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segunda-feira, maio 31

 

DE QUE FALA A MINHA AVÓ QUANDO FALA DE DEUS

De que fala a minha avó quando fala de Deus? — eis a questão a que, sem elevar expectativas à altura dos céus (se eu não faço a mínima ideia de quem é Deus, também não sei como saber se ela invoca o nome dEle em vão), me proponho a dar resposta.
Quando alguém morre e vai desta para uma dimensão que, de esta ser tão bera e inóspita, dizem ser melhor, a minha avó, de imediato, acrescenta-lhe: que-Deus-tem. Ainda o desgraçado do defunto se encontra amortalhado, em câmara ardente, (ex)posto aos olhares trémulos e lacrimejantes daqueles de quem foi querido, já a minha avó o inscreveu na árvore genealógica da família que-Deus-tem. Ou seja, no fatídico momento em que uma pessoa se descuida e estica o pernil, Deus, atento, como um lince, apropria-se da nossa carcaça e da nossa alminha. Num primeiro momento, a minha avó parece designar Deus como um proprietário de bens privados — talvez este equívoco título nobiliárquico-capitalista seja a chave de explicação para o ódio dos comunistas a Deus e a todos (anjos, santos, beatos) os envoltos em Sua aura.
Ora, a minha avó (que, importa explicitar, se diz católica mas jamais o registou por escrito porque é analfabeta ), antes de se deitar, deseja que amanhã possa desejar o mesmo. «Até amanhã, se Deus quiser», despede-se ela, todas as santas noites, como que a cumprir um ritual, com a esperança de que amanhã, depois de amanhã e por aí adiante, Ele deseje que ela possa repetir o desejo perante a família — e, aproveitando a vaga de desejos pedidos, que também nós façamos igual voto.
Deus, nesta acepção, não se trata dum ser apartado da vidinha dos homens, nem um ente supra-natural, mas sim o próprio Ser, as próprias coisas, ou melhor, haver coisas. Como que o verbo contínuo que configura e norteia o curso das coisas.
A identidade de Deus encontra-se, apesar de velada, no movimento do mundo. A minha avó atribui-lhe, portanto, o papel de demiurgo que existe fazendo existir, que fazendo existir existe. Cuja actividade e ofício o mantém desperto, surdo à cantiga de embalar que prostra os ociosos no hipnótico regaço do letargo.
O horizonte de sentido é a responsabilidade que a minha avó imputa a Deus. Cabe-lhe ser o farol que ilumina as tripulações em alto mar — ainda que o barco da existência humana, seja por desígnio ou por falha divina, acabe fatalmente por naufragar e alimentar os bichos. No caso, a sorte grande sai aos peixinhos.
Dentro da ontologia (eu sei que é um termo palavroso; se o usar numa conversa com uma velhota, com certeza que ela pensará que me estou a referir a um ramo da medicina que trata de uma doença modernaça) da minha avó, não existe espaço para um Deus Todo-Poderoso se espraiar. E nós, humanos, onde ficamos?, quem somos? Materializamos a vontade dum Deus desconhecido.

Vitor Vicente (PATO_LOGICO)

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UM GRANDE ESPECTÁCULO...

Após a tomada de Badajoz pelas forças franquistas, foram julgados e condenados à morte vários prisioneiros republicanos. Em Portugal, onde a guerra civil espanhola era seguida com toda a atenção, organizaram-se excursões para assistir a esses fuzilamentos em Badajoz.
Presumo que a maioria das pessoas que estava nessas excursões alinhava pelas ideias do Estado Novo. O objectivo da viagem era assistir à punição dos agressores da sociedade, daqueles que atentavam contra o nosso modo de vida, a “tranquilidade social” defendida pelo antigo regime. A viagem a Badajoz era uma manifestação da solidariedade aos franquistas e uma afirmação da ideologia política de cada um dos excursionistas.
Numa dessas excursões, os anfitriões espanhóis cederam uns lugares especiais aos convidados portugueses para que pudessem apreciar todos os pormenores das execuções. Aconteceu que os homens que iam ser fuzilados pararam por uns instantes em frente aos convidados portugueses.
Um desses homens percebeu que estavam ali estrangeiros para assistir à sua morte. Olhou alguns deles nos olhos e perguntou-lhes “Sois portugueses, verdade?” Alguns responderam que sim. “É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?” perguntou-lhes o condenado.
Esta pergunta deixou profundamente transtornados vários portugueses. Alguns perceberam imediatamente que tinham levado o seu combate político longe demais. Sentiram-se profundamente envergonhados por estar ali; apenas queriam sair dali o mais rapidamente possível. Aquela pergunta de um homem condenado à morte fê-los perceber que nenhum combate político podia justificar a morte de uma pessoa.
Passadas algumas décadas, alguns ainda recordavam o rosto e a expressão daquele homem ao dirigir-lhes aquelas últimas palavras.

