental. A sua pretensa "lei dos três estados" é um excelente exemplo disso.
René Guénon, por seu lado um feliz exemplo de intelectualidade contemporânea "contra-corrente", mesmo no final da sua obra La Grande Triade, dedicada ao ternário extremo-oriental Céu-Terra-Homem ("Tien-ti-jen"), brinda-nos com um capítulo intitulado Déformations Philosophiques Modernes, onde trata da questão aqui levantada.
Sigamos um pouco as suas palavras, visto que há pouco a acrescentar ao que diz Guénon:

"(...) queremos falar da pretensa «lei dos três estados» de Auguste Comte; mas, como a relação desta com o assunto em causa pode não parecer evidente à primeira vista, algumas explicações sobre este assunto não serão porventura inúteis, porque com ele temos um exemplo assaz curioso da forma como o espírito moderno pode desnaturar um conceito de origem tradicional (...).
O erro fundamental de Comte, a este respeito, é o de imaginar que, qualquer que seja o género de especulação ao qual o homem se entregue, ele nunca se propôs a nada que não fosse a explicação dos fenómenos naturais; partindo deste ponto de vista estreito, ele é forçadamente levado a supor que todo o conhecimento, de que ordem seja, representa a explicação destes fenómenos. Juntando então a esta ideia pré-concebida uma visão totalmente fantasiosa da história, ele crê descobrir, em conhecimentos diferentes que coexistiram na realidade, três tipos de explicações que ele considera como sucessivas, porque, relacionando-os erradamente a um mesmo objecto, ele os vê naturalmente incompatíveis entre eles; ele fá-los então corresponder a três fases que o espírito humano teria atravessado no curso dos séculos, e que ele chama respectivamente de «estado teológico», «estado metafísico» e «estado positivo».
Na primeira fase, os fenómenos seriam atribuídos à intervenção de agentes sobrenaturais; na segunda, seriam atribuídos a forças naturais, inerentes às coisas e não transcendentes em relação a elas; finalmente, a terceira seria caracterizada pela renúncia à busca das «causas», que seria então substituída pela das «leis», ou seja de relações constantes entre os fenómenos.
Este último «estado», que Comte vê aliás como o único definitivamente válido, representa de forma bastante exacta a concepção relativa e limitada que é com efeito a das ciências modernas; mas tudo o que diz respeito aos outros dois «estados» não passa de um amontoado de confusões (...)

(...) no dito «estado metafísico», as noções das diferentes forças naturais teriam tendido cada vez mais a se fundirem na de uma «entidade» única, designada como a «Natureza»; vemos aliás deste modo que Comte ignorava totalmente o que é a metafísica, porque, desde logo que a questão é a «Natureza» e as forças naturais, é evidentemente de «física» que se trata e não de «metafísica»; ter-lhe-ia bastado referir-se à etimologia das palavras para evitar um erro tão grosseiro (...)

(...) levado pela necessidade mais ou menos consciente de realizar uma espécie de paralelismo entre o «estado positivo» e os outros dois «estados» tal como ele os representou, ele viu o apogeu no que ele apelidou de «religião da Humanidade». Vemos então, como termo «ideal» dos três «estados», respectivamente Deus, a Natureza e a Humanidade; não insistiremos mais, porque isto chega para mostrar que a muito famosa «lei dos três estados» provém realmente de uma deformação e de uma aplicação falseada do ternário «Deus, Homo, Natura», e o que é mais espantoso é que parece que nunca ninguém de tal se tinha apercebido." - René Guénon, La Grande Triade, Editions Gallimard, 1957, pp. 167-171.

Guénon também critica neste capítulo a forma como Comte concebe o primeiro e o terceiro "estados", mas incluir essas críticas tornaria este artigo muito longo. Remetemos o leitor interessado para a obra em causa.
Para terminar, podemos, através das palavras de Guénon, fazer uma analogia com a crença moderna no "progresso", que está eivada do mesmo tipo de preconceitos que nortearam o pensamento de Comte. Este conceito de "progresso" impõe a crença generalizada de que, antes da modernidade racionalista, positivista e cartesiana, o Homem simplesmente "pensava mal", tendo vindo a aperfeiçoar a sua forma de ver e compreender a realidade.
Tal forma de conceber o curso intelectual do Homem, se representa um "progresso", é na direcção errada, ou seja, em bom português, trata-se de um "retrocesso" intelectual! E contudo, é no trabalho de filósofos como Comte que se encontra a base epistemológica das ciências modernas, o que é preocupante...

Bernardo Sanchez da Motta (ESPECTADORES)
Comments:
ADOREI O TEXTO E MUITO BEM EXPLICADO FOI O UNICO SITE ONDE UE PUDE ENTENDER A METERIA...OBRIGADO
CAROL*SENNA
 
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