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segunda-feira, maio 31

 

UM GRANDE ESPECTÁCULO...

Após a tomada de Badajoz pelas forças franquistas, foram julgados e condenados à morte vários prisioneiros republicanos. Em Portugal, onde a guerra civil espanhola era seguida com toda a atenção, organizaram-se excursões para assistir a esses fuzilamentos em Badajoz.
Presumo que a maioria das pessoas que estava nessas excursões alinhava pelas ideias do Estado Novo. O objectivo da viagem era assistir à punição dos agressores da sociedade, daqueles que atentavam contra o nosso modo de vida, a “tranquilidade social” defendida pelo antigo regime. A viagem a Badajoz era uma manifestação da solidariedade aos franquistas e uma afirmação da ideologia política de cada um dos excursionistas.
Numa dessas excursões, os anfitriões espanhóis cederam uns lugares especiais aos convidados portugueses para que pudessem apreciar todos os pormenores das execuções. Aconteceu que os homens que iam ser fuzilados pararam por uns instantes em frente aos convidados portugueses.
Um desses homens percebeu que estavam ali estrangeiros para assistir à sua morte. Olhou alguns deles nos olhos e perguntou-lhes “Sois portugueses, verdade?” Alguns responderam que sim. “É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?” perguntou-lhes o condenado.
Esta pergunta deixou profundamente transtornados vários portugueses. Alguns perceberam imediatamente que tinham levado o seu combate político longe demais. Sentiram-se profundamente envergonhados por estar ali; apenas queriam sair dali o mais rapidamente possível. Aquela pergunta de um homem condenado à morte fê-los perceber que nenhum combate político podia justificar a morte de uma pessoa.
Passadas algumas décadas, alguns ainda recordavam o rosto e a expressão daquele homem ao dirigir-lhes aquelas últimas palavras.

Nas últimas semanas, a violência das imagens provenientes do Iraque não deixa ninguém indiferente. Revolta e indignação são os sentimentos mais comuns de quem as vê. A divulgação dessas imagens tem sido usada para denunciar situações inaceitáveis.
A divulgação do vídeo da execução de Nicolas Berg assumiu outros contornos. Alguns media pouco escrupulosos e ávidos de sensacionalismo exibiram o filme da execução; em vários sites (inclusive portugueses) é possível fazer o download desse filme. Os motores de busca assinalaram que esse filme durante algum tempo foi o elemento mais pesquisado na Net (superou a pornografia!). Vários e-mails circularam com o filme da execução.
Para quem deseja ver, ou exibir, o filme, já não importa se os assassinos transmitem alguma mensagem política com aquela execução; já não se pensa se este acto foi mais ou menos bárbaro que o que se passou nas prisões iraquianas; já nem sabemos o que vale a vida humana. A morte de Nicolas Berg transformou-se num espectáculo.
Talvez ele, como aquele condenado republicano em Badajoz, pudesse ter dito: “É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?

Marco António Oliveira (POVO DE BAHÁ)

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