Nas últimas semanas, a violência das imagens provenientes do Iraque não deixa ninguém indiferente. Revolta e indignação são os sentimentos mais comuns de quem as vê. A divulgação dessas imagens tem sido usada para denunciar situações inaceitáveis.
A divulgação do vídeo da execução de Nicolas Berg assumiu outros contornos. Alguns media pouco escrupulosos e ávidos de sensacionalismo exibiram o filme da execução; em vários sites (inclusive portugueses) é possível fazer o download desse filme. Os motores de busca assinalaram que esse filme durante algum tempo foi o elemento mais pesquisado na Net (superou a pornografia!). Vários e-mails circularam com o filme da execução.
Para quem deseja ver, ou exibir, o filme, já não importa se os assassinos transmitem alguma mensagem política com aquela execução; já não se pensa se este acto foi mais ou menos bárbaro que o que se passou nas prisões iraquianas; já nem sabemos o que vale a vida humana. A morte de Nicolas Berg transformou-se num espectáculo.
Talvez ele, como aquele condenado republicano em Badajoz, pudesse ter dito: “É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?

Marco António Oliveira (POVO DE BAHÁ)

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SOBRE A FÉ

Hesitei se devia publicar este texto na Terra da Alegria, por várias razões.
Primeiro porque se trata de uma republicação: É um dos posts da fase inicial do Quase em Português. Ele é, de facto o primeiro post em que abordei a questão da religião, e é uma resposta que eu, curiosamente, me senti impelido dar ao Ivan Nunes, embora que a pergunta não era dirigido a mim, mas a “católicos que pensam”.
Segundo: Sendo ele o meu primeiro post sobre a religião, ele contem também, de certa forma, uma boa parte do meu próprio credo, mas o seu carácter confessional é algo camuflado pela sua forma, porque ele pretende explicar, de um ponto de vista aparentemente imparcial, a um não crente, porque outros (os católicos) crêem.
Isto contêm uma boa dose de presunção, para a qual não consigo apresentar outra desculpa a não ser essa: Na verdade não falo sobre os outros crentes (católicos), mas sobre mim. Esta falta de frontalidade, que penso honestamente ser antes proveniente de uma genuína incapacidade de localizar-me do que de falta de coragem, e muitos outros defeitos que, relendo o agora, nele reconheço, fizeram me hesitar também de publicá-lo agora aqui, sem uma profunda revisão.
Mas para a revisão não tenho tempo - e também duvido que essa lhe acrescentaria genuinidade - e quanto a questão da republicação penso que poucos leitores da Terra da Alegria devem ter lido o Quase em Português há seis meses atrás.
Um terceiro motivo que me fez hesitar descartei com mais facilidade: Que o seu conteúdo será provavelmente muito divergente dos credos dos residentes desta Terra. Mas não acho que cumpro o meu papel de colunista convidado, se selecciono os meus contributos sob o critério se eles são suficientemente coincidentes com as ideias aqui reinantes.

Peço ainda a quem continua interessado em ler o seguinte post, que leia, antes deste texto, o post (não tão comprido) d' A Praia, que o originou.

Sobre a Fé (não só a católica)
Resposta ao Ivan

Antes de mais devo dizer que não sou católico: Sou protestante, e mesmo isso só culturalmente, porque acho que estou já demasiado longe dos credos protestantes e até cristãos em geral; embora também estou convencido de que as referências continuarão acompanhar-me, queira não queira, até ao fim da minha vida.
Decidi tentar responder, mesmo assim, à sua pergunta por duas razões:
A primeira é que em Portugal os termos católico e crente são utilizados frequentemente como sinónimos, e talvez isso será o caso aqui também.
A segunda é que me intrigou e intriga essa mesma questão já ha muito tempo, e confesso que já não me sinto tão longe de uma resposta. É essa que quero tentar esboçar aqui.

