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quarta-feira, junho 30

 

O MEU CORAÇÃO BATE À ESQUERDA

«Julgo que (felizmente) o que distingue a esquerda da direita é a esquerda ser necessariamente religiosa. A opção de lutar ao lado dos fracos contra os fortes é uma opção religiosa não sustentável por qualquer visão "científica" do mundo.
Mas, se calhar a direita também é religiosa. Tem a fé de que os fracos não são precisos para nada. E tem fé em teorias "científicas" que legitimam essa fé
».
Timshel


A minha consciência política despertou quando eu descobria os textos da Doutrina Social da Igreja. Creio que é esta a razão pela qual, politicamente, me revejo desde então – e regra geral – nos ideais da Esquerda.
Aqui, neste campo da luta, encontro a força cristã da esperança e na busca de um mundo melhor, mais justo, livre e fraterno – e a certeza de como é possível alcançá-lo através de lutas sociais e pessoais, assim participando na Criação. Aqui, neste lado do espectro político, compartilho a indignação profética perante a injustiça do mundo, o combate contra as exclusões, a sede de liberdade, de igualdade, de fraternidade.
Acredito, ao contrário da Direita (inclusivamente a Direita da minha Igreja), que o papel da política, de todos nós, cidadãos (e cristãos) empenhados, é o de tentar transformar o mundo. Não apenas de administrar as desigualdades e de resignar-se com a desordem das coisas.
Tenho grande dificuldade em cindir a fé das obras, em separar a alma do corpo. O Deus em que acredito fez-se carne, assumiu com plenitude e por inteiro a condição humana, tornando-a assim "divina". Talvez também por essa razão, desconfio de quem me apresenta um modelo de administrar a coisa pública como a mera gestão das existências, adaptando-se continuamente à "evolução" dos tempos, conformando-se resignadamente às injustiças sociais e criando novas exclusões.
Na fé que procuro alcançar, o Reino de Deus é uma utopia de libertação absoluta, cuja exigência foi paga por Jesus com a morte. A conversão de cada um implica uma radical mudança do modo de pensar e de agir no sentido de Deus, na construção de uma nova ordem, de um novo sentido de vida que responda aos anseios mais profundos do homem. É o credo último que define todos os cristãos: a fé na ressurreição.
Ora, revejo-me na Igreja que alivia a dor do homem, que toma suas «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de quantos sofrem» (Gaudium et Spes, 1). E que reconhece «escandalosa a existência das excessivas desigualdades económicas e sociais que ocorrem entre os membros e povos da mesma família humana. São contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional» (GS, 29). Daí que seja dever e responsabilidade de cada cristão tomar como sua esta mensagem da boa-nova. Pela obras e não apenas pelas palavras. Não concebo uma proximidade de Deus longe da vivência dos homens.

«If the real Jesus Christ were to stand up today
He'd be gunned down cold by the CIA
»
[The The, Armageddon Days Are Here (Again) - Mind Bomb]


Assim, face às questões políticas de fundo, à ideologia subjacente à tomada das decisões que a todos dizem respeito, perante a economia do quotidiano, coloco-me à pergunta talvez mais soberba de todas: nestas circunstâncias, que opção teria tomado Jesus?
Face às opções do orçamento de Estado, passando pelas prioridades das opções a privilegiar das diferentes áreas de actuação de um Governo, até às decisões mais pequenas e mesquinhas sobre a coisa comum, o que faria Jesus? Se em alguns assuntos se torna impossível responder ou até irrelevante colocar a questão, para outros, creio que me ajuda a resposta que me dou. Seria Jesus favorável à Guerra ao Iraque? Parece-me que não. Teria Jesus investido muitos milhões de contos na construção de estádios de futebol em detrimento do abandono do financiamento às áreas sociais? Também aqui me parece que não. Votaria Jesus a favor da possibilidade do aumento de substâncias poluentes para a atmosfera, descurando o apoio à conservação da natureza, em prol da industrialização imediata de uma zona ou do aumento da edificação? Seria Jesus favorável à liberalização dos despedimentos? Aprovaria a taxa Tobin? Etc., etc.

Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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EM DEFESA DUM VOCÁBULO INJUSTIÇADO

Caridade. [...] S.f. 1. (Ética) No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efectiva do bem de outrem [...]. 2. Benevolência, complacência, compaixão. 3. Beneficência, benefício, esmola. [...]

A leitura do excelente artigo da Marvi, na Terra da Alegria da passada 2ªfeira fez acordar uma questão antiga arrumada há tempos num canto do meu espírito, à espera de despacho.
Na minha infância, na escola, na missa, na catequese, na televisão, por todo o lado, ouvia dizer-se muito a palavra caridade. Depois o país mudou de alto a baixo e apareceram palavras novas do mesmo modo que outras desapareceram ou ganharam um significato diferente daquele que eu percebia até então.
A palavra caridade foi disso um exemplo espectacular. O meu espírito juvenil aprendeu então que aquilo que me ensinaram como sendo uma das virtudes teologais, junto com a Fé e a Esperança, era afinal um paradigma da hipocrisia social do antigamente e um instrumento enviezado de manutenção das desigualdades sociais. Tenho vagas recordações de filmes italianos a preto e branco onde se viam grandes senhores e grandes senhoras sentados em grandes carros a atirarem moedas a turbas de crianças maltrapilhas, sorrindo beatificamente como quem alcança assim o seu lugar no céu. Recordo-me de livros que li em que se demonstrava a histórica cumplicidade entre a Igreja e as classes dominantes utilizando, malcomunadas, a caridade para distraír o povo da justiça social a que tinha direito. Aprendi então que a caridade era uma preversão da mensagem de Cristo para perpetuação da pobreza, pois era assim que se garantia a perpetuação da riqueza dos ricos.
Ainda por cima, pressentia eu na própria igreja uma certa má-consciência pelo próprio conceito da caridade. Andaria eu pelos meus cépticos 16 ou 17 anos quando me apercebi que nos próprios textos da Igreja a palavra caridade tinha sido substituída pela palavra amor. Recordo-me perfeitamente ainda hoje duma missa, há um ror de anos, em ao escutar a leitura da 1ªcarta aos Coríntios (cap.13), ouvi surpreendido: “(...)Ainda que eu tenha tamanhã fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei. (...) Agora, pois permanecem a Fé, a Esperança e o Amor. Estes três. Porém o maior deles é o Amor.”
A palavra caridade tinha sido substituída pela palavra Amor, com maiúscula! Fui perguntar a um padre que me explicou que se tinha alterado a tradução da Vulgata porque, na língua original da epístola, caridade significava amor, que era uma palavra mais entendível pelas gentes. Ficou para mim assim confirmado e interiorizado que a caridade devia mesmo ser algo de muito negativo: pois se a própria Igreja substituía assim o nome de uma das três virtudes teologais!
O resultado disto é que no Portugal dos anos 80, eu e penso que toda a gente, da esquerda à direita, passou a ver a caridade como algo de anacrónico e desnecessário. Pertencia sim ao Estado a nobre responsabilidade de promover a correcta distribuição da riqueza e a indispensável justiça social. E convenhamos que é mesmo assim.
Acontece porém que, como é de uso, as coisas são como são e não como queremos que sejam. E acontece que o Estado português é historicamente inepto e insensível. E acontece também que, naquelas palavras tão incompreendidas de Cristo: “pobres há-de os haver sempre”. Acontece igualmente, e isto é o mais triste, que o egoísmo vive profundamente nas nossas almas. Foi também devido a ele e, se calhar, sobretudo devido a ele que quisemos tão alegremente enterrar aquilo que chamávamos de “caridadezinha” e outorgámos por inteiro ao Estado toda e qualquer responsabilidade de ajudar quem precisa. E fizemos isso invocando os mais impecáveis princípios morais e ideológicos.
Só que o Estado, como sempre, não funcionou e tendo a sociedade obliterado gostosamente os princípios da caridade própria e individual, nunca como hoje a pobreza foi mais gritante e a exclusão social mais ofensiva e isto apesar dos nível geral de prosperidade. Pois o facto é que a sociedade ficou mais rica mas, com a perda daquela noção da caridade, ficou menos solidária. As pessoas tem mais de seu mas perderam a noção da responsabilidade individual de ajudar aqueles que nada tem.
Contava-me o meu avô que antigamente os pobres entre os pobres tinham sempre uma família ou mais que os ajudavam dando-lhes os meios mínimos de subsistência – pois se não havia mais ninguém que o fizesse! Ele próprio costumava pagar os livros escolares de várias crianças pobres – era a sua caridadezinha...
Hoje, e sei isto porque sei mesmo, os pobres entre os pobres sobrevivem vergados por uma pobreza mais terrível ainda que a pobreza material, sobrevivem completamente excluídos e isolados numa absoluta miséria moral. É certo que há instituições que os apoiam, pelo menos em boa parte, mas faltam as pessoas individuais que não por ofício mas por simples amor ao próximo, os amparem e consolem. Pessoas que simplesmente lhes deem um pouco de atenção e calor humano. Eu dizia atrás que, na terminologia da Igreja, a caridade foi substituída pelo amor. Pena é que isso não tenha acontecido também nos corações das pessoas. Pena é que a caridade, tendo acabado, não tenha sido substituída por nada.
É por tudo isto que achei notável e edificante a história que a Marvi nos contou. Porque mostra que, apesar de tudo, ainda há quem meta as mãos à obra e faça, com amor, o que tem de ser feito. Mas sejamos justos: há por aí bastantes organizações, estatais e privadas, ligadas ou não às igrejas, que elas sim praticam a caridade que mais não é do que o amor que se move à procura do bem do próximo.

Termino. Mas não resisto a um recado, que também é para mim próprio: bom seria que aqueles que tanto falam da solidariedade e da responsabilidade social arregaçassem as mangas e fossem para as ruas praticar essa mesma solidariedade. Todos os braços são necessários...


José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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DE NOVO A ATENÇÃO

Antecipadamente peço desculpa por este texto que se limita a repetir coisas que já disse anteriormente (a sua única vantagem é que é pequeno e, consequentemente, é de fácil leitura).

"(...) o tipo de atenção reveladora da consciência requer um período de tempo prolongado e uma concentração sobre objectos apropriados. (...) Tanto a consciência como a atenção ocorrem em diversos níveis e graus, não são feitas de uma peça só, e influenciam-se uma à outra numa espécie de espiral ascendente." (António Damásio, "O sentimento de si", pag. 115)

Os conceitos de atenção e consciência de que Damásio aqui fala são os conceitos neuro-biológicos. Mas porque não ler aqui algo mais do que aquilo que Damásio tinha a intenção de transmitir?

Podemos ver o amor (e é assim que eu o vejo) como um exercício de vontade que se deve traduzir em actos quotidianos que visem prevenir e minorar o sofrimento dos outros.

Para mim, que aceito o mandamento do amor nestes termos, a maior dificuldade é a falta de atenção.

Praticar o Mal, provocando e maximizando o sofrimento e a infelicidade dos outros, é algo que, enquanto prática gratuita intencional e deliberada, é, felizmente, pouco frequente, e, quando existe, corresponde sobretudo a uma patologia do comportamento de alguém que é profundamente infeliz.

Mas, praticar o Mal por negligência ou omissão é, pelo menos no meu caso, um comportamento que ocorre mais vezes do que aquele que deveria ocorrer.

Julgo que a prática do Mal por negligência ou omissão decorre apenas de uma incapacidade: a incapacidade de atenção. Por vezes a prática do Mal é, simplesmente, falta de atenção, falta de uma atenção sistemática e profunda, que se pratique segundo a segundo e que nos leve a reflectir permanentemente sobre o outro e as suas necessidades, por um lado, e, por outro lado, sobre o modo como a nossa disponibilidade pode ajudar ao máximo a prevenir ou a minorar o sofrimento dos outros.

Por isso me parece que é impossível o amor se não estivermos atentos aos outros. Segundo a segundo.

