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segunda-feira, junho 7

 

ARQUEOLOGIA PESSOAL

Tendo aceite (irreflectidamente?!) colaborar num espaço estruturado por católicos, interroguei-me de imediato: porquê, sendo assumidamente agnóstico, dizer este “sim”? Essa pergunta levou-me às minhas raízes.
Entre Julho e Setembro de 1979 (tinha eu a bonita idade de 17 anos…) andei, nas páginas do semanário de extrema-esquerda “A Voz do Povo”, numa polémica com Mário Robalo (que ainda se lê nos jornais que sobrevivem). O meu único texto nessa polémica foi publicado a 31 de Agosto e levava o título Os cristãos e a revolução. Basicamente, nesse texto eu fazia a apologia do “valor revolucionário do cristianismo”. Defendia que era dentro da Igreja que deviam estar os cristãos. Criticava os que estavam sempre a lembrar os pecados passados da Igreja para a julgar no presente. Citando a Pacem in Terris escrevia que o comportamento cristão que tem “a verdade como fundamento, a justiça como regra, a liberdade como dinâmica e o amor como clima moral de acção” é o comportamento que idealmente permite a libertação. Mário Robalo, além de lembrar muitos dos argumentos clássicos para mostrar o carácter reaccionário da Igreja, defendia a sua condição de cristão fora das igrejas. Curiosamente (para mim, hoje) eu dizia-me marxista neste texto (não conheço nenhum outro texto meu, mesmo da juventude, onde diga isso: parece que fui marxista durante um Verão – apesar de, ainda hoje, considerar de enormíssima utilidade a crítica marxiana).
Que o convite da Terra da Alegria me tenha feito penetrar na arqueologia do meu passado pessoal (que trabalheira para descobrir o texto), fez-me pensar em algo muito mais importante: o mesmo acontece na nossa civilização. Há um santo, um mártir ou um pecador na árvore de Jessé de cada um de nós. Sendo devedores da cultura judaico-cristã, ignorá-la é ignorarmos o que somos. A generalizada ignorância acerca das raízes religiosas de aspectos centrais da nossa cultura é ignorância tout court. O desprezo por essa dimensão é desprezo por nós próprios. Impõe-se, por isso, mexer nessa arca e usufruir dela. Essa é uma primeira razão para ter embarcado na Terra da Alegria.
A outra razão prende-se com um aspecto central da polémica(zinha) que acima referi. Enquanto me considerei cristão (ser católico era uma contingência), nunca concebi que o pudesse ser fora de uma igreja. Isto é: fora de uma comunidade. Ainda hoje tenho alguma dificuldade em compreender as pessoas que, dizendo-se católicas, dizem que essa é uma opção interior que nada tem a ver com “cerimónias” e “idas à igreja”. O sentido de comunhão é inseparável daquilo que um agnóstico como eu ainda pode compreender numa religião. Parece-me um agudo sinal dos tempos que alguns queiram ser cristãos sozinhos. Essa forma como valorizo “a comunidade” (franca e leal) é outra das razões que descubro para ter aceite estar neste espaço da Terra da Alegria.
Mas a razão mais importante para estar aqui é, certamente, a própria designação deste espaço. Mesmo que eu não alcance todo o sentido teológico da expressão, “Terra da Alegria” pede umas enxadas, pede que cavemos, que as nossas mãos se cheguem ao solo. Vamos, então, a isso.

Porfírio Silva (TURING MACHINE)
Comments:
Caríssimo Porfirio,

Compreendo bem o que diz, em relação a esse sr. Mário Robalo...

As polémicas, as desconfianças em relação a tudo e a todos, desde os padres, os bispos, o Santo Papa, até dos paroquianos mais interventivos, é uma atitude que tem vindo a perdurar ao longo do tempo...
Indigna-me e não me conformo quando vejo um ser humano que vive na necessidade de parecer que se faz bem aos pobres dos bairros sociais, proclamando ser seguidor da teologia da libertação, quando na realidade, e dentro das quatro paredes da sua casa, do seu lar, inflinge tanto mal, tanta sova física e psicológica...

Cumprimentos

José Mariano Costa Macedo
 
O senhor José Mariano Macedo poderá ter razão, mas seria bom provar o que afirma de um outro ser humano... É perigoso, e pouco cristão, apontar o dedo sem se fazer prova de tão grave acusação...
 
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