Peço para admitir, provisoriamente, uma hipótese de trabalho: O sentimento (palavra certa?) religioso é o sentimento de amor que se libertou do seu objecto amado. (Quem ama normalmente não sabe ou não quer saber, mas o milagre do amor não está no amado mas em quem ama...).
Isso explicaria porque o Ivan não obtém respostas das pessoas crentes a quem pede explicações. Já uma vez ouviu de uma pessoa que ama uma explicação convincente do seu amor? – Essa ou fica calada, por pudor, ou, se lhe falta o juízo (coisa frequente nestas circunstâncias...) começa a elogiar as qualidades da pessoa amada, o que pode ser encantador ou divertido para quem ouve e não ama, porque costuma ser só o amante quem as vê.

Agora se o objecto do amor for inexistente ou afastado ou desconhecido (Deus), o discurso não ganha clareza por isso. Mas o amor não é menos forte e real, pelo facto de lhe faltar sustento racional. Todos sabemos, que é a força que pode levar uma pessoa a fazer – e sentindo se feliz por isso – quase tudo. Não quase: Mesmo tudo.

Em sociedades fechadas houve e há maior facilidade de falar sobre o objecto do amor, porque o objecto existia (existe), de forma afastada e inatingível. Nestas sociedades construiu-se um consenso (quase) geral não só sobre a sua existência como sobre os seus aspectos. Deus era uma pessoa concreta, com qualidades, rosto, o que facilitava a projecção: Assim as mulheres (freiras) podiam amar de uma forma muito mais concreta e doce o seu salvador, e os homens (frades) a virgem Maria - e ao contrário se for o caso, claro... (De passagem: Deus também pôde chamar-se Enver Hodxa ou Saddam Hussein...)

Mas a pergunta era outra:
Como é que podem pessoas inteligentes, com os dois pés assentes na terra, hoje insistir na sua fé?
A resposta é simples: porque a fé é real, o amor é real. E perante esta realidade pouco importa que as descrições não acertam. E mesmo se importa: Melhor uma – essa – descrição do que nenhuma.

Como descrever a cor de uma coisa sem cor, descrever a forma de uma coisa sem forma?
Durante toda a história da civilização, houve muitas pessoas, representantes das diversas religiões, que admitiram essa impossibilidade. São os místicos. Os místicos têm geralmente má fama, tanto entre os racionalistas, por razões óbvias, como dentro das próprias religiões, às quais pertencem, pela sua característica antisocial e subversiva. Porque se baseiam na sua experiência, e não na doutrina, como as igrejas gostassem. Não se baseiam também na razão: Baseiam-se, e só, na experiência. (E essa experiência é forte, tão forte que resiste frequentemente aos apelos da razão, à meios de dissuasão mais fortes como p. ex. à ameaça da fogueira, ou – o que hoje deve ser o mais vulgar - de um tratamento psiquiátrico.)

Acho que esse amor solto, à procura do seu objecto, esse sentimento religioso, é uma parte essencial da nossa condição humana, à qual estamos todos, de uma forma mais ou menos intensa, de uma forma mais ou menos filtrada, sujeitos.

E essa energia foi desde sempre tão grande, que as sociedades desenvolveram desde os primeiros dias instituições para as canalizar, domar, controlar: As igrejas (não só as cristãs, claro). As igrejas tentam fazer a ponte entre o divino e a realidade social. Tentam meter ordem naquela perigosa energia à solta. E para isso elas têm que explicar, têm que desenvolver o que não tem desenvoltura, dar estrutura ao que não tem estrutura. Tem que inventar um discurso para explicar...
Também há aqui um desejo compreensível. Nem todos querem viver com essa incerteza, queríamos ter um objecto amado, sentiriamo-nos mais seguros se o objecto fosse reconhecido por todos. Boas razões para construir Deus.

Assim as pessoas aceitam. E as pessoas informadas, na falta do melhor, aceitam também estes sistemas explicativos como referente a uma coisa, de cuja existência estão mais ou menos certo, por experiência (por evidência), sem ter provas e muitas vezes assumindo conscientemente uma quebra óbvia na sua concepção racional que têm da vida em todo o resto.

O Ivan tem razão: É o Pai Natal. Os crentes (mais informados) sabem que o Pai Natal não existe assim. Mas sabem que este Pai Natal está mais próximo da sua Verdade do que Pai Natal nenhum.