Timshel (TIMSHEL)

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O SEXO DOS ANJOS

Preliminares. Por estes dias, vale a pena reflectir sobre o exercício ético da política, esquecido em sucessões dinásticas e fugas patrióticas e orgulhosas de um país a banhos de défices e futebol. Também há dois textos que interpelam directa ou indirectamente as ideias que aqui expus na semana passada em «Os agitadores de bandeiras»: o de José Maria Brito e o de Filipe Alves, aqui publicados na segunda-feira passada. O tempo é bom conselheiro: em devida altura regressarei a estes temas.

Actos das palavras. O Verão insinua-se nos corpos. A sensualidade desperta os sentidos. Num liceu inglês, as raparigas foram aconselhadas a deixar nos armários as suas mini-saias cada vez mais curtas, por despertarem a atenção dos rapazes. Naquela localidade, numa associação perigosa de ideias, o número de gravidezes aumentou nos últimos três anos, afirmaram as autoridades escolares.

As coisas arrefecem é quando se pensa a moral sexual, que é deste campo. As convicções ficam esquecidas no tinteiro ou no ficheiro do computador... Arrumadas na gaveta mais conveniente. Há longos 11 anos, a Igreja católica portuguesa - melhor dito: os senhores bispos - atrapalhou-se com um famoso «documento sobre moral sexual», obra da irreverência de uns quantos estudantes católicos como na altura criticaram.

O texto aprovado pelo Conselho Nacional do Movimento Católico de Estudantes era resultado de uma reflexão interna longa, no tempo e na forma. A comunicação social fez-se eco daquelas palavras ousadas e, aí sim, caiu o Carmo e a Trindade (mas isso é outra questão).

Durante meses, num processo ainda acompanhado pelos jornais e televisões, o MCE manteve um diálogo com os bispos - sobre aquela e outras questões suscitadas por aquele delito de opinião. Mas não é isso que hoje me interessa (embora fosse importante fazer também a história desta Igreja).

Ao lermos, hoje, aquelas linhas descobre-se uma intenção séria de discutir a moral sexual. Nomeadamente, nos pontos específicos que então se apresentavam como exemplos de um discurso e de uma prática dissociantes: i) a contracepção, ii) as relações pré-matrimoniais, iii) a masturbação, e iv) a homossexualidade.

O acento tónico da argumentação cuidada e longa defendia a responsabilidade moral dos sujeitos, que algum discurso universal do Vaticano tende (ainda hoje) a atropelar. Por isso, trago à liça esta história e este texto. A memória como projecto: dois meses depois do primeiro texto, os responsáveis do MCE faziam publicar um texto - que mereceu menor divulgação e exposição mediática - onde defendiam e esclareciam os seus pontos de vista (cf. «Algumas considerações a propósito do Documento sobre Moral Sexual», in "comtextos", revista do MCE, nº 3, Junho/Agosto, 1994).

Neste segundo texto sublinhava-se que ali se apresentavam, «efectivamente, as questões reais dos jovens da nossa idade, crentes e não crentes, que com toda a crueza encontram voz no texto [«Documento sobre Moral Sexual»]». Ali não se quis «fazer doutrina», nem fazer afirmações «fechadas e absolutas».

Hoje, como há 11 anos, a Igreja permanece quase imutável na sua forma de olhar o corpo e a sexualidade. Hoje, como há 11 anos, a valorização positiva do prazer e do sexo continua a ser tabu para o clero e, muitas vezes, vergonha para os leigos. No Verão quente, a Igreja continua a vestir roupas de Inverno e a discutir o sexo dos anjos.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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UMA QUESTÃO DE ÓCULOS

Os movimentos de identificação pessoal estão restritos a um determinado número de modelos. Quando queremos ter o ar de quem vence vitoriosamente na sociedade, ou quando queremos ter o ar de quem está à margem da sociedade, revistas, jornais, televisões, cinema, ou mesmo quem passa por nós na rua a uma hora de ponta fornecem-nos o cardápio necessário.

A questão do vestuário, da modelação do vestuário, assume particular importância. O modo como vestimos dá conta da nossa identidade. E a nossa identidade passa por projectarmos na retina dos outros uma determinada imagem. Isto, como não poderia deixar de ser obriga à reflexão e não será por acaso que o século passado e o século de hoje mostram na história do pensamento uma preocupação forte com a descodificação e a elaboração reflexiva de uma gramática da imagem.

Assim, podemos perguntar: um padre que use uns óculos à Tarentino e que não pretenda nenhum upgrade de Marcelo Caetano, o que nos quer dizer?

Antes e depois dos filmes, os óculos de Quentin Tarantino são hoje uma das suas imagens de marca. Podemos não gostar das armações e da textura das lentes. Mas reconhecemos os óculos de Tarantino. Os óculos de Tarantino falam.

Se falam, têm alguma dificuldade em falar, porque comunicam através de formas visuais. Uma das vantagens, ou desvantagens, da projecção das imagens é que ela entranha em si um certo grau de difusão e ambiguidade. Isto é também o que justifica o desconforto que sentem os que apostam na difusão da identidade de um modo marcadamente imagético.

No entanto, ainda assim os óculos de Tarantino avançam um estilo avant-garde, retrocedem até aos adereços perdidos do intelectual antes do flower power, avançam para uma sólida homenagem ao Elvis Costello da new wave, ou regridem para parodiarem o Super-homem como jornalista.

Entretanto, se estes são importantes dados semióticos, este texto não visa investigá-los desse modo. Visa perguntar: quando um oculista coloca a um padre uma série de óculos e se entre eles estiver um par que lembra os óculos de Tarantino, o que deve fazer? – Deve escolhê-los? – Deve recusá-los? – Se os escolhe, sucumbiu à cultura do tempo? – Ou apenas a utiliza? – É essa utilização legítima? – Ou pura e simplesmente não deve preocupar-se com a escolha do modelo dos óculos?

Fernando Macedo (A BORDO)

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segunda-feira, junho 28

 

ORAÇÃO OU IDEOLOGIA?

Lembro-me muitas vezes daquela frase do meu amigo frei Eugénio Boléo, OP. “A Fé e a Vida não podem ser gavetas separadas”. É uma frase que me acompanha desde os meus 13 anos e com a qual o frei Eugénio nos tentava dizer que a Fé se vive no dia a dia, nas pequenas escolhas que fazemos, na capacidade de nos empenharmos na realidades concretas. Esta e outras provocações tinham como cenário os “campos de descoberta” da paróquia de Cristo Rei no Porto.

Esta provocação está muito associada a uma grande vontade que sempre tive de me “meter no meio do barulho” … Passei por Associações de Estudantes, dei catequese, andei na política, no Banco Alimentar, e também pelo CREU (centro Universitário dos Jesuítas no Porto). Houve também uma passagem (não muito empenhada) pelo MCE de que fui militante durante dois anos.

Há muitas vezes a tendência para fazer, a nível do movimentos da Igreja, uma separação entre “grupos de oração” e grupos mais activos, nomeadamente os ligados ao espírito da acção católica motivados pelo ver, julgar e agir na cidade e para a cidade. Mas esta separação pode ser perigosa.

A questão é que nenhum grupo seja verdadeiramente de oração pode estar separado do mundo, num “lugar quentinho”, onde a consciência não dói. Os grupos de oração que não conduzam a uma verdadeira encarnação no mundo são pouco cristãos. A oração não é, não pode ser, uma fuga do mundo.

Mas, do mesmo modo, os grupos “mais activos” que passam por cima de uma verdadeira relação com Jesus alimentada por uma oração pessoal e comunitária correm o risco de se transformar em grupos ideológicos. E o cristianismo está longe de ser uma ideologia.

O grande problema está em estabelecermos dicotomias perigosas. A Fé não pode estar desligada de uma efectiva luta pela Justiça. Mas a Fé é uma relação de confiança com Jesus e é dessa relação (e não das nossas grandes ideias) que deve partir a luta pela Justiça É essa relação que deve alimentar as nossas inquietações e o nosso desejo de mudar o mundo.

Ora, se é certo que muitas vezes se corre o risco de promover uma espiritualidade que passa ao lado da encarnação, uma espiritualidade da fuga, também é verdade que às vezes há demasiada ideologia e até demasiada prática desligada da fonte.

Com estes comentários não quero, de forma alguma, colocar em causa o carisma próprio de cada movimento da Igreja. Quero chamar a atenção para o perigo de estabelecermos dentro da Igreja e dentro de nós próprios fronteiras entre realidades que devem estar interligadas.

P.S. O texto do Leonardo Boff que o Guia dos Perplexos cita é um óptimo exemplo de como é possível integrar a Fé e a vida.

Zé Maria Brito (MAIL)

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O VELHO LOUCO QUE AFASTAVA MONTANHAS

Talvez já conheçam esta fábula chinesa:

Na China antiga, havia um Velho Louco que já tinha oitenta ou noventa anos. Em frente da sua porta existiam duas enormes montanhas, que bloqueavam o caminho até à sua casa.
Um dia o Velho Louco reuniu toda a família e disse: “Estas duas grandes montanhas à nossa porta são um transtorno! Vamos afastá-las! Que tal?”
Todos os filhos e netos concordaram. Disseram: “Não há dificuldade que não possamos ultrapassar. Podemos atirar as pedras para o mar!”
No dia seguinte, o Velho Louco foi com toda a família para a montanha; saíram muito cedo e voltaram tarde. E sem medo das dificuldades começaram a escavar as montanhas todos os dias.
Um outro velho, conhecido como o Velho Sábio, viu-os a trabalhar para afastar as montanhas e pensou que aquilo era ridículo. Perguntou ao Velho Louco: “Como podes tu afastar duas enormes montanhas na tua idade?”
O Velho Louco respondeu: “Apesar de eu morrer, ainda estarão cá os meus filhos. E depois deles morrerem, estarão os meus netos. Teremos cada vez mais pessoas, e as montanhas terão cada vez menos pedras. Enquanto tivermos determinação, por certo que poderemos afastar montanhas.”
Quando o Velho Sábio ouviu isto, não teve mais nada a dizer.
Esta determinação do Velho Louco sensibilizou Deus. Assim, Ele enviou dois anjos que afastaram imediatamente as duas montanhas.

Creio que esta fábula reflecte não só, a sabedoria de uma civilização milenar, mas também uma experiência de vida comum a toda a humanidade. No tempo de Mao Zedong, foi dada uma nova interpretação a esta fábula. As “duas montanhas” que os revolucionários chineses tinham de afastar eram o imperialismo e o feudalismo, que pesavam sobre o país e o povo. E Mao acrescentou: “O nosso Deus não é outro senão o povo chinês. Se o povo se levantar e escavar connosco, porque motivo não conseguiremos afastar estas montanhas?” Diziam alguns analistas que o povo chinês construía o Socialismo com o “espírito do velho louco”.
A determinação em levar uma causa avante, e a fé que se pode atingir um objectivo difícil, mesmo quando todos os obstáculos parecem enormes, encontram eco nesta fábula. Pessoalmente (e isto é uma opinião muito pessoal!) vejo esta determinação em alguns políticos que admiro, como Mandela, Luther King e Ghandi.
Também no momento do despertar das grandes religiões, se encontram também muitos visionários, pessoas com determinação e coragem para levar os novos ensinamentos e conseguirem ter alguma percepção do mundo para lá do momento em que vivem. Eles têm a clara noção que a fé pode mover montanhas.
Um dos exemplos que me vem imediatamente à memória, ter-se-ia passado com Santo Agostinho. Enquanto em Cartago se assistia à chegada e refugiados da península itálica, e se falava do desembarque dos Vândalos no norte de África, as pessoas diziam “É o fim do mundo! É o fim do mundo!” O Bispo de Hipona, respondia: “Não. É o princípio de um mundo novo.”
Ao vivermos tempos de pessimismo generalizado sobre a situação mundial, ao repetir de frases como “Isto tá cada vez pior!” ou “Não sei onde isto vai parar…” muita falta nos fazem visionários - velhos loucos que conseguem afastar montanhas - que percebam a evolução para lá do momento em que vivem e entendam que mundo novo estamos a construir, apesar das dificuldades do momento. É que a história da humanidade mostra-nos que a fé pode mesmo mover montanhas.

