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segunda-feira, maio 31

 

SOBRE A FÉ

Hesitei se devia publicar este texto na Terra da Alegria, por várias razões.
Primeiro porque se trata de uma republicação: É um dos posts da fase inicial do Quase em Português. Ele é, de facto o primeiro post em que abordei a questão da religião, e é uma resposta que eu, curiosamente, me senti impelido dar ao Ivan Nunes, embora que a pergunta não era dirigido a mim, mas a “católicos que pensam”.
Segundo: Sendo ele o meu primeiro post sobre a religião, ele contem também, de certa forma, uma boa parte do meu próprio credo, mas o seu carácter confessional é algo camuflado pela sua forma, porque ele pretende explicar, de um ponto de vista aparentemente imparcial, a um não crente, porque outros (os católicos) crêem.
Isto contêm uma boa dose de presunção, para a qual não consigo apresentar outra desculpa a não ser essa: Na verdade não falo sobre os outros crentes (católicos), mas sobre mim. Esta falta de frontalidade, que penso honestamente ser antes proveniente de uma genuína incapacidade de localizar-me do que de falta de coragem, e muitos outros defeitos que, relendo o agora, nele reconheço, fizeram me hesitar também de publicá-lo agora aqui, sem uma profunda revisão.
Mas para a revisão não tenho tempo - e também duvido que essa lhe acrescentaria genuinidade - e quanto a questão da republicação penso que poucos leitores da Terra da Alegria devem ter lido o Quase em Português há seis meses atrás.
Um terceiro motivo que me fez hesitar descartei com mais facilidade: Que o seu conteúdo será provavelmente muito divergente dos credos dos residentes desta Terra. Mas não acho que cumpro o meu papel de colunista convidado, se selecciono os meus contributos sob o critério se eles são suficientemente coincidentes com as ideias aqui reinantes.

Peço ainda a quem continua interessado em ler o seguinte post, que leia, antes deste texto, o post (não tão comprido) d' A Praia, que o originou.

Sobre a Fé (não só a católica)
Resposta ao Ivan

Antes de mais devo dizer que não sou católico: Sou protestante, e mesmo isso só culturalmente, porque acho que estou já demasiado longe dos credos protestantes e até cristãos em geral; embora também estou convencido de que as referências continuarão acompanhar-me, queira não queira, até ao fim da minha vida.
Decidi tentar responder, mesmo assim, à sua pergunta por duas razões:
A primeira é que em Portugal os termos católico e crente são utilizados frequentemente como sinónimos, e talvez isso será o caso aqui também.
A segunda é que me intrigou e intriga essa mesma questão já ha muito tempo, e confesso que já não me sinto tão longe de uma resposta. É essa que quero tentar esboçar aqui.

Peço para admitir, provisoriamente, uma hipótese de trabalho: O sentimento (palavra certa?) religioso é o sentimento de amor que se libertou do seu objecto amado. (Quem ama normalmente não sabe ou não quer saber, mas o milagre do amor não está no amado mas em quem ama...).
Isso explicaria porque o Ivan não obtém respostas das pessoas crentes a quem pede explicações. Já uma vez ouviu de uma pessoa que ama uma explicação convincente do seu amor? – Essa ou fica calada, por pudor, ou, se lhe falta o juízo (coisa frequente nestas circunstâncias...) começa a elogiar as qualidades da pessoa amada, o que pode ser encantador ou divertido para quem ouve e não ama, porque costuma ser só o amante quem as vê.

Agora se o objecto do amor for inexistente ou afastado ou desconhecido (Deus), o discurso não ganha clareza por isso. Mas o amor não é menos forte e real, pelo facto de lhe faltar sustento racional. Todos sabemos, que é a força que pode levar uma pessoa a fazer – e sentindo se feliz por isso – quase tudo. Não quase: Mesmo tudo.

Em sociedades fechadas houve e há maior facilidade de falar sobre o objecto do amor, porque o objecto existia (existe), de forma afastada e inatingível. Nestas sociedades construiu-se um consenso (quase) geral não só sobre a sua existência como sobre os seus aspectos. Deus era uma pessoa concreta, com qualidades, rosto, o que facilitava a projecção: Assim as mulheres (freiras) podiam amar de uma forma muito mais concreta e doce o seu salvador, e os homens (frades) a virgem Maria - e ao contrário se for o caso, claro... (De passagem: Deus também pôde chamar-se Enver Hodxa ou Saddam Hussein...)

Mas a pergunta era outra:
Como é que podem pessoas inteligentes, com os dois pés assentes na terra, hoje insistir na sua fé?
A resposta é simples: porque a fé é real, o amor é real. E perante esta realidade pouco importa que as descrições não acertam. E mesmo se importa: Melhor uma – essa – descrição do que nenhuma.

