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quarta-feira, maio 26

 

A CADEIRA DO BISPO OU AS COISAS COMO ELAS SÃO (4ª E ÚLTIMA PARTE)

Na semana passada pus aqui a minha visão sobre as profundas alterações ocorridas desde há 30 anos no código de valores do povo português e também no seu inconsciente colectivo. É uma visão a que, pela minha idade, falta certamente distanciamento. Ao fim e ao cabo, tinha eu 10 anos em 74 pelo que todo este mundo novo entrou em mim como em terreno virgem. Mas como será que a Igreja Católica, enquanto instituição pensante, viu e vê toda esta mudança que ocorreu? É uma pergunta a que, por falta de fontes bem colocadas, só posso responder especulando. E é isso que vou fazer, se mo permitem.
Já aqui disse que o 25 de Abril encontrou a Igreja bem preparada para ele. A inteligência moderada do Cardeal D.António fez escola e a Igreja navegou à vista para junto de um estado e uma sociedade mais modernos. Nessa navegação esteve sobretudo atenta a um possível Adamastor: o regresso aos tempos violentamente anti-clericais da I República em que ela se viu perseguida, espoliada e quase impedida de exercer o seu ministério. Foi sobretudo a repetição de tudo isso que quis evitar e para tal geriu com mestria o seu relacionamento com o poder. Já quanto ao seu relacionamente com os fiéis, a Igreja quis sem dúvida prestar os serviços mínimos, mas tal como não quis dar muito nas vistas enquanto instituição também não o quis enquanto corpo social, enquanto comunidade de crentes. Viveram-se tempos estranhos e mal compreendidos e quiseram-se evitar manifestações de religiosidade exarcebada com medo de destoar negativamente e provocar reacções difíceis de controlar. Houve sempre Fátima, algumas visitas papais, as campanhas anti-aborto, mas tirando isso, as manifestações de religiosidade católica primaram por uma discrição prudente.
E digo prudente porque é minha convicção profunda que a Igreja durante pelo menos 20 destes 30 anos olhou para as transformações da sociedade com muita atenção e receio mas com pouca vontade de as compreender. É preciso ter em conta que a crise das vocações vinha já bastante de trás, penso que desde o apogeu da guerra colonial que arrastou tantos jovens para longe, devolvendo-os à Patria diferentes do que eram quando partiram. Essa crise de vocações levou a um envelhecimento do clero que se hoje ainda é grave, já há 30 anos era crítico. E esse envelhecimento, aliado a uma perspectiva geneticamente conservadora, levou à tal prudência e incompreensão perante o que se estava a passar.
São pois a prudência excessiva e falta de vontade de toda uma geração do clero em compreender o que ia na cabeça das gentes, as únicas razões que me permitem explicar um certo abandono a que os fiéis, os novos fiéis sobretudo, foram votados pela Igreja.
Digo abandono, sim senhor. Pois o facto, a meu ver inequívoco, é que pelo menos durante duas décadas a Igreja Católica mantêve-se do lado de lá do altar, a ministrar os sacramentos, a confortar os fiéis pela continuidade da sua presença, a satisfazê-los pela continuidade da sua influência, mas abdicou de fazer uma coisa aparentemente simples: conversar connosco, saber o que pensávamos, conhecer tudo aquilo que perturbava a nossa Fé. Para ser inteiramente justo, devo dizer que esta atitude vinha de trás, de tempos onde tais coisas não eram vistas como necessárias. Mas o facto é que de repente, tudo mudou e essas coisas passaram a sê-lo e muito. Uma vez mais o facto de se ter um clero envelhecido em muito contribuiu para esta carência que se sentiu e que deixou consequências profundas. Devo também dizer que a culpa não deve ser toda assacada à Igreja: nós, comunidade de fiéis, aceitámos em silêncio o silêncio da Igreja. Talvez por andarmos distraídos com outras coisas mas também por aquele antigo atavismo católico que espera que a Santa Madre Igreja pense e supra as nossas necessidades espirituais. Um dia temos de mudar isso...
Mas sejamos concretos.
A catequização (coisa essencial para uma Fé pois como acreditar no que não se conhece?) andou largos anos desaparecida. A Igreja ainda se fiou, por demasiado tempo, na Religião e Moral das escolas, que não podia nem devia nem foi catequese coisíssima nenhuma. Nas paróquias (disso lembro-me eu bem) os catequistas faltaram e muito e os que havia eram normalmente boas almas a precisar de reciclagem ou também, eles próprios, de catequese! E, por outro lado, com a suburbanização das cidades, as paróquias existentes esvaziaram-se de pessoas e as novas levaram eternidades a serem formadas e a ganharem vida de comunidade. Este católico que vos escreve fez a 1ªcomunhão (ainda no marcelismo) mas não chegou ao crisma por falta de catequese que me atraísse em vez do contrário...
Passemos agora aos movimentos de leigos, pois também nós somos Igreja. Também aí, durante os tais vinte e tal anos, andámos um bocado por vielas escuras: tirando vetustas irmandades que usam opa e desfilam em procissões, pouco mais houve de relevante e socialmente visível durante anos a fio.