MARCO OLIVEIRA (POVO DE BAHÁ)

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HISTÓRIAS DE VIDA E ALEGRIA, NESTA TERRA

Tudo começou naquela mesa de café, há cerca de dois anos atrás, quando falávamos sobre o trabalho dos voluntários.
Será que as senhoras poderiam fazer alguma coisa por aquela mulher?” – perguntou-nos o Sr. António apontando para o fundo do balcão. Vi ali uma mulher frágil, curvada pelo peso da idade, tentando acomodar o pão no saco de pano já colorido pelo tempo e pela falta de água e sabão.
Continuando a colocar as chávenas de café na mesa, o Sr. António contou tudo o que sabia. A D. Mimi (todos lhe chamavam assim) morava ao fundo da rua e durante a semana ninguém a via. Ao fim-de-semana vinha pedir alguma coisa para comer. Raramente trazia dinheiro, ocasionalmente alguma esmola que conseguia no percurso entre a sua casa e o café. O patrão dava logo alguma coisa só para ela ir embora, já que em poucos minutos o cheiro que emanava impregnava todo o espaço e alguns clientes levantavam-se de imediato. Sabia-se que tinha um filho, aí dos seus cinquenta anos, que “frequentava” o hospital psiquiátrico e residia com ela.
Quase desistimos de esperar que alguém atendesse à porta quando se abriu uma nesga da janela e uns olhos azuis, lacrimejantes, espreitaram. Depois de refeita da surpresa da nossa oferta de ajuda, lá abriu mais um pouco e contou a sua história. Morava naquela casa ia para tantos anos quantos tinha o filho. Uma porta e uma janela, para a rua onde só passava um carro de cada vez, raramente. Arranjou-lhe a casa o menino, o filho dos patrões, quando engravidou e, enquanto ele foi vivo, nunca lhe faltou nada e “as senhoras sabem como é”. Mas morreu há muitos anos, já nem sabe há quantos. E desde aí foi só miséria. Quando era nova, o filho já doente e com mau feitio, não a deixava sair de casa – se a apanhava na rua “era porrada pela certa”. Mas obrigada, não precisava de nada, tinha vivido a sua vida e a morte era certa. Recebia uma refeição do apoio domiciliário da junta de freguesia, de segunda a sexta, e restava sempre alguma coisa depois do filho comer; o pior era o fim-de-semana, mas como o filho não estava, ia ao café pedir alguma coisa. Recebia uma vale todos os meses, que não sabia de onde vinha, mas era o filho que levantava o dinheiro que não chegava a ver. Percebemos que algo a intimidava e tinha medo de abrir a porta. Voltaríamos, prometemos.
E fomos voltando, um dia e outro, para conversas à janela.
Um dia abriu a porta. A casa não tinha mais de vinte metros quadrados no total, com a cozinha ao fundo do corredor por onde se entrava e um compartimento com a janela para a rua, onde se via uma enxerga a um canto e um monte de roupa no outro. Quando era nova, “tinha sempre tudo limpo, mas agora…”. O cheiro era nauseabundo e, mesmo na penumbra, percebemos estar perante uma situação de extrema pobreza. Rapidamente sentimos a alegria das pulgas pela aquisição de sangue fresco… Há dias que não via o filho e não traziam a comida – avisaram que tinha sido cancelada por falta de pagamento.
Aceitou facilmente a primeira proposta: de alguém levar o almoço todos os dias, mas foi mais difícil negociar uma limpeza geral à casa. Para além disso, no ponto em que as coisas estavam, quem a poderia fazer? Mas há sempre alguém com uma dívida para pagar: “Oh! Senhor doutor, isto é daquelas coisas que não fazemos por dinheiro nenhum. Mas como lhe poderíamos dizer que não?” Pois, não, não poderiam dizer não. O Dr. JP é daqueles médicos a quem todos os funcionários do hospital recorrem em caso de necessidade. E quando ele pede alguma coisa – sempre para os outros – ninguém lhe diz que não: porque amor com amor se paga! Ao fim do dia o milagre tinha acontecido e a casa era outra.
Faltava o banho, porque afinal o cheiro mantinha-se. “Já não me lembro quando mudei de roupa, não consigo tirar a camisola!” Nem a Drª M (a voluntária que me acompanhava) em quarenta anos de hospital, muito menos eu, alguma vez tínhamos visto tal coisa. Todo o braço esquerdo era uma ferida que engolia a camisola. Ir ao hospital? “Nem pensar, quero morrer na minha casa.”. A Drª M tem um grande poder de persuasão. Não se vai ao hospital para morrer e não iria sozinha. Estaríamos sempre com ela.
Quando pela primeira vez a visitei no hospital, a minha preocupação centrava-se no sofrimento que o internamento lhe estaria a provocar e equacionava se os ganhos em saúde compensariam, mas a D. Mimi parecia outra. A pele limpa realçava os olhos azuis que iluminavam o rosto todo. “Como se sente? Precisa de alguma coisa?”. Com um grande sorrido respondeu “Ah! Menina, tenho lençóis lavados todos os dias e a comidinha é sempre a horas!”. É nestes momentos que melhor percebo as qualidades do nosso sistema de saúde. A D. Mimi recebeu todos os cuidados necessários e o tratamento adequado. Não foi possível eliminar o cancro que já se tinha definitivamente alojado, mas o tratamento permitiu alguma qualidade de vida e ninguém perguntou quem pagaria.
Quando a alta hospitalar se impôs foi alojada pela segurança social numa família de acolhimento para idosos (estas coisas também existem na nossa terra). Um dia, no mesmo café, alguém se aproximou e disse: “eu conheço a D. Mimi, e sei o que estão a fazer por ela, ao menos vai ter uma morte digna”.
Pensei que o que fazíamos não era por ela, mas por nós, porque toda a humanidade se degrada quando ao nosso lado um ser humano vive na degradação, mas só Respondi: “Esperemos que tenha uma vida digna no tempo que lhe resta, até à morte”. E teve. Viveu mais três meses, teve sempre lençóis limpos, comida a horas e uma mão para segurar no momento da agonia.

Marvi ((IN)FIRMUS)

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"DIEU LE VOLT! (I)"




Como é sabido - e embora seja difícil distinguir a lenda da realidade - foi a 27 de Novembro do ano 1095, durante os trabalhos do Concílio de Clermont, que o Papa Urbano II exortou os cavaleiros cristãos a reconquistar a Terra Santa aos muçulmanos. Com a sua apaixonada exortação, o Pontífice Romano deu origem à Primeira Cruzada (1096/1099). Embora não se conservem exemplares do discurso original, chegaram até nós várias reproduções das palavras de Urbano, escritas alguns anos após o Concílio.

Uma das mais conhecidas é a que consta da crónica de Fulcher de Chartres, que reza o seguinte: "(...) Embora, oh filhos de Deus, vos sabeis, prometeram mais firmemente que nunca manter a paz entre vocês e manter os decretos da Igreja, ainda existe um importante trabalho que devem realizar. Ungidos pela correcção divina, devem aplicar a força de vossa rectidão a um assunto que interessa a Deus. Posto que vossos irmãos que vivem no Oriente, requerem urgentemente as vossas ajudas, e vós deveis esmerar para prestar-lhes a assistência que a eles vem sendo prometida faz tanto tempo. Aí que, como sabeis todos, os Turcos e os Árabes os têm atacado e estão conquistando vastos territórios da terra de România [Império Bizantino], tanto no oeste como na costa do Mediterrâneo e em Helesponto, que é chamado o braço de São Jorge. Estão ocupando cada vez mais e mais os territórios cristãos, e já venceram sete batalhas. Estão matando e capturando muitos, e destruindo as igrejas e devastando o império. Se vós, impuramente, permitires que isso continue acontecendo, os fieis de Deus seguiram sendo atacados, cada vez mais com dureza. Em vista disso, eu, e não bastante, Deus, os designa como herdeiros de Cristo para anunciar em todas as partes e para convencer as pessoas de todas as gamas, os infantes e cavaleiros, para socorrer prontamente aqueles cristãos e destruir a essa raça vil que ocupa as terras de nossos irmãos. Digo isto para os presentes, mas também se aplica a aqueles ausentes.

Mais ainda, Cristo mesmo os ordena. Todos aqueles que morrerem pelo caminho, seja por mar ou por terra, em batalha contra os pagãos, serão absolvidos de todos seus pecados. Isso lhe é garantido por meio do poder com que Deus me investiu. Oh terrível desgraça se uma raça tão cruel e baixa, que adora demónios, conquistar a um povo que possui a fé de Deus omnipotente e tem sido glorificado em nome de Cristo! Com quantas reprovações nos oprimiria o Senhor se não ajudarmos a aqueles, que como nós, professam a fé de Cristo! Façamos que aqueles que estão promovendo a guerra entre fieis marchem agora a combater contra os infiéis e conclua em vitória uma guerra que deveria ter se iniciado há muito tempo. Que aqueles que por muito tempo tem sido foragidos, que agora sejam cavaleiros. Que aqueles que estão pelejando com seus irmãos e parentes, que agora lutem de maneira apropriada contra os bárbaros. Que aqueles que estão servindo de mercenários por pequena quantia, ganhem agora a recompensa eterna. Que aqueles que hoje se malograram em corpo tanto como em alma, se dispunham a lutar por uma honra em dobro. Vejam! Neste lado estarão os que lamentam e os pobres, e neste outro, os ricos; neste lado, os inimigos do Senhor, e em outro, seus amigos. Que aqueles que decidam ir não adiem a viajem senão que produzam em suas terras e reúnam dinheiro para os gastos; e que, uma vez concluído o inverno e chegada à primavera, se ponham em marcha com Deus como guia."
A isto, o povo cristão respondeu entusiasticamente: "Deus le volt! Deus le volt!" ("Deus o quer! Deus o quer!")

Não pretendo aqui discorrer sobre as verdadeiras motivações que estiveram na origem da Primeira Cruzada, ou os posteriores desenvolvimentos militares da expedição. Procuro sim recordar o impacto que a Cruzada teve junto dos Judeus, dos Bizantinos e dos Muçulmanos, recorrendo para tal a fontes contemporâneas dos acontecimentos. Estou neste momento a ler "The First Crusade - The Chronicle of Fulcher of Chartres and Other Source Materials", de Edward Peters (segunda edição, University o Pennsylvania Press, 1998), obra que contém diversos textos judeus, árabes e bizantinos sobre a questão. Além de outros da autoria de cruzados participantes na expedição, assim como de vários clérigos francos seus contemporâneos.

Começo pelos Judeus. As primeiras vítimas da fúria sanguinária dos cruzados foram as comunidades judaicas da Europa Central. Ainda antes dos barões e cavaleiros com os respectivos séquitos, se porem a caminho do Oriente, já um grande exército - se é que assim se poderia chamar - se tinha reunido sob o comando de um célebre místico, que ficou para a História como Pedro, O Eremita. Pedro reuniu uma multidão heterógenea de dezenas de milhares de camponeses, de pequenos nobres e todo o tipo de pessoas sem pertença ou nação, que aspiravam a atingir e conquistar Jerusálem, a "terra do leite e do mel". Movidos pelo ardor do fanatismo, alguns destes cruzados decidiram dar ali mesmo início à sua divina tarefa, massacrando milhares de Judeus alemães.

O "Gezerot Tatnu" ("Livro dos Massacres"), de um judeu anónimo de Mainz, narra as atrocidades cometidas por alguns milhares destes cruzados. Entre outros tristes acontecimentos narrados na referida obra, sucedeu o seguinte, na cidade alemã de Worms: os chefes dos cruzados acirraram o ódio da multidão contra os Judeus, mostrando-lhe um cadáver que teria sido, alegadamente, cozido pelos Judeus de Words. Com tal acto, quereriam os judeus contaminar os "gentios" da cidade, espalhando nela a água da cozedura. O autor do "Gezerot Tatnu", naturalmente, considera infundada esta acusação, atribuindo aos Cruzados o desenterramento do cadáver e todo o embuste, no intuito de incitar o ódio contra os Judeus.