Como descrever a cor de uma coisa sem cor, descrever a forma de uma coisa sem forma?
Durante toda a história da civilização, houve muitas pessoas, representantes das diversas religiões, que admitiram essa impossibilidade. São os místicos. Os místicos têm geralmente má fama, tanto entre os racionalistas, por razões óbvias, como dentro das próprias religiões, às quais pertencem, pela sua característica antisocial e subversiva. Porque se baseiam na sua experiência, e não na doutrina, como as igrejas gostassem. Não se baseiam também na razão: Baseiam-se, e só, na experiência. (E essa experiência é forte, tão forte que resiste frequentemente aos apelos da razão, à meios de dissuasão mais fortes como p. ex. à ameaça da fogueira, ou – o que hoje deve ser o mais vulgar - de um tratamento psiquiátrico.)

Acho que esse amor solto, à procura do seu objecto, esse sentimento religioso, é uma parte essencial da nossa condição humana, à qual estamos todos, de uma forma mais ou menos intensa, de uma forma mais ou menos filtrada, sujeitos.

E essa energia foi desde sempre tão grande, que as sociedades desenvolveram desde os primeiros dias instituições para as canalizar, domar, controlar: As igrejas (não só as cristãs, claro). As igrejas tentam fazer a ponte entre o divino e a realidade social. Tentam meter ordem naquela perigosa energia à solta. E para isso elas têm que explicar, têm que desenvolver o que não tem desenvoltura, dar estrutura ao que não tem estrutura. Tem que inventar um discurso para explicar...
Também há aqui um desejo compreensível. Nem todos querem viver com essa incerteza, queríamos ter um objecto amado, sentiriamo-nos mais seguros se o objecto fosse reconhecido por todos. Boas razões para construir Deus.

Assim as pessoas aceitam. E as pessoas informadas, na falta do melhor, aceitam também estes sistemas explicativos como referente a uma coisa, de cuja existência estão mais ou menos certo, por experiência (por evidência), sem ter provas e muitas vezes assumindo conscientemente uma quebra óbvia na sua concepção racional que têm da vida em todo o resto.

O Ivan tem razão: É o Pai Natal. Os crentes (mais informados) sabem que o Pai Natal não existe assim. Mas sabem que este Pai Natal está mais próximo da sua Verdade do que Pai Natal nenhum.

O meu ponto é esse: Deus pode ser – é – uma construção social, mas o Divino, o essencial, o amor não é!
Mas mesmo sabendo isso, também eu não consigo, como recomendam os místicos radicais, viver desprezando todos os sistemas explicativos, apoiado em nada, no Nada, e vou construindo o meu sistema explicativo, como muletas, para atravessar essa vida.

Sei que este pequeno exercício de bricolage psico-sociológico não tem valor científico nenhum.
Sei que deixa em aberto muita coisa, por exemplo o Bem e o Mal, a vida após a morte etc. Em relação ao Bem e o Mal só um apontamento: Acho que a energia proveniente do amor é boa na sua essência (talvez por ser uma pessoa com uma atitude genericamente positiva em relação à vida), mas o seu emprego, nas religiões, ou de uma forma mais genérica, nas sociedades, nem por isso: Porque o sentimento do amor, do Bem, não leva automaticamente a comportamentos que favorecem o Bem. Os comportamentos continuam fortemente condicionados por mecanismos psico-sociais, e podem fazer estragos terríveis, através da lógica inclusão / exclusão (amigo / inimigo), de uma maneira radical e perversa. De tal maneira que eu acredito que, por exemplo, quem se faz explodir numa esplanada dum café em Tel Aviv, faz o Mal, mas fá-lo por amor.

Espero ter podido de fazer me entender, o que não é fácil nestas matérias, e que o que escrevi não lhe parece também um pensamento fantasioso que faria mais sentido em crianças de quatro anos de idade. Não tenho mesmo a certeza. Mas deste risco sabia antes de escrever este post.

Mais uma vez as minhas desculpas por ter respondido, sem ser católico, - e às eventuais pessoas, cujos sentimentos religiosos possa ter ofendido: Não era a minha intenção.

Aditamento
Os católicos poderão dizer-me que não posso eliminar a igreja, dois mil anos de teologia com uma penada.
Não o faço. A igreja é um edifício imponente e maravilhoso, todo ele iluminado e aquecido pelo núcleo quente, que é a experiência religiosa. Ele dá abrigo a muitos, e bem, porque é aterradora a exposição à essa experiência. E esta casa está cheia de sabedoria sobre como relacionar-se com ela, orientações sobre o que fazer desta experiência no dia a dia.
Também pode ser e é – verdade seja dita -, para outros, uma prisão.
Mas o que é importante, ela está construída em volta deste núcleo, não se alicerça nele. Ainda ninguém me demonstrou e não creio que uma vez me poderá demonstrar, que ela é o desenvolvimento natural é necessário deste núcleo. Há aqui uma fenda que só é ultrapassado pela invocação da autoridade.
E também não é necessário ter estudado história religiosa comparativa, para perceber, que a igreja católica não é o único edifício construído em volta deste núcleo.
Sobre o que esta e outras igrejas têm feito na história para se assumir como único edifício, não quero falar agora...

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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