<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, maio 26

 

VAMOS TODOS JOGAR GOLFE

Rendimento global, em milhões de dólares, auferido pelo golfista americano Tiger Woods, em 2002: 78.
Percentagem do rendimento de Tiger Woods que provém de contratos de publicidade, imagem ou patrocínio: 91.
Montante diário, em dólares, que Tiger Woods recebe da marca de equipamento desportivo Nike: 55000.
Montante diário, em dólares, auferido pelos trabalhadores das fábricas da Nike instaladas na Tailândia: 4.

Estes dados retirei-os de uma das páginas mais pertinentes (e impertinentes) da imprensa portuguesa. Chama-se «O Índex», sai na revista «Pública», aos domingos no Público, e em breves pinceladas Paulo Anunciação - o seu autor - mostra números que nos divertem, nos fazem corar ou que nos provocam. Como os que transcrevi. Não quero iniciar aqui um boicote aos produtos da Nike, mas o exemplo cai que nem uma luva naquilo que pretendo aqui trazer - um manifesto contra a pobreza, que poderia ser alinhado em meia dúzia de novos mandamentos, com a inscrição da palavra PARTILHA traduzida em várias acções concretas.

Não quero aqui discutir ciências económicas. Apenas dar voz à necessidade de uma opção pelos mais pobres. Esta expressão não é o mesmo que a caridadezinha pífia que muitos católicos gostam de apresentar como cartão de visita, como coisa sua. Maldita propriedade: "Já dei a minha esmolinha", diria a beata da freguesia, "ao meu pobrezinho" - numa versão utilitária da pobreza, desenhada a partir da Idade Média.

A opção pelos mais pobres significa tolerância zero com a pobreza. Mas não ao jeito das políticas europeias dessas épocas, em que a escolha das autoridades balançava entre «a piedade e a forca», na expressão de Bronislaw Geremek*.

Tolerância zero com a abundância que não serve a ninguém, com os excedentes agrícolas feitos lixo, com uns a terem tanto e cada vez mais e tantos a terem pouco e cada vez menos. Tolerância zero com o fosso que aumenta entre os salários dos patrões e a precariedade e ordenados dos empregados. Tolerância zero com políticas que esquecem os mais pobres e com políticos que se dizem católicos e combatem algumas das medidas mais sérias e duradouras, no tempo e na forma, a favor do fim dos ciclos da pobreza - como é o rendimento mínimo garantido, por exemplo.

A opção pelos mais pobres não é um slogan político. É uma prática difícil. A Igreja Católica também ajudou à confusão ao deixar propagar-se a ideia (descontextualizada) e, muitas vezes, a prática de «felizes os pobres»... Mas também lemos na Bíblia que «será mais difícil um rico entrar no reino dos Céus do que um camelo passar o buraco de uma agulha». Não sejamos camelos. Aqui não se prega a pobreza franciscana, mas também não se quer o fausto dos greens. Pede-se antes uma luta mais simples e ao alcance: uma redistribuição dos bens, de todos os bens, sem olhar a quem - um campo de golfe com todos a dar tacadas, onde o miúdo tailandês da fábrica da Nike ganhará muito mais do que 4 dólares.

* - Bronislaw Geremek, A Piedade e a Forca - História da Miséria e da Caridade na Europa, Terramar, Lisboa, 1995.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?