Foi então que, narra o "Gezerot Tatnu", na tradução que consta da obra supra-citada, "When the crusaders and burghers heard this [sobre a alegada tentativa de contaminação], they cried out and gathered - all who bore and unsheated [uma espada], from great to small - saying: «Behold, the time has come to avenge Him who was crucified, whom they ancestors slew. Now let not a remnant or a residue escape, even "an infant or a suckling' in the cradle». They then came and struck those who remained in their houses - comely young men and comely loving young women along with elders. All of them stretched forth their necks. Even manumitted serving men and serving women where killed (...)". O "Gezerot Tatnu" conta ainda que uma grande multidão de Judeus se tinha reunido na casa do Bispo local, que lhes dera asilo e alguma protecção, na medida do possível. Mas nem a propriedade da igreja foi respeitada por aqueles que se diziam cristãos: a casa foi cercada e centenas de judeus massacrados. Nas suas derradeiras horas, enquanto alguns tentavam ainda resistir ao ataque, os pais e as mães degolaram os respectivos filhos, para que não caíssem nas mãos dos cruzados. O livro narra ainda outras atrocidades deste calibre.

Os massacres, assim como as conversões forçadas dos poucos sobreviventes, não passaram despercebidos na Cristandade. Mas as reacções divergiram. Se Alberto de Aachen foi extremamente severo na forma como condenou o líder dos ditos cruzados, o Conde Emico, e a própria multidão pelo seu "crime detestável", Ekkehard de Aura, por seu turno, saúda Emico como o "Novo Saúl", um homem que, "apesar dos seus defeitos", "foi chamado por Deus a massacrar a raça execrável dos Judeus". Da mesma forma, se o primeiro condenou as conversões forçadas ("porque o Senhor não quer que ninguém seja obrigado a converter-se"), o segundo dá graças pelo facto de Emico trazer os Judeus para o seio da Igreja.

A respeito desta temática, talvez o Nuno Guerreiro possa acrescentar alguns elementos.

(Continua)

Filipe Alves (RESPUBLICA)

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"BUDA" É SANSKRIT PARA "ATENTO"

“Buddha é Sanskrit para o que chamas atento, miraculosamente atento. Respondendo, curvando as sobranceiras, piscando os olhos, mexendo as mãos e pés, é tudo a tua natureza miraculosamente atenta. E essa natureza é a mente. E a mente é o Buddha. E o Buddha é o caminho. E o caminho é Zen. Mas a palavra Zen é uma que continua um enigma para ambos, mortais e sábios. Ver a tua natureza é Zen. Enquanto não vês a tua natureza, não é Zen.

Mesmo se fores capaz de explicar milhares de sutras e shastras, senão vês a tua própria natureza, os teus ensinamentos são os dum mortal, não dum Buddha. O caminho verdadeiro é sublime. Não pode ser exprimido em linguagem. De quê são as nossa escrituras? Mas alguém que vê a sua própria natureza encontra o Caminho, nem que sabe ler uma palavra. Alguém que vê a sua própria natureza é um Buddha. E desde que o corpo dum Buddha é intrinsecamente puro e imaculado, tudo o que diz é expressão da sua mente, sendo basicamente vazia, um Buddha não pode ser encontrado em palavras ou algures no Décimo Duplo Canon.

O Caminho é basicamente perfeito. Não requer aperfeiçoamento. O Caminho não tem forma ou som. É subtil e difícil de reconhecer. É como quando bebes água: sabes quão quente ou frio está, mas não consegues contar a outros. Daquilo que só um Tathagata sabe, homens e deuses continuam inconsciente. A atenção dos mortais fica aquém. Até ao ponto em que eles estão apegado a aparências, não reparam que as suas mentes são vazias.

E erradamente agarrando-se à aparência de coisas eles perdem o Caminho. Se sabes que tudo vem da mente, não te deixes apegar. Uma vez apegado, estás desatento. Mas uma vez que vês a tua própria natureza, o inteiro Canon passa a ser tanta prosa. Os seu milhares de shastras e sutras só acumulam para uma mente clara. Compreensão vem no meio da frase. Para quê servem doutrinas? A última Verdade está para além de palavras. Doutrinas são palavras.”

Bodhidharma: Bloodstream Sermon


Bodhidharma viveu oitocentos anos antes de Meister Eckhart, e no outro lado do mundo.
Mesmo assumindo o meu conhecimento só fragmentário dos ensinamentos de ambos, parece-me bastante evidente que eles dizem, no essencial, o mesmo.

Como professor em Paris e homem poderoso da Igreja, Eckhart teve acesso a uma enorme parte da literatura disponível no mundo cristão do seu tempo, e daí possivelmente também ao conhecimento do budismo. Mas não acho necessário assumir, nem me parece provável, que o misticismo de Eckhart foi influenciado pelo budismo.
As “doutrinas” dos místicos não são edifícios que se erguem em cima dos ensinamentos dos outros. Não sei se seria possível, mas sei que não é preciso: O conteúdo – o volume de informação daquilo, que os místicos dizem, é quantitativamente muito limitado. E é manifesto uma enorme redundância nos seus discursos! - Uma única vida humana, até uma bastante curta, é o suficiente para abranger tudo. Não há aqui muito detalhe, nem ramificações, não há vastos campos de saber que ficam, como nas ciências, por explorar para futuras gerações de discípulos. (Ao contrário nas ciências, também não há aqui progresso.)

Claro que sei que há essas escolas: não são isso as próprias religiões? Mas nunca me convenceu que elas contribuam, em termos de saber essencial, qualquer coisa relevante para além das mensagens do seus fundadores. Há fundadores de religiões que não o quiseram ser. Do Buddha histórico diz-se que se opôs – em vão – à criação das organizações que se institucionalizaram após a sua morte e que – de facto – asseguraram que os seus ensinamentos chegaram aos nossos dias, embora talvez um pouco corrompidos. (Num desses dias tenciono fazer um post sobre um homem, que com sucesso evitou a fundação duma nova religião em seu torno...)

A minha tese é (caseira, eu sei...), que não é só pelos livros sagrados e pelos mestres/professores que se transmita o conhecimento do Divino. Nem por instituições que se dedicam à tarefa da sua correcta tradição às gerações futuras (e à sua correcta aplicação na vida). Ele está sempre lá, no ar, ou melhor: dentro de nós. Em princípio, Ele está ao alcance de qualquer um. Não é algo que se tem de aprender da forma como se aprende a ler e escrever, ou a nadar: pelo treino. Isto é, pela interiorização e automatização de comportamentos ou raciocínios. Não é assim. É antes o contrário: Um desaprender, um perder de tudo que nos (pré)ocupa, e que nós torna inacessível para Ele. Aquilo que está dentro de nós tem que sair para que haja espaço para Ele entrar. Mas a nós só cabe criar o espaço dentro de nós. Não cabe a nós procurar aquilo que deve ocupar o espaço! Não se trata de substituir algo por nossa iniciativa! Porque seja o que for que nós eventualmente apanhamos para lá meter, se nós o agarrámos, para o lá meter, já o temos transformado num objecto, já não é aquilo que deve, que quer entrar em nós.
Ele entra por si, se Ele quiser. Cabe a nós abrir a porta. Mais nada.

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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A IGREJA E OS JOVENS

Tenho 24 anos. Desde criança que colaboro em actividades paroquiais e em movimentos juvenis da Igreja. Assisti, por isso, a toda uma evolução da atitude da Igreja para com os Jovens, e destes para com ela.

Qualquer jovem gosta de movimento, cor, alegria e diversão. Por esse motivo, e salvo raras excepções, os jovens não se sentem atraídos por longas orações ou meditações. Para um jovem, afastar-se do mundo é morrer. Viver enclausurado, levando uma existência sem alegria, convívio e diversão é o mesmo que morrer. Sempre foi assim e sempre será. Aliás, para bem da Humanidade, espero que assim continue a ser. Caso contrário, o mundo seria um local carunchoso e abafado, sem criatividade e inovação.

Perante tal facto, certa hierarquia da Igreja tem apostado num discurso adequado aos jovens e às suas expectativas, com celebrações acompanhadas de música moderna, grupos juvenis com numerosas actividades lúdicas e recreativas, etc. Em meu entender, esta postura é bastante positiva. Aliás, vem de encontro a uma das mais antigas tradições da Igreja (se bem que pouco referida), que é a aculturação. Desde o início que a Igreja se soube aculturar e adaptar a outras culturas. A história do Cristianismo demonstra-o: de um simples grupo de pescadores da Galileia, transformou-se numa das maiores religiões mundiais. A Igreja cristianizou festas pagãs, adaptou a liturgia aos costumes locais, moldou o discurso consoante aqueles que o ouviam (embora a Mensagem fosse sempre a mesma, claro), etc. Aculturar-se entre os Jovens é o caminho certo. A mensagem de Cristo é de alegria, paz e amor. E na vida há tempo para tudo: tempo para rir e para chorar. Se o próprio Jesus levou uma vida alegre e despreocupada – embora frisando que mais tarde viria o tempo dos choros e das lamentações – quem somos nós para querer impôr jejuns e mortificações aos jovens, contrariando a sua natureza e, quiçá, a forma como Deus quer ser por eles honrado e venerado? Em minha opinião, a postura da Igreja em relação aos jovens deve ser a seguinte: se eles são alegres, que assim continuem. E que a sua alegria seja para maior glória de Deus.

Mas numa coisa a Igreja deve ser intransigente: na pureza da sua mensagem, na firme distinção entre o Bem e o Mal e na recusa do relativismo moral. Além disso, a alegria cristã deve ser positiva, e não um qualquer um escape das agruras do mundo. A festa dos cristãos deve servir para nos elevar até Deus, e não para nos afastar Dele. Até porque “tudo me é permitido, mas nem tudo é lícito”.

Deus não existe nas universidades”, diz-se em certos círculos católicos. É verdade, e não é. Existem vários grupos e associações de estudantes católicos. Mas a Igreja é mal vista entre os estudantes universitários. A maioria destes não compreende a verdadeira essência do cristianismo. E a batalha do futuro consistirá em reconquistar as élites universitárias, intelectuais e artísticas. Ou, pelo menos, fazê-las ter uma melhor percepção da missão da Igreja e da sua verdadeira natureza. É urgente uma nova “aculturação” neste domínio. Creio que, hoje em dia, é esse o grande desafio da pastoral juvenil.


Filipe Alves (RESPUBLICA)

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quarta-feira, junho 23

 

O ÚLTIMO TRAGO NA TABERNA ("E NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO, MAS LIVRAI-NOS DO MAL")

O meus últimos dois textos aqui publicados continham algures no final a frase "o vinho é para se beber moderadamente". Como indiquei no último texto aqui publicado, a frase tinha um sentido metafórico que, embora não explicitado, era óbvio: o vinho, entre outros significados, também poderia significar "espírito", ideias, etc.

O texto que hoje aqui ponho, embora não esgote as potencialidades metafóricas de tal expressão, visa clarificar um pouco o que tinha em mente quando a escrevi.

Não sou um especialista em teologia. Nunca li nenhuma obra sobre a interpretação do Pai Nosso. Julgo que tão célebre oração já foi dissecada e interpretada milhares (milhões) de vezes ao longo da história da Humanidade. Por isso, a interpretação que aqui empreendo hoje das frases finais do Pai nosso ou é absurda ou não é original. Mas é assim que gosto de pensar nelas.

Recorde-se a oração do Pai nosso que o Senhor nos ensinou:

Pai nosso que estais nos Céus
Santificado seja o Vosso Nome
venha a nós o Vosso Reino
seja feita a Vossa Vontade
assim na terra como no Céu
o Pão nosso de cada dia nos dai hoje
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação
mas livrai-nos do mal.