Quanto à administração dos sacramentos, sobretudo o baptismo e o matrimónio, talvez com a intenção de não impôr, não afastar, não melindrar uma sociedade que não se compreendia bem, o facto é que (e isto é uma impressão baseada naquilo que me é próximo) durante largos anos esses sacramentos foram mais celebrações rituais do que oportunidades de evangelização e catequização dos fiéis. Nestas décadas mais recentes tanta gente pôde casar-se sem perceber e sem se compromenter com aquilo que é sagrado no matrimónio, tanta gente pôde baptizar os seus filhos sem sentir a mínima obrigação moral em os educar na fé... Está também aí uma das razões pela qual em tantas e tantas famílias formalmente católicas, o sentido do religioso ter sido completamente varrido da vivência e da consciência familiares. Se olharmos para a geração dos que tem hoje entre 15 a 30 anos de idade e verificarmos o espectacular e generalizado alheamento da Fé e da Igreja não devemos ficar minimamente surpreendidos. Tenho pois para mim que uma geração de casais abandonados pela Igreja e tornados católicos não praticantes gerou uma geração praticamente inteira de jovens intrinsecamente agnósticos.
Olhemos agora de novo para o clero. A falta de vocações pré-existente ao 25 de Abril e consequente falta de renovação do mesmo, provocou uma desmotivante estagnação ao nível da liturgia, ao nível da linguagem e ao nível da intervenção na sociedade. Recordo missas nos anos 80, na minha paróquia de sempre, missas deprimentes em que a talha dourada da igreja acentuava o ambiente funerário da liturgia. E as homilias, dessas melhor é nem falar. Perdi aí a minha fé que perdida andou durante uns 10 anos.
A propósito de homilias chegamos à questão da linguagem da Igreja. E novamente aí temos que, pelo menos durante os primeiros 20 anos da democracia, a linguagem católica não evoluiu com os novos tempos. Repare-se que não estou a falar do conteúdo, estou a falar da forma e do tom do discurso da Igreja. Esteve longos anos cristalizado. Muitos católicos deixaram de o compreender e de se identificar com ele.
Parece-me que vou ficar por aqui. Esta é a minha visão pela qual no período de que falei a Igreja Católica em Portugal foi perdendo os fiéis e estes foram perdendo a Igreja e ambos foram perdendo a espiritualidade, o espírito de comunidade e o espírito de solidariedade que são pilares fundamentais do acreditar em Cristo e viver em Seu nome, isto é, do ser-se Cristão e Católico.
Contudo, a partir de determinada altura as coisas começaram a mudar. Recordo-me da pedrada no charco que foi o bispo D.Manuel Martins em Setúbal no princípio dos anos 90: a Igreja tinha novamente intervenção social e do lado dos pobres! Recordo da surpresa que foi o novo cardeal D.José Policarpo: dele vinha uma nova linguagem que já era entendível aos nossos ouvidos. Dele vinha um novo interesse pela catequese dos fiéis, pela reevangelização da sociedade. E sentiu-se a partir daí uma nova espiritualidade na Igreja. Começaram a aparecer padres novos (ou nem tanto) que falavam coisas que entendíamos e precisávamos de ouvir. Cito alguns, de memória e que eu conheço, dos mais diversos géneros e tendências mas que renovaram a linguagem católica e lhe trouxeram de novo a autoridade intelectual e espiritual que andavam escondidas: o padre Resina, o frei Bento Domingues, o padre Janela, o frei Bernardo (no Porto), o padre João Sabra, o padre Stilwell, o padre José Manuel Pereira de Almeida, o bispo D.Januário, o padre Francisco (da Serafina), o padre Tolentino (um dos novíssimos), o padre Pinto de Magalhães, etc., etc.
E os movimentos de leigos reanimaram-se, sobretudo, a partir dos anos 90: a MCE, as ENS, o CVX, a C&L, etc. Passou a haver uma nova atenção aos jovens, aos casais, aos trabalhadores, aos sem-abrigo. O Banco Alimentar do Padre Vaz Pinto foi uma manifestação mediaticamente visível da solidariedade católica organizada.
Eu diria também que a Igreja a certa altura abandonou a ideia de se apoiar na sua base sociológico-política de sempre e abriu-se e virou-se para outras sensibilidades. E isso foi bom para evitar tentações de elitismo. Daí que neste momento eu sinta genuinamente haver uma recuperação de algumas coisas essenciais: a comunhão entre a Igreja e os leigos, a abertura à sociedade no seu todo e duma forma transversal, a renovação da linguagem católica, o ressurgimento duma espiritualidade mais genuína. Sinto também que a arrogância da instituição perante os próprios crentes e as outras confissões tem vindo a ser substituída por uma atitude de respeito pela individualidade e desejo de procura dum caminho em comum. E sinto outra coisa: hoje que somos notoria e reconhecidamente minoritários na sociedade portuguesa, a afirmação pessoal de catolicismo já não provoca aquele sentimento, em nós próprios e nos outros, de se ser uma avis rara. Raros continuamos talvez a ser, mas não avis!
Tudo isto atrás escrito são ideias e impressões de um leigo católico que pouco mais faz do que ir à missa e ter um blogue. E que anda um bocado mais optimista com tudo isto.
Mas atenção, ainda há coisas esdrúxulas! Por exemplo, tudo o que se passou e está a passar à volta da nova Concordata, deixa-me a sombra dum incómodo e duma perplexidade. Parece que na Igreja, ainda há quem se preocupe activamente em manter a cadeira do bispo no palanque constitucional...
Mas isso é conversa para outra altura...

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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