O meu ponto é esse: Deus pode ser – é – uma construção social, mas o Divino, o essencial, o amor não é!
Mas mesmo sabendo isso, também eu não consigo, como recomendam os místicos radicais, viver desprezando todos os sistemas explicativos, apoiado em nada, no Nada, e vou construindo o meu sistema explicativo, como muletas, para atravessar essa vida.

Sei que este pequeno exercício de bricolage psico-sociológico não tem valor científico nenhum.
Sei que deixa em aberto muita coisa, por exemplo o Bem e o Mal, a vida após a morte etc. Em relação ao Bem e o Mal só um apontamento: Acho que a energia proveniente do amor é boa na sua essência (talvez por ser uma pessoa com uma atitude genericamente positiva em relação à vida), mas o seu emprego, nas religiões, ou de uma forma mais genérica, nas sociedades, nem por isso: Porque o sentimento do amor, do Bem, não leva automaticamente a comportamentos que favorecem o Bem. Os comportamentos continuam fortemente condicionados por mecanismos psico-sociais, e podem fazer estragos terríveis, através da lógica inclusão / exclusão (amigo / inimigo), de uma maneira radical e perversa. De tal maneira que eu acredito que, por exemplo, quem se faz explodir numa esplanada dum café em Tel Aviv, faz o Mal, mas fá-lo por amor.

Espero ter podido de fazer me entender, o que não é fácil nestas matérias, e que o que escrevi não lhe parece também um pensamento fantasioso que faria mais sentido em crianças de quatro anos de idade. Não tenho mesmo a certeza. Mas deste risco sabia antes de escrever este post.

Mais uma vez as minhas desculpas por ter respondido, sem ser católico, - e às eventuais pessoas, cujos sentimentos religiosos possa ter ofendido: Não era a minha intenção.

Aditamento
Os católicos poderão dizer-me que não posso eliminar a igreja, dois mil anos de teologia com uma penada.
Não o faço. A igreja é um edifício imponente e maravilhoso, todo ele iluminado e aquecido pelo núcleo quente, que é a experiência religiosa. Ele dá abrigo a muitos, e bem, porque é aterradora a exposição à essa experiência. E esta casa está cheia de sabedoria sobre como relacionar-se com ela, orientações sobre o que fazer desta experiência no dia a dia.
Também pode ser e é – verdade seja dita -, para outros, uma prisão.
Mas o que é importante, ela está construída em volta deste núcleo, não se alicerça nele. Ainda ninguém me demonstrou e não creio que uma vez me poderá demonstrar, que ela é o desenvolvimento natural é necessário deste núcleo. Há aqui uma fenda que só é ultrapassado pela invocação da autoridade.
E também não é necessário ter estudado história religiosa comparativa, para perceber, que a igreja católica não é o único edifício construído em volta deste núcleo.
Sobre o que esta e outras igrejas têm feito na história para se assumir como único edifício, não quero falar agora...

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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quarta-feira, maio 26

 

PEQUENA NOTA EDITORIAL

Estamos em falta nos agradecimentos públicos que devemos a quem nos tem feito chegar mensagens de apoio e de solidariedade. Em breve, terão a publicidade devida.

A EQUIPA DA TERRA DA ALEGRIA.

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PARTILHA II

Esta é a continuação do texto anterior sobre as consequências do conceito de partilha enquanto princípio ético essencial ao cristianismo. Se no anterior texto foi abordada a vertente material das consequências de tal princípio neste texto serão abordadas as consequências espirituais de tal conceito.

Antes de continuar gostaria apenas de sublinhar que se é verdade que a vertente material da partilha não é a mais importante, também não deixa de ser verdade que ela é uma condição absolutamente necessária para uma partilha consequente. Por duas razões: por um lado, porque quem tem fome dificilmente consegue pensar noutra coisa, e, por outro lado, porque todas as declarações baseadas apenas na espiritualidade, que não são acompanhadas por actos materiais, tresandam sempre a hipocrisia.

Quando se considera a vertente imaterial da partilha existe uma palavra que vem imediatamente à cabeça: o amor. A partilha pode-se definir « a contrario ». Ela não é autoritarismo, arrogância, dogmatismo, fundamentalismo, totalitarismo. Partilha é diálogo. Partilha é humildade. Partilha é ter dúvidas ("partilhar" uma certeza é, de certo modo, pelo menos a maior parte das vezes, chamar estúpido ao interlocutor).