E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Estas frases finais do Pai Nosso sempre me suscitaram uma certa perplexidade. Devo confessar que desde miudo nunca consegui perceber a construção gramatical desta parte. Cheguei a pensar que fosse uma incompreensão da minha parte.

Não sei se existe uma outra explicação de ordem teológica ou se a versão linguistica original permite compreender doutro modo esta parte. A minha incompreensão da construção gramatical desta parte residia no papel da palavra "mas" que normalmente significa que se abre uma excepção para o contrário daquilo que estamos a dizer ou que vamos contrapôr um argumento de ordem contrária. Por exemplo, eu hoje não estava a pensar em passar por aí, mas talvez tenha tempo para passar por aí. Os exemplos poder-se-iam repetir infinitamente. Era estranho que a expressão "não nos deixeis cair em tentação", tentação esta que é certamente a da prática do Mal viesse seguida da expressão "mas livrai-nos do Mal". Deveria ser "e livrai-nos do Mal".

Possivelmente a palavra "mas" representa uma necessidade de equilibrio. Não nos deixais cair na tentação do pecado (consumismo, inveja, superficialidade, etc., em suma, tudo aquilo que são comportamentos que traduzem a adopção de valores incorrectos, que, penso, são comportamentos que representam o pecado). MAS livrai-nos do mal. O mal aqui vejo-o representando a intolerância, o fundamentalismo, o dogmatismo, o radicalismo (por radicalismo entendo uma falta grave ao sentido da proporcionalidade). A História está cheia de casos que, começando pela defesa de causas e valores justos terminaram no Mal mais extremo, precisamente por incompreensão do facto que a luta contra o pecado e a defesa de valores justos tem que ser temperada com o equilibrio do bom-senso (que infelzmente é demasiadas vezes um poderoso argumento do pecado e de quem não quer lutar contra ele). Mas é mesmo assim. Nunca teremos a certeza de em nome do equilibrio estarmos a pactuar com o pecado mas temos que estar vigilantes para encontrar sempre o correcto equilibrio (mas livrai-nos do Mal).

Timshel (TIMSHEL)

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OS AGITADORES DE BANDEIRAS

Na Terra da Alegria parece que temos evitado cruzamento de textos ou chutos contra os colegas de equipa. Por pudor ou não, reservamo-nos no direito de não interferir na pregação semanal de cada um. Quero pegar num passe do José – retirado da já "longínqua" edição de 26 de Maio (corre célere o tempo na blogosfera) – para reflectir sobre a Igreja na sua relação de amor/ódio com os mais jovens.

Dizia-nos, então, o José numa longa e interessante dissertação sobre «a cadeira do bispo ou as coisas como elas são» que «os movimentos de leigos reanimaram-se, sobretudo, a partir dos anos 90: o MCE, as ENS, o CVX, a C&L, etc. Passou a haver uma nova atenção aos jovens, aos casais, aos trabalhadores, aos sem-abrigo. O Banco Alimentar do Padre Vaz Pinto foi uma manifestação mediaticamente visível da solidariedade católica organizada.»

Não quero rebater/contrariar/negar o retrato do José. Longe de mim. De actor privilegiado, de 1988 a 1997, a amigo atento, desde então, de um movimento de jovens estudantes, católicos ou nem por isso – o MCE - Movimento Católico de Estudantes – sinto-me capaz de poder reflectir sobre o muito que se pode dizer a partir daquelas ideias.

«É preciso ter calma»: Abrunhosa sobe ao palco. Recordo muitas e longas reuniões em que participei, ao longo daqueles anos, sobretudo as inevitáveis reuniões com outros movimentos e obras da Igreja, alguns sem grandes afinidades, outros mais próximos dos nossos afectos. E nesses encontros (sobretudo em época de queimas e semanas académicas) era inevitável ouvir-se o discurso contra os estudantes-que-só-querem-festa, com esse perigoso Abrunhosa à cabeça (sim, estávamos no estertor do cavaquismo) e perguntar-se «onde está Deus nas universidades?».

Eu encabulava. Teria de escrever na testa? pegar no livrinho e anunciar sala-a-sala? bater no peito de cada vez que alguém "pecaminava" à minha frente? Caricaturo, claro. Por absurdo. Mas o argumento de contra-ataque era o de perguntar se não se podia fazer a festa também naqueles antros a cantar com Abrunhosa?! E dizia – perante uma plateia de sorriso beatífico, mas pronto para uma excomunhão –, que a mim pouco me interessava ser uma Igreja fora do mundo.

Seguia então o rebanho? Também não (acho eu). Aliás, gostava pouco de ser um grande rebanho. Quantas vezes o MCE era desafiado pelos bispos para estar em todas as escolas e em todas as dioceses?! O desafio era de ordem retórica porque a prática pastoral dos nossos pastores era – é! – contrária a qualquer tentativa de semear mais algumas hortas, quanto mais o latifúndio inteiro.

«E o que tu e eu podemos fazer? Talvez...» Aqui tocava (toca) uma discordância de orientações: na minha caminhada pelos movimentos de Igreja, encontrei sempre uma maior apetência por apoiar/dinamizar/reanimar movimentos e espaços eclesiais que fomentavam o "grande espectáculo". Ou, então, a "oração" em detrimento de meter as mãos no mundo. Um pouco como na política, os jovens eram chamados para agitar as bandeiras: os milhares de jovens daquela peregrinação ou os nossos jovens que iriam abrir a procissão da festa ou do congresso diocesano de leigos... O fermento disto tudo caía por vezes (muitas vezes) fora do alguidar.

Confesso-me descrente deste ser Igreja. Como nas encomendas das almas preferia que as orações fossem os dias de todos e não uma lengalenga bonita para repetir e limpar a consciência. O mundo está aqui. Nós estamos metidos nele da cabeça aos pés.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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QUEM CONTA UM CONTO ACRESCENTA UM PONTO

Uma leitora das mais antigas do meu blogue, a Conceição, mandou-me há dias, por mail um texto de Leonardo Boff, figura de proa da Teologia da Libertação. Devo confessar que esta sempre me mereceu algumas reservas mentais. Não tanto pelos seus contornos ideológicos mas sobretudo pela sua concepção cristológica. Não me vou alongar por aí mas remeto quem estiver interessado para um post no Guia sobre esse assunto. Mas voltemos a Boff. Dele são algumas das mais belas orações que conheço. Dele são alguns textos muito pouco ortodoxos mas que andam, muitas vezes, muito perto de Deus. Este, que a Conceição me mandou e vou transcrever de seguida, é certamente um deles. Fala-nos da disponibilidade total perante Deus que só tem aqueles que tem a mesma disponibilidade perante os outros. Fala-nos duma disponibilidade apenas possível através do abandono de nós próprios. Fala-nos duma disponibilidade perante Deus que é total porque nada espera. Segue-se então o tal texto, uma espécie de conto, belíssimo, tal como a Conceição mo enviou, apenas transposto para português de Portugal. A ela o meu muito obrigado.

Ser disponível

Ele fez de tudo na vida. Foi ateu, marxista, mercenário da Legião Estrangeira. Nas guerras matou muita gente. De repente converteu-se. Fez-se monge sem sair do mundo. Foi trabalhar como estivador. Mas todo o tempo livre dedicava-o à oração e à meditação. Durante o dia recitava orações enquanto trabalhava, como se recitasse mantras.
Estranhamente, tinha um jeito muito próprio de rezar, pensando que se Deus se fez gente em Jesus, então foi como nós: fez chichi, choramingou pedindo peito, fez beicinho com as coisas que o incomodavam. No começo Jesus teria gostado mais de Maria, depois mais de José, coisas que Freud explica. E foi crescendo como as nossas crianças, brincando com formigas, correndo atrás dos cãe e, maroto, levantando os vestidos das meninas para vê-las furiosas, como Fernando Pessoa imaginou um dia. Era em coisas assim que pensava enquanto rezava. Rezava a Nossa Senhora imaginando como ela mimava Jesus, como tratava Dele e também do seu bom José. E como ela se alegrava interiormente com os seus pensamentos espantados porque os sentia e vivia na forma de comoção pura no seu coração. E, rezando e pensando assim, chorava frequentemente de pura alegria espiritual.
Depois decidiu fazer-se religioso, da ordem dos irmãozinhos de Foucauld, desses que vivem pobres no meio dos mais pobres. Continuou a viver no mundo. Apenas se encontrava de tempos a tempos com a sua Fraternidade. Criou uma pequena comunidade na pior favela da cidade. Tinha poucos discípulos. Apenas três, que acabaram todos indo embora.
Só, agregou-se então a uma paróquia que fazia um duro trabalho junto das populações. Trabalhava com os sem-terra e com os sem-abrigo. Corajoso, organizava, se necessário manifestações públicas em frente da Prefeitura e incentivava ocupações de terrenos baldios. E quando os sem-terra e os sem-abrigo conseguiam restabelecer-se, fazia belas celebrações eucarísticas.
Mas todos os dias, por volta das 10 da noite, enfiava-se na escura igreja dessa paróquia. Nela, apenas as velas lançavam lampejos titubeantes de luz, transformando as estátuas mortas em fantasmas vivos e as colunas erectas em estranhos seres. E por lá se quedava sempre, até às 11 horas. Todas as noites. Impassível, de olhos fixos no altar.
Um dia fui procurá-lo na igreja. Perguntei-lhe de chofre: meu irmão, tu sentes Deus, quando depois dos trabalhos, te pões a escutá-Lo na igreja? Ele diz-te alguma coisa?
Com toda a tranquilidade, como quem acorda de um sono profundo, ele apenas disse: Eu não sinto nada. Há muito tempo que não escuto a Sua voz. Já A senti um dia. Era fascinante. Enchia os meus dias de música. Hoje não escuto mais nada. Talvez Deus não me fale nunca mais.
E então, retorqui eu, por que continuas tu, todas as noites, aí na escuridão sagrada da igreja?
Eu continuo, respondeu ele, porque quero estar disponível. Se Ele se manifestar, sair do Seu silêncio e falar, eu estou aqui para escutar. E se Ele quiser falar e eu não estiver aqui? Pois, de cada vez, Ele vem somente uma única vez. Como outrora.


Deixei-o, na sua sua plena e total disponibilidade. Saí maravilhado e meditativo. É por causa de pessoas assim que o mundo não é destruído e Deus continua a manter sua misericórdia perante a humana perversidade: porque eles vigiam e esperam, contra toda a esperança, o advento de Deus que talvez nunca acontecerá.

(Leonardo Boff)


Sim, leram bem: “o advento de Deus que talvez nunca acontecerá”! Boff poderia ter escolhido terminar este texto lindíssimo de uma forma mais fácil para quem o leu, dizendo qualquer coisa inócua do tipo: “o advento de Deus a que ele certamente não assistirá”. Mas não. Boff parece pôr aqui em causa toda a tradição escatológica cristã, canónica através de S.Paulo e S.João, segundo a qual acontecerá um dia o fim dos tempos em que Cristo virá de novo e definitivamente para junto de nós. Um tempo em que uns serão salvos, outros condenados.
Nem sei bem o que dizer disto. Seguramente é por frases assim que Boff foi alvo de censura e ostracismo pelo Vaticano o qual, por natureza e função, tem de cuidar da ortodoxia. Todavia isto aqui pretende ser um espaço e um tempo de reflexão. Nem está no meu feitio anatemizar ousadias teológicas. Prefiro tentar percebê-las. Sobretudo se vierem de quem, como Boff e como também eu, fica fascinado por aqueles que, tendo uma absoluta disponibilidade para Deus, conseguem oferecer-Lhe as suas vidas sem nada exigir Dele. São aqueles para quem o silêncio de Deus é já em si mesmo uma Sua manifestação. São aqueles que tem uma Fé tão grande e tão depurada que já não é menos do que um imenso e incondicional Amor a Deus. São aqueles que, sabendo que nem todos podem ter uma Fé assim, não procuram ser mais do que agentes materiais do Amor de Deus pelos seus filhos, sobretudo junto daqueles que mais precisam Dele.
Para pessoas assim, as questões da salvação e da condenação, as questões do pecado e da graça, são questões que já não tem grande importância. Para pessoas assim não será talvez importante saber se Cristo virá ainda uma derradeira vez pois as pessoas assim sabem que Cristo já veio e ficou a habitar os seus corações.
Ora, era de uma pessoa assim que Leonardo Boff nos falava. Penso que isso explica bem aquilo que ele diz. Blasfémia? Para alguns sê-lo-á certamente mas eu tenho uma esperança enorme que não o seja.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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QUASE

Nota introdutória: este texto foi motivado por alguns textos que foram saindo aqui na Terra, e em particular pela pena do Quase em Português.


