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segunda-feira, junho 14

 

ACERCA DE SIMONE

Na semana passada, no Público, João Bénard da Costa lembrou Simone Weil. O Timshel deu conta deste artigo no seu blogue. Eu tinha previsto, na tentativa de planear de uma forma muito rudimentar os meus próximos contributos na Terra da Alegria, escrever sobre ela, não esta semana, mas depois de uma pesquisa um pouco mais rigorosa. Porque Simone Weil (1909-1943) era a todos os títulos uma mulher extraordinária com uma biografia que fosse ela católica faria dela uma boa candidata à canonização. Ela não era católica, era judia. A sua filosofia, a sua mística, no entanto, é claramente de inspiração cristã, mas como toda a grande mística, no fundo não tem cor.
Como disse, era minha intenção inicial fazer uma pesquisa um pouco mais profunda sobre a sua vida, ler os seus escritos no contexto, e não só citações avulsas, antes de escrever este post. Mas quando reli e traduzi os excertos que conheço dela, eles cativaram-me de novo e de tal maneira que qualquer coisa minha que tivesse preparado para esta edição me parecia tão insignificante e fútil, que descartei todas essas boas intenções e optei por publicá-los agora.

Relativamente a sua curta e invulgar vida, que tem muito que se lhe diga, porque – em função do ponto de vista que assumimos, a sua vida tem cariz de uma lenda de santa ou de um caso claro de psico-patologia - tenho que remetê-la, por enquanto, para o artigo de João Bénard da Costa e para os links em baixo. De qualquer forma, tenciono voltar a falar dela. Agora deixemos que ela fale por si (e não só):


"Aprende a recusar a amizade ou melhor o sonho da amizade. Desejar a amizade é um delito grave. A amizade devia ser uma alegria que nos é dada de graça como as alegrias da arte e da vida. Ela faz parte da ordem da graça. Ela faz parte daquelas coisas que nós recebemos como bónus. É preciso recusá-la para merecê-la. Qualquer sonho de amizade merece ser destroçado. Não é um acaso que nunca tenhas sido amado... O desejo de fugir da solidão é uma cobardia. A amizade não pode ser procurada, sonhada, desejada; ela é exercida (ela é uma virtude). Varrer toda a choldra de emoções impuras e confusas. Basta!
Ou melhor - porque não se deve cortar com demasiada severidade algo vivo em si - tudo o que na amizade não passa para um verdadeiro intercâmbio mútuo deveria confluir em contemplação. Não é de todo preciso renunciar à força inspiradora da amizade. O que se deve proibir implacavelmente é deleitar-se com os prazeres sonhados da emoção. Pois isso é perdição. E é tão tolo como sonhar com pintura ou música. A amizade não se pode dissociar da realidade, tão pouco como o belo. Ela é um milagre como o belo. E o seu milagre simplesmente consiste no facto de que ela existe. Com vinte e cinco anos já é mais que altura para acabar radicalmente e de vez com a adolescência."

...

“A imaginação sempre está amarrada a um desejo, isto é, a um valor. Só o desejo sem objecto está vazio de qualquer imaginação. Deus está realmente presente em todas as coisas que o desejo não oculta. O belo prende o desejo em nós e esvazia-o de todo o objecto e apresenta-lhe um objecto presente e assim impede o seu impulso de se dirigir ao futuro.
Nisto reside o valor do amor casto. Todo o desejo de prazer dirige-se a algo futuro, ilusório. Se desejamos, no entanto, nada mais do que isso, que um ser exista, então ele existe. O que queremos desejar para além disso? Então o ser amado está nu e real, despido de qualquer futuro imaginário. O avarento olha o seu tesouro sem nunca vê-lo, e é na sua imaginação x vezes maior. É preciso ter morrido para ver as coisas no seu estado nu.”

...

"A tudo ao que estamos apegados, estamos apegados por uma corda, e qualquer corda pode ser cortada. Da mesma forma estamos apegados ao Deus da nossa imaginação por uma corda, ao Deus que amamos com um amor, que também é apego. Mas ao deus real não estamos apegados e por isso aqui não há corda que possa ser cortada. Ele entra em nós. Ele só pode entrar em nós. Todas as outras coisas ficam de fora, e o único que reconhecemos delas, são as tensões de graus diversos e direcções variáveis que se transmitem à corda, quando eles ou nós mudamos o lugar."

Simone Weil: La pesanteur e la grace.


“A realidade da vida não consiste no sentimento, mas em actividade, quero dizer: actividade tanto no pensamento como na acção. Aqueles que vivem do sentimento são material e moralmente nada mais do que parasitas em comparação com os Homens que trabalham e são criativos, que somente são Homens. Acrescento ainda que os últimos que não correm atrás de sentimentos, os usufruem de uma forma muito mais vital e profunda, menos artificial e muito mais genuinamente do que aqueles que os procuram. Afinal a viciação nos sentimentos contem um egoísmo que me assusta, na medida que me diz respeito a mim próprio. Ela aparentemente não nos impede de amar, mas ela faz com que vejamos os seres amados simplesmente como oportunidades para alegrarmos ou sofrermos e que esquecemos que eles existem em e por si próprios. Vive-se no meio de fantasmas. Sonha-se em vez de viver.”

Simone Weil: La condition ouvrière.


Simone Weil (francês)
Simone Weil (inglês)

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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