É óbvio que mesmo na certeza da dúvida já se emite uma certeza. Mas algumas certezas são mais certezas que outras (parafraseando uma célebre frase). Tal como a quantidade de certezas permite aferir o grau de partilha. Diria mesmo que a quantidade de certezas de que alguém se encontra possuído está na razão inversa da sua predisposição para o diálogo. Julgo que um cristão deve possuir só uma certeza: a de que deve, apenas e sempre, amar.

Partilha é disponibilidade e atenção. Partilha é alegria (estamos na terra da alegria), é aproximação e é disposição para a vulnerabilidade (por contraposição à procura da invulnerabilidade e da segurança em algo de material e exterior).

Embora cheire a provocação (porque a sua inserção no espaço deste blogue e neste post assemelha-se a brincar com o fogo) julgo apropriado colocar aqui um excerto de "O Sentimento de Si" de António Damásio a propósito do que acabo de dizer:

« Esta dualidade fundamental é manifesta numa criatura tão simples e não-consciente como a anémona-do-mar. O seu organismo, destituído de cérebro e apenas equipado com um sistema nervoso simples, é pouco mais do que uma tripa com duas aberturas, animada por dois conjuntos de músculos, uns circulares e outros longitudinais. As circunstâncias que rodeiam a anémona-do-mar determinam aquilo que o seu organismo faz: abrir-se ao mundo como uma flor que desabrocha – altura em que a água e os nutrientes entram no seu corpo e lhe fornecem energia – ou fechar-se numa espécie de caixa plana e retraída, tão pequena e recolhida que é quase imperceptível para os outros. A essência da alegria e da tristeza, da aproximação e da fuga, da vulnerabilidade e da segurança, são tão visíveis nesta simples dicotomia de comportamento de uma criatura sem cérebro como são visíveis na volubilidade emocional da criança que brinca no jardim. » ("Publicações Europa-América", pag. 101)

PS.: No anterior texto sobre a partilha atribui a Marx, de um modo algo demagógico e provocatório uma afirmação que embora verdadeira deve ser contextualizada. Aquilo que caracteriza o socialismo é o princípio a cada um segundo as suas capacidades; mas por contraposição ao capitalismo em que os proventos não resultam do trabalho mas da propriedade. O que Marx quis dizer foi portanto que, no socialismo, as pessoas recebem em função das suas capacidades de trabalho e não em função da propriedade dos meios de produção (dado que este, no socialismo se encontram nacionalizados). A ênfase é portanto colocada na herança do património genético e ambiental de cada indivíduo e não na herança do capital. Mas, em ambos os casos, tanto na teoria marxista como na teoria capitalista, o que se herda irá ser fundamental. Ora é este conceito de herança que é duvidoso. Sendo todos os homens irmãos em Cristo não existe razão para uns terem mais do que outros seja por herança patrimonial seja por herança genética ou ambiental.



Timóteo Shel (TIMSHEL)

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VAMOS TODOS JOGAR GOLFE

Rendimento global, em milhões de dólares, auferido pelo golfista americano Tiger Woods, em 2002: 78.
Percentagem do rendimento de Tiger Woods que provém de contratos de publicidade, imagem ou patrocínio: 91.
Montante diário, em dólares, que Tiger Woods recebe da marca de equipamento desportivo Nike: 55000.
Montante diário, em dólares, auferido pelos trabalhadores das fábricas da Nike instaladas na Tailândia: 4.

Estes dados retirei-os de uma das páginas mais pertinentes (e impertinentes) da imprensa portuguesa. Chama-se «O Índex», sai na revista «Pública», aos domingos no Público, e em breves pinceladas Paulo Anunciação - o seu autor - mostra números que nos divertem, nos fazem corar ou que nos provocam. Como os que transcrevi. Não quero iniciar aqui um boicote aos produtos da Nike, mas o exemplo cai que nem uma luva naquilo que pretendo aqui trazer - um manifesto contra a pobreza, que poderia ser alinhado em meia dúzia de novos mandamentos, com a inscrição da palavra PARTILHA traduzida em várias acções concretas.

Não quero aqui discutir ciências económicas. Apenas dar voz à necessidade de uma opção pelos mais pobres. Esta expressão não