Lendo a terra da alegria às quartas, alguns temas vão aparecendo. Um deles, a ligação do catolicismo ao tempo presente. Lendo a terra às segundas podemos encontrar Deus como tema recorrente. Está bem. A problemática religiosa vive num triângulo: Deus, a Igreja e o tempo. Este triângulo multiplica os problemas, mas é também quem fornece a consistência quando qualquer lado tem um tratamento preferencial.

Há muito tempo atrás, perguntava a um amigo se o cristianismo não se poderia reduzir ao segundo mandamento: ama o teu próximo. Advogava um princípio de economia. Se como é dito, o primeiro e o segundo mandamentos são semelhantes, para que precisamos de dois? – Porque não ficar apenas com aquele que parece ter mais pertinência e trazer menos problemas ao tempo que vivemos? - Porque é que não ficamos com a influência cristã e deixamos de lado as complicações de assumir o erro e a problemática da vida comunitária?

Quando respondemos que sim, sim é por isso que vamos ficar, começamos a viver no registo do quase. Este registo solicita habitualmente pelo menos alguma irritação por parte daqueles que pretendem uma vivência religiosa cumprida nas suas três vertentes: crença em Deus, Igreja e acção no tempo. Perguntam: como é que alguém que acredita em Cristo fica longe da comunidade daqueles que também acreditam?

Isso é coisa que quem vive fora da comunidade tem de responder. E não adianta obrigá-lo a responder do modo diferente do modo como responde. A evangelização pode ser muitas coisas. Mas não é certamente – por muito que possa parecer - um exercício de força.

Se é o que é, a evangelização tem de partir do princípio de que o outro tem já – e de um modo que o ultrapassa - as portas abertas. Não é o evangelizador que vai abrir nada. Se São Paulo soubesse que viajava para deparar com portas fechadas, pura e simplesmente não teria feito as viagens que fez. Se ia e deparava com portas abertas, o trabalho de as abrir não podia considerá-lo seu.

O quase à comunidade é um resto que existe no outro e que não deve ser desperdiçado. É uma semente que a qualquer momento pode germinar... Aqui seria bom que uma ilusão corrente fosse largada. Nenhum cristão se pode dar ao luxo, ao mérito ou desespero de pensar que pode tornar um outro cristão. Isso é uma das lições que não devia ser esquecida na ênfase protestante da importância da Graça de Deus.

Fernando Macedo (A BORDO)

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segunda-feira, junho 21

 

A TECNOLOGIA DO RELIGIOSO

Um destes dias daremos aqui atenção ao tema das relações entre ciência e religião. Mas, antes disso, dedico hoje uma pequena reflexão à relação entre religião e pensamento tecnológico.

As grandes religiões dominantes no Ocidentes fizeram um percurso civilizacional que as conduziu a uma certa intelectualização. Nesse espaço cultural, as instituições (as igrejas) preocupam-se com a ciência, procuram esse saber, procuram conciliações e alianças entre conhecimento da matéria e vida do espírito. Individualmente, também muitos crentes esforçam-se por conciliar a sua fé com os seus conhecimentos científicos. Há nisso algo de atraente: a religião não tem de ser obscurantismo. Mas há nisso, também, uma cedência ao núcleo ideológico central do cientismo. Na ideologia do cientismo, a ciência tende a tudo explicar e as alternativas de compreensão que não passam pela ciência tendem a extinguir-se. Muitas vezes, a “fé esclarecida” assemelha-se perigosamente à fé explicada aos intelectuais.

Essa intelectualização abriu um espaço às concepções mágicas do sagrado. Nessa mundividência, a manipulação de certos objectos, com certas conotações, por pessoas com certos “saberes” e “poderes”, produz certos “resultados” e “resolve” certos problemas. Por encomenda. Esse é o fascínio de certas seitas, mas também de certas franjas das igrejas dominantes. Que assim respondem à dominante “ideologia do tecnológico”. Um caso que, para o meu ver, é disso exemplo: as práticas exorcistas, que a hierarquia mais formal vê com maus olhos e tenta enquadrar e limitar, mas que continuam a existir e são bem aceites pela “religião popular”. O exorcismo pretende resolver, por uma manipulação de certos sinais, uma avaria do espírito. A possessão é um desarranjo que um bom mecânico repara. O exorcista é o especialista que detém o segredo das peças de origem. A marca da sua capacidade tecnológica é que a sua intervenção transforma um comportamento anterior aberrante num comportamento posterior estatisticamente normal. E tudo isto depois de o behaviorismo mais descarado ter sido expulso da posição dominante mesmo na psicologia científica.

Este, como outros fenómenos de magia “para resolver desarranjos”, traduz talvez uma resposta à intelectualização das religiões oficiais dominantes. À tendência pesada para esquecer o corpo, para esquecer as emoções e os afectos que deveriam contar numa experiência do sentido (do sagrado). Mas, creio eu, esse recurso à tecnologia do religioso traduz a nossa própria redução à condição de robot que precisa de uma intervenção. A experiência tecnológica da religião é o grau zero do sentido – mas vai muito bem com o ar do tempo.

Porfírio Silva (TURING MACHINE)


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AQUELAS DEZ MULHERES DE SHIRAZ...

Quando em 1984 aceitei a Fé Bahá’í, falava-se muito em perseguições religiosas no Irão. Um dos alvos do fanatismo da revolução iraniana tinha sido a comunidade bahá’í daquele país (creio que aconteceu com praticamente todos os regimes); muitas famílias bahá’ís que tinham possibilidades, abandonavam o Irão e instalavam-se noutros países.

Entretanto as notícias que iam chegando do Irão eram uma torrente de angústias. A casa do Báb, em Shiraz, tinha sido destruída; os membros da Assembleia Nacional dos Bahá’ís do Irão tinham sido enforcados; cemitérios Bahá’ís eram profanados; crentes socialmente conhecidos eram raptados e fuzilados... Não havia boas notícias vindas do Irão.

Desde o início da revolução islâmica 1979 que os Bahá’ís no Irão eram alvo de perseguições sistematizadas; dezenas de milhar ficaram sem emprego, viram as suas pensões de reforma canceladas, as empresas eram confiscadas ou encerradas; jovens e crianças foram expulsos das escolas.

Foi no Irão que nasceu a Fé Bahá’í; A comunidade bahá’í do Irão constitui a maior minoria religiosa daquele país (350.000 pessoas). Há muito tempo que os fundamentalistas islâmicos viam a nova religião como uma heresia e uma ameaça à sociedade. Princípios Bahá’ís como a revelação progressiva, a livre e independente investigação da verdade, a igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres e a necessidade de instrução escolar para toda a população são conceitos que irritam os clérigos muçulmanos

Um dos momentos mais dramáticos das perseguições que se seguiram à revolução, deu-se em Junho de 1983, as autoridade iranianas prenderam dez mulheres que leccionavam aulas bahá’ís para crianças (o equivalente à catequese, em Portugal). Estas mulheres foram sujeitas a intensos abusos físicos e mentais, sempre com o objectivo de as forçar a negar a sua fé. Tal como a maioria dos Bahá’ís que tinham sido presos, mantiveram-se firmes.

No dia 18 desse mês, essas dez mulheres bahá’ís foram enforcadas. Este acto foi particularmente chocante para os Bahá’ís, pois vulgarmente apenas os homens eram alvo de execuções. A mais nova dessas mulheres era uma adolescente de 16 anos; chamava-se Mona Mahmudnizhad. A história de Mona mereceu muita atenção mediática: vários livros publicados, foram publicados muitos artigos em revistas e jornais e até um videoclip descrevendo o seu martírio foi lançado (link).

Nos anos seguintes, a Comissão dos Direitos Humanos da ONU foi condenando repetidamente o Irão; no início dos anos 90 as perseguições perderam o seu carácter violento; mas as discriminações continuaram.

Após 25 anos de Revolução Islâmica, os mulláhs bem poderiam fazer um balanço das suas perseguições aos bahá’ís; por paradoxal que pareça, as perseguições no Irão contribuíram para que a religião bahá’í se tornasse mais conhecida em todo o mundo; muitos crentes iranianos se espalharam pelo mundo e estimularam fortemente o crescimento das comunidades bahá’ís em diversos países; e o tema das perseguições levou a que a Comunidade Bahá’í ficasse conhecida nos organismos internacionais.

Não tivessem existido perseguições no Irão, e ainda hoje a comunidade Bahá’í seria quase desconhecida.

Fotos das 10 mulheres.

Marco António Oliveira (POVO DE BAHÁ)

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AUGUSTO COMTE E A "LEI DOS TRÊS ESTADOS"

Comte é um dos filósofos responsáveis pela introdução de erros sistemáticos na intelectualidade ocidental. A sua pretensa "lei dos três estados" é um excelente exemplo disso.
René Guénon, por seu lado um feliz exemplo de intelectualidade contemporânea "contra-corrente", mesmo no final da sua obra La Grande Triade, dedicada ao ternário extremo-oriental Céu-Terra-Homem ("Tien-ti-jen"), brinda-nos com um capítulo intitulado Déformations Philosophiques Modernes, onde trata da questão aqui levantada.
Sigamos um pouco as suas palavras, visto que há pouco a acrescentar ao que diz Guénon:

"(...) queremos falar da pretensa «lei dos três estados» de Auguste Comte; mas, como a relação desta com o assunto em causa pode não parecer evidente à primeira vista, algumas explicações sobre este assunto não serão porventura inúteis, porque com ele temos um exemplo assaz curioso da forma como o espírito moderno pode desnaturar um conceito de origem tradicional (...).
O erro fundamental de Comte, a este respeito, é o de imaginar que, qualquer que seja o género de especulação ao qual o homem se entregue, ele nunca se propôs a nada que não fosse a explicação dos fenómenos naturais; partindo deste ponto de vista estreito, ele é forçadamente levado a supor que todo o conhecimento, de que ordem seja, representa a explicação destes fenómenos. Juntando então a esta ideia pré-concebida uma visão totalmente fantasiosa da história, ele crê descobrir, em conhecimentos diferentes que coexistiram na realidade, três tipos de explicações que ele considera como sucessivas, porque, relacionando-os erradamente a um mesmo objecto, ele os vê naturalmente incompatíveis entre eles; ele fá-los então corresponder a três fases que o espírito humano teria atravessado no curso dos séculos, e que ele chama respectivamente de «estado teológico», «estado metafísico» e «estado positivo».
Na primeira fase, os fenómenos seriam atribuídos à intervenção de agentes sobrenaturais; na segunda, seriam atribuídos a forças naturais, inerentes às coisas e não transcendentes em relação a elas; finalmente, a terceira seria caracterizada pela renúncia à busca das «causas», que seria então substituída pela das «leis», ou seja de relações constantes entre os fenómenos.
Este último «estado», que Comte vê aliás como o único definitivamente válido, representa de forma bastante exacta a concepção relativa e limitada que é com efeito a das ciências modernas; mas tudo o que diz respeito aos outros dois «estados» não passa de um amontoado de confusões (...)

