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quarta-feira, maio 26

 

PARTILHA II

Esta é a continuação do texto anterior sobre as consequências do conceito de partilha enquanto princípio ético essencial ao cristianismo. Se no anterior texto foi abordada a vertente material das consequências de tal princípio neste texto serão abordadas as consequências espirituais de tal conceito.

Antes de continuar gostaria apenas de sublinhar que se é verdade que a vertente material da partilha não é a mais importante, também não deixa de ser verdade que ela é uma condição absolutamente necessária para uma partilha consequente. Por duas razões: por um lado, porque quem tem fome dificilmente consegue pensar noutra coisa, e, por outro lado, porque todas as declarações baseadas apenas na espiritualidade, que não são acompanhadas por actos materiais, tresandam sempre a hipocrisia.

Quando se considera a vertente imaterial da partilha existe uma palavra que vem imediatamente à cabeça: o amor. A partilha pode-se definir « a contrario ». Ela não é autoritarismo, arrogância, dogmatismo, fundamentalismo, totalitarismo. Partilha é diálogo. Partilha é humildade. Partilha é ter dúvidas ("partilhar" uma certeza é, de certo modo, pelo menos a maior parte das vezes, chamar estúpido ao interlocutor).

É óbvio que mesmo na certeza da dúvida já se emite uma certeza. Mas algumas certezas são mais certezas que outras (parafraseando uma célebre frase). Tal como a quantidade de certezas permite aferir o grau de partilha. Diria mesmo que a quantidade de certezas de que alguém se encontra possuído está na razão inversa da sua predisposição para o diálogo. Julgo que um cristão deve possuir só uma certeza: a de que deve, apenas e sempre, amar.

Partilha é disponibilidade e atenção. Partilha é alegria (estamos na terra da alegria), é aproximação e é disposição para a vulnerabilidade (por contraposição à procura da invulnerabilidade e da segurança em algo de material e exterior).

Embora cheire a provocação (porque a sua inserção no espaço deste blogue e neste post assemelha-se a brincar com o fogo) julgo apropriado colocar aqui um excerto de "O Sentimento de Si" de António Damásio a propósito do que acabo de dizer:

« Esta dualidade fundamental é manifesta numa criatura tão simples e não-consciente como a anémona-do-mar. O seu organismo, destituído de cérebro e apenas equipado com um sistema nervoso simples, é pouco mais do que uma tripa com duas aberturas, animada por dois conjuntos de músculos, uns circulares e outros longitudinais. As circunstâncias que rodeiam a anémona-do-mar determinam aquilo que o seu organismo faz: abrir-se ao mundo como uma flor que desabrocha – altura em que a água e os nutrientes entram no seu corpo e lhe fornecem energia – ou fechar-se numa espécie de caixa plana e retraída, tão pequena e recolhida que é quase imperceptível para os outros. A essência da alegria e da tristeza, da aproximação e da fuga, da vulnerabilidade e da segurança, são tão visíveis nesta simples dicotomia de comportamento de uma criatura sem cérebro como são visíveis na volubilidade emocional da criança que brinca no jardim. » ("Publicações Europa-América", pag. 101)

PS.: No anterior texto sobre a partilha atribui a Marx, de um modo algo demagógico e provocatório uma afirmação que embora verdadeira deve ser contextualizada. Aquilo que caracteriza o socialismo é o princípio a cada um segundo as suas capacidades; mas por contraposição ao capitalismo em que os proventos não resultam do trabalho mas da propriedade. O que Marx quis dizer foi portanto que, no socialismo, as pessoas recebem em função das suas capacidades de trabalho e não em função da propriedade dos meios de produção (dado que este, no socialismo se encontram nacionalizados). A ênfase é portanto colocada na herança do património genético e ambiental de cada indivíduo e não na herança do capital. Mas, em ambos os casos, tanto na teoria marxista como na teoria capitalista, o que se herda irá ser fundamental. Ora é este conceito de herança que é duvidoso. Sendo todos os homens irmãos em Cristo não existe razão para uns terem mais do que outros seja por herança patrimonial seja por herança genética ou ambiental.



Timóteo Shel (TIMSHEL)

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