(...) no dito «estado metafísico», as noções das diferentes forças naturais teriam tendido cada vez mais a se fundirem na de uma «entidade» única, designada como a «Natureza»; vemos aliás deste modo que Comte ignorava totalmente o que é a metafísica, porque, desde logo que a questão é a «Natureza» e as forças naturais, é evidentemente de «física» que se trata e não de «metafísica»; ter-lhe-ia bastado referir-se à etimologia das palavras para evitar um erro tão grosseiro (...)

(...) levado pela necessidade mais ou menos consciente de realizar uma espécie de paralelismo entre o «estado positivo» e os outros dois «estados» tal como ele os representou, ele viu o apogeu no que ele apelidou de «religião da Humanidade». Vemos então, como termo «ideal» dos três «estados», respectivamente Deus, a Natureza e a Humanidade; não insistiremos mais, porque isto chega para mostrar que a muito famosa «lei dos três estados» provém realmente de uma deformação e de uma aplicação falseada do ternário «Deus, Homo, Natura», e o que é mais espantoso é que parece que nunca ninguém de tal se tinha apercebido." - René Guénon, La Grande Triade, Editions Gallimard, 1957, pp. 167-171.

Guénon também critica neste capítulo a forma como Comte concebe o primeiro e o terceiro "estados", mas incluir essas críticas tornaria este artigo muito longo. Remetemos o leitor interessado para a obra em causa.
Para terminar, podemos, através das palavras de Guénon, fazer uma analogia com a crença moderna no "progresso", que está eivada do mesmo tipo de preconceitos que nortearam o pensamento de Comte. Este conceito de "progresso" impõe a crença generalizada de que, antes da modernidade racionalista, positivista e cartesiana, o Homem simplesmente "pensava mal", tendo vindo a aperfeiçoar a sua forma de ver e compreender a realidade.
Tal forma de conceber o curso intelectual do Homem, se representa um "progresso", é na direcção errada, ou seja, em bom português, trata-se de um "retrocesso" intelectual! E contudo, é no trabalho de filósofos como Comte que se encontra a base epistemológica das ciências modernas, o que é preocupante...

Bernardo Sanchez da Motta (ESPECTADORES)

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A ATENÇÃO

“Cristo ensinou-nos (a parábola do bom samaritano), que o Amor ao próximo sobrenatural é a troca da compaixão e da gratidão, que acontece como um relâmpago entre dois seres, dos quais um é revestido daquilo que o constitui como ser humano e o outro é privado disso. Um dos dois é só um pouco de carne nua, sangrento e sem vida na berma da rua, um sem-nome, de quem ninguém nada sabe. Os que passam por aquilo, mal reparam nele e esqueram momentos depois, que nele tinham reparado de todo. Um único pára e dedica-lhe a sua atenção. O que se segue àquilo em actos, só é a reacção automática deste momento de atenção. Esta atenção é criativa.
Porque o amor ao próximo se baseia na atenção criativa, ele parece-se com a genialidade. A atenção criativa consiste nisto, que se está mesmo atento àquilo que não existe. A humanidade não existe neste pedaço de carne sem vida na berma da estrada. O samaritano, que mesmo assim pára e olha, dirige mesmo assim a sua atenção àquela humanidade ausente, e os consequentes actos são prova de que se trata de atenção verdadeira.
A Fé, diz Paulo, é a visão daquilo que não vemos. Neste momento da atenção a Fé está tão presente como o Amor.
O Amor vê o invisível.”

Este pequeno texto sobre a parábola do bom samaritano, que é duma carta que Simone Weil escreveu ao Padre J.M. Perrin, é de uma grande utilidade prática. Porque explica com clareza, que aquilo que separa a humanidade da inumanidade não é o sentimento da compaixão, embora que esse por si só, uma vez despertado, funciona de facto como motor das acções, que a humanidade requer de nós. (E que pode ser bastante ou não, na medida em que as circunstâncias, a nossa cobardia e o nosso egoísmo lhe podem colocar limites.)
Todos nós, excepto uma minoria muito pequena, somos capazes dos bons sentimentos da generosidade, do amor e da compaixão, e de boas acções per eles induzidas.
Adolf Eichmann, o organizador do holocausto, por exemplo, era. Quando foi captado 1962 pelos serviços secretos de Israel e interrogado no âmbito do seu famoso processo, que levou a sua condenação a morte e a consequente execução, a sua grande preocupação e angústia não se relacionaram com a sua vida. Estava preocupado com a hipótese que os judeus podiam vingar-se na sua família: nos seus filhos e netos!

Não quero aqui especular sobre o espectro seguramente muito lato, os diferentes graus, em que pessoas diferentes são capaz desses sentimentos. O que importa é ver que esses por si só não protegem o mundo da inumanidade. Porque só terão consequências positivas se são despertados. E são-no de forma rara e selectiva.

Simone Weil aqui justamente enaltece a atenção, como capacidade criativa de humanidade. Neste texto, no entanto, quero focar-me naquilo que condiciona o seu exercício.

É verdade que esta atenção é uma grande virtude. Mais: A primeira e principal virtude. Ao contrário de outras virtudes, que aprendemos, com custo, na medida em que crescemos e ficamos adultos, o que acontece com esta é geralmente o contrário. Desaprendemo-na.
Lembro-me – é verdade que já só vagamente – que como criança tinha dela uma boa dose. Uma desgraça que via, via a mesmo. Fazia-me pesado o coração e não me deixava descansar até ver que iria ser remediada. Ainda tinha aquela fé ingénua de quem vive uma infância feliz e num mundo aparentemente intacto: de que qualquer desgraça tinha remédio! Na medida em que cresci, perdi essa ingenuidade, e descobrindo um mundo repleto de desgraças sem remédio à vista fui me blindando emocionalmente. Sem realmente dar por isso, passei por um programa de dessensibilização.

Culpa da sociedade egoísta e materialista? Sim. Culpa minha? Certamente. Mas também não posso fechar os olhos ao facto que ninguém, com a excepção de Jesus Cristo (e aqui, como descrente que sou, admito a hipotese: nem ele!) é capaz de ter a atenção criativa, da qual a Simone Weil fala, a mesmo toda a desgraça que passa perante os seus olhos.
O que mereceria a nossa atenção é demais para qualquer um. Só se escolhesse viver num ambiente muito fechado, com poucos contactos para o mundo, como num convento por exemplo, sem TV, Internet, etc. e com pouca vida pública e social, seria talvez capaz de ter a atenção devida para o que se passa a minha frente. (Não o pior argumento em favor da vida monástica...)
Para todos nós, que não temos essas condições, resta ter uma atenção selectiva.

Por ser praticamente inevitável, não deixa de significar que escolhemos cada vez, quando escolhemos não olhar, a inumanidade. Que optamos por não reconhecer no próximo o irmão, que optamos - por usar uma palavra que uso com pouco à-vontade e gosto - pelo pecado.
Isto é fraqueza. Mas onde realmente entra o Mal no mundo, em grande escala, não é pela fraqueza. É no estabelecimento de critérios de selecção para os objectos da nossa atenção, e na sua institucionalização. A selecção deixa de ser pecado e não só o que ela exclui, ela própria desaparece da nossa consciência, na medida em que se estabelece como padrão socialmente aceite.

A selecção - essa palavra tem, para quem se lembra de Auschwitz, uma conotação terrível, que aqui vem muito à propósito - divide entre quem reconhecemos como humano e o resto. Talvez eu não tenha força de envolver-me com todos que o merecem, mas é preciso – e possivel - manter a consciência de que esse resto só o é por incapacidade minha. Que, realmente, o resto existe ou, para dizer o mesmo ao contrário: que, na verdade, não existe um resto. Mesmo não sendo capaz de lhe dirigir a atenção humana devida, não tenho o direito de ignorá-lo, de perdê-lo de vista por completo.

Porque o outro, que desaparece, desaparece não só como candidato concreto à minha caridade. Como candidato à caridade até, por vezes, e depois a desgraça ter acontecido, pode reaparecer. (Lança-se uma campanha humanitária...)
Mas ele também desaparece como factor com o qual contamos nas opções políticas, nas escolhas entre alternativas complexas. Ele, que não está presente, acaba de morrer da fome numa terra longinqua qualquer, flagelado por uma guerra civil alimentada com armas cuja venda ajuda à nossa economia, acaba esmagado debaixo das lagartas dos nossos tanques numa guerra “justa”; acaba afogado nas cheias num delta qualquer, em consequência de problemas ambientais que a nós convém ignorar.

Se a palavra caridade para mim tantas vezes soa à hipocrisia, então é nestes casos: quando - emocionados - tentamos remediar um pouco a desgraça dos homens que antes tinhamos optado por não considerar nos nossos planos.

P.S.:
Como reacção ao meu post sobre Simone Weil, no TdA da Segunda-feira passada, recebi um e-mail dum leitor do TdA, Marcus Pimenta, que simpaticamente enviou dois interessantes textos críticos. Um sobre o misticismo medieval, um excerto do livro - aliás muito recomendável! - O Outono Da Idade Média, da autoria de Jan Huizinga, e um texto sobre Simone Weil, do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Quero, antes de mais, aqui agradecer e exprimir o meu contentamento sobre este eco. Os dois textos podem ser lidos neste link, que também referi no Quase em Português. Convido os interessados para comentar e debater estas críticas nos comentários a este post.

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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quarta-feira, junho 16

 

AGRADECIMENTOS

Este é o décimo segundo número da Terra da Alegria. Nesta contagem estamos a incluir as edições especiais de 2ª feira pois é por demais evidente que são tão ou mais importantes que as edições normais das 4ªs feiras.

E como vai sendo tempo de agradecimentos, começamos por agradecer àqueles homens de boa vontade que em boa hora aceitaram o nosso desafio e vieram connosco cultivar a Terra. Falamos do Bernardo, do Filipe, do Lutz, do Marco, do Vítor, do Porfírio. Gostaríamos de vir a falar de mais uns tantos e, particularmente, umas tantas, pois reconhecemos que vão faltando aqui vozes no feminino. Esperemos que por pouco tempo.

Agora queríamos agradecer a quem na blogosfera nos tem enviado palavras simpáticas e motivantes. Falamos em primeiríssimo lugar da "tribo" dos evangélicos, o seu semanário, Os animais evangélicos, e em particular o Tiago Cavaco, o Samuel Úria, o David Bengelsdorff, o Paulo Ribeiro.


Falamos também do Zé Filipe do que tem sido um leitor atento e participativo. Porque não um colaborador mais? Fica o desafio.

Agradecemos entretanto as simpáticas palavras do Adufe. E o enigma de Las Vegas. O que aparece nos Extractos, em Coruche, no Prima desblog e no Blasfémias.

Por fim, agradecemos o acolhimento que nos feito na Ecclesia.

Faltam com certeza referências justas e devidas. Falta também agradecer aos blogs que nos linkaram. Mas desde já e a todos o nosso muito obrigado.

A EQUIPA DA TERRA DA ALEGRIA

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NA TABERNA

Existe um tempo para as metáforas e as alegorias e um tempo para a linguagem directa e unívoca. Este vai ser um texto deste tipo. Nada do que nele é dito deve ser interpretado de outra forma que não no seu sentido literal.

O abrupto escreveu um post no dia 11de Junho que considero um dos mais belos posts que já foram escritos na blogosfera portuguesa. Talvez porque me identifique profundamente com ele. Sempre vivi e senti as sensações de pancadaria intelectual com os meus adversários (e também a física na sequência do combate ideológico, mas num tempo que já lá vai) como uma forma suprema de confraternização.

Neste universo de valores que reconheço profundamente masculino (por razões que desconheço as mulheres são-lhe, normalmente, profundamente insensíveis) a luta é cultivada como se se tratasse de um teste para aferirmos a qualidade humana dos nossos adversários. Aqueles que guardam rancor, arrogância ou despeito do conflito que pertence agora ao passado são seres humanos a evitar. Aqueles que passam esse teste mantendo a gentileza, a humildade e o humor são seres humanos cuja companhia nunca deixará de ser agradável.

Passo a citar excertos desse post do abrupto:

"Porque foi assim que conheci Lino de Carvalho, à pancada. Preciso: numa breve cena colectiva de pancadaria, daquelas que não se sabe bem como começam e como acabam (.../...) Falámos algumas vezes, eu e ele, com bonomia, sobre essa cena e trocávamos algumas pequenas provocações sobre o murro que ele me deu e a cadeirada que eu tentei dar-lhe. (.../...) É um mundo que está a acabar."

O post da semana anterior que aqui escrevi sobre o vinho era aparentemente anti-protestantes. Os protestantes - Voz do deserto, Bengelsdorff, quero roubar-te a carteira - compreenderam que o post era uma brincadeira e reagiram em conformidade. Todavia, num comentário a um outro blogue vi uma interpretação excessivamente literal desse post e decidi escrever um post no meu blogue a esclarecer que o que aqui escrevi na semana passada, para além de uma brincadeira, tinha um significado metafórico.

Não estava com inspiração quando comecei a escrever o post da semana passada sobre o vinho (sentia o prazo de entrega do texto aos companheiros do Terra da Alegria a aproximar-se perigosamente) e tinha de facto bebido uns copitos de vinho não obviamente com a intenção de ganhar inspiração mas num outro contexto que não é aqui chamado à colação. Fosse pelos copitos de vinho, fosse pela navegação pela net em busca de inspiração, comecei a escrever. À medida que ia escrevendo (textos em grande parte copiados da net) comecei-me a dar conta da possibilidade de interpretação alegórica de alguns elementos do post.

Essas alegorias comportavam uma componente manifesta de agressividade irónica relativamente aos protestantes. Mas até a categoria "protestantes" podia ser alegórica. Por isso, não me importei. Essas interpretações eram possíveis mas eram igualmente possíveis outras interpretações, algumas delas de duvidoso catolicismo. Por outro lado, como já referi, sentia a vertigem da luta, da agressividade trabalhada, da possibilidade de uma polémica deliciosa. Os amigos protestantes reagiram admiravelmente e apreciei a sua reacção. Contudo, depois de esclarecer no meu blogue o comentário acima referido explicitando que o post do vinho continha obviamente uma metáfora senti que estava de algum modo a ultrapassar a linha da elegância.

As metáforas eram (são) múltiplas, algumas das quais me dei conta (e que estruturei deliberadamente) mas outras que surgiram "por acaso" (algumas das quais, possivelmente, ainda nem sequer apercebi conscientemente). Mas ninguém se podia sentir atingido por elas: era um jogo metafórico que pretendia que quem o lesse descobrisse alguma coisa divertida e que o fizesse pensar (coisas que nem eu próprio possivelmente descobri). Não eram, de certeza absoluta, coisas que visassem humilhar cobardemente, sob a capa da ironia humorística, alguém, pelas suas convicções religiosas ou outras. Nesse sentido, seriam quando muito um exercício de auto-ironia. Aproveito para deixar aqui claro duas coisas.

A primeira é que não admiro particularmente a vivência religiosa baseada em muitas certezas, seja em que religião for, em especial na minha, o catolicismo. Para além do amor julgo não serem necessárias muito mais certezas. Quanto mais certezas, maiores são as possibilidades de autoritarismo e susceptibilidade. E o autoritarismo e a susceptibilidade estão nos antípodas do amor. E é por isso que o amor tem que ver com humor. Recordo um excerto de um post que escrevi em 21 de Março passado:

"O discurso humorístico é um simples exercício intelectual mais ou menos conseguido. Não foi feito para rebater ou sustentar discursos e argumentações: foi feito para divertir e, eventualmente, fazer pensar. O humor é um exercício lúdico e, quando muito, pedagógico. Neste sentido ele é completamente neutro: tanto pode ser utilizado para atacar ou defender ideias ou atitudes correctas como ideias ou atitudes incorrectas."

Quando pretendo discutir a sério a justiça ou a verdade de uma ideia ou valor nunca utilizo o humor mas sim um raciocínio de tipo argumentativo, franco, aberto e sem qualquer tipo de metáforas, alegorias ou ambiguidades.

É verdade que o humor é um exercício no arame. Nunca se sabe se, independentemente das nossas intenções, ele é objectivamente agressivo. É um risco. Mas considero o humor demasiado importante para prescindir dele em nome desse risco. E espero que Deus me dê a clarividência suficiente para nunca passar as fronteiras da elegância e do bom senso.

Gostaria de sublinhar que respeito profundamente quem bebe muito (como eu) tal como respeito profundamente quem é abstémio seja por razões de convicção religiosa – e descobri através do meu amigo Marco que na religião Bahá existe um imperativo nesse sentido – seja por razões de convicção pessoal. Gostava de deixar claro que nada tenho contra quem não bebe vinho e não me passaria pela cabeça insultar consciente ou inconscientemente um abstémio. São comportamentos privados sobre os quais não tenho nada que emitir juízos de valor.

Devo contudo sublinhar, em abono da verdade, que as ciências do comportamento indicam que o álcool em excesso pode provocar graves perturbações da personalidade, perturbações essas que tendem, mais vezes do que o desejável, para o Mal. Por isso, sublinho que a minha última frase do post da semana passada sobre o vinho ("O vinho é para se beber moderadamente") deve igualmente ser levada à letra e não só metaforicamente.


Timshel (TIMSHEL)

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O BODE EXPIATÓRIO E A GLOBALIZAÇÃO

Nota prévia: um leitor da TdA e do Guia, leitor atento mas hostil, censurou-me por não fazer citações nos meus artigos e posts, e isto ao contrário do saudável exemplo dos meus amigos aqui da Terra da Alegria. Maliciosamente, este leitor fatal encontra duas explicações possíveis para esta minha lamentável prática: falta de erudição e/ou excesso de presunção. Duas vezes bingo! Pois bem, hoje vou tentar redimir-me. Vou citar, em abundância e em itálico.



Já há uns tempos o Fernando Macedo falou-nos do René Girard. Por curiosidade fui investigar sobre este homem, um antropólogo francês radicado nos Estados Unidos, onde, segundo dizem, foi um dos criadores da antropologia da religião.
Antes disso, o homem desenvolveu uma teoria global do conflito nas sociedades humanas baseada na análise do papel central do bode expiatório, considerando que o fenómeno religioso arcaico era essencialmente resultado de algo que chamou de "fenómeno vitimário":

O acto fundamental da sociedade primitiva, que está na origem da nossa, é designar uma vítima, um bode expiatório, e cultivar a ilusão de sua culpabilidade para permitir a expulsão de toda a espécie de tensão coletiva. É uma verdadeira tentativa de pacificação por intermédio de uma vítima que, ao reúnir um grupo todo contra si, produz mimeticamente um apaziguamento, até uma reconciliação. Ao longo da Antiguidade, as sociedades reproduziram esse gesto reconciliador sob a forma de sacrifícios ou ritos sagrados e essa repetição tornou-se, em si mesma, uma instituição. É o caso, típico, da lapidação, codificada pelo Livro do Levítico. Além disso, os etnólogos demonstraram, já há muito tempo, que havia uma forma primitiva de justiça grega por meio do assassinato coletivo ou linchamento ritual. Há um relato lendário grego surpreendente, que põe em cena Apolónio de Tiane. Para pôr fim a uma epidemia, Apolónio designa à punição popular um mendigo asqueroso, mas totalmente inocente. O infeliz é morto à pedrada e, assim que se retiram as pedras que o recobrem, descobre-se em seu lugar um monstro assustador que representa o demônio vencido, a doença erradicada.

Girard analisou longamente o Cristianismo à luz do tal “fenómeno vitimário”. Andou assim às voltas do acontecimento central da nossa Fé, a morte de Cristo às nossas mãos e Sua posterior ressurreição. E chegou a conclusões surpreendentes.

Em primeiro lugar que o ideário judaico-cristão representa neste particular aspecto uma ruptura com os mitos arcaicos: Nos mitos antigos, as vítimas são sempre culpáveis, pois o relato é sempre escrito do ponto de vista da ilusão criada pelo fenômeno vitimário. É por ser culpável que a vítima apaga a violência e acede ao status mítico. No universo mental judeo-cristão, ocorre o inverso: a vítima é inocente! Veja-se a diferença entre Caim e Abel de um lado e Rómulo e Remo de outro. Remo é culpável, já que Rómulo virá a ser o fundador glorificado de Roma. Ao contrário, Deus pergunta a Caim: "Onde está teu irmão Abel? O que fizeste?" Certamente, Deus aceita fundar o gênero humano sobre essa base de violência, mas ao mesmo tempo Ele se preocupa com a sorte de Abel, vítima inocente.

Girard relembra que no começo do cristianismo há um fato essencial: os discípulos traem todos! Eles são levados pelo entusiasmo usual contra as vítimas: Pedro representa o modelo de indivíduo que, no meio de uma multidão hostil à vítima, se torna hostil também... como todos. E depois, tudo muda, a lógica arcaica é invertida e os discípulos acabam por ficar não contra a vítima, mas a seu favor. Em oposição ao que disse Nietzsche - "O cristianismo é a multidão" -, a fé cristã exalta o indivíduo que resiste ao contágio vitimário. Por outro lado, a fé cristã consiste em pensar que, diferentemente das falsas redenções míticas, que estão realmente enraizadas em violência expiatória, a ressurreição do Cristo nada deve à violência dos homens. Ela se dá depois da morte do Cristo, inevitavelmente, mas não em seguida, apenas no terceiro dia, e encontra sua origem no próprio Deus.

Girard relembra também que , ao contrário de Apolónio de Tiane e ao contrário também do disposto no Levítico, Jesus interrompe o apedrejamento da adúltera, dizendo: "Aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra." O propósito de Jesus é transcender a lei mosaica, o que vai levar ao requestionamento do fenómeno vitimário. Antes, contudo, esse requestionamento vai semear a desordem entre o povo e incitá-lo a matar Jesus!

Mas o que fica é o facto de que, suprimindo o papel do bode expiatório, salvando os linchados, proclamando o valor da inocência, oferecendo a outra face, a fé cristã priva bruscamente as sociedades antigas de suas vítimas sacrificiais habituais. Não se exorciza mais o mal exercendo violência sobre um culpado designado, cuja morte traz apenas uma falsa paz. Ao contrário, tomamos partido da vítima recusando a vingança e aceitando o perdão das faltas. O que supõe que cada um zele pelo outro atendendo a princípios fundamentais e que cada um zele por si mesmo.

Reflectindo sobre o facto de que já na era cristã e nas sociedades ditas cristãs terem permanecido, apesar de tudo, resquícios inapagáveis do primevo fenómeno vitimário (perseguição dos judeus, a caça às bruxas e aos herejes, protagonizados por exemplo pela arcaíssima Inquisição), Girard diz uma coisa interessante e, também, reconfortante:

A exigência cristã produziu uma máquina que vai funcionar a despeito dos homens e dos seus desejos. Se ainda hoje, após 2 mil anos de cristianismo, se censuram muitos cristãos por não viverem conforme os princípios que eles pregam é porque o cristianismo se impôs universalmente, mesmo entre aqueles que se dizem ateus. O sistema posto em movimento há 2 mil anos não vai parar, pois os próprios homens se encarregam disso muito para além de qualquer adesão ao cristianismo. O Terceiro Mundo, tanto o cristão como o não cristão, acusa os países ricos de o fazerem sua vítima, acusando justamente os ocidentais de não seguirem os seus próprios princípios. Todo o Mundo recorre assim ao sistema de valores cristão e, ao fim e ao cabo, acaba por não haver mais outros que sejam verdadeiramente universais. O que significam os direitos do homem senão a defesa da vítima inocente? O cristianismo, em sua forma laicizada, tornou-se de tal maneira dominante que não vemos nada melhor do que ele. A verdadeira globalização é o cristianismo!

E esta, hem?


José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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terra da alegria. 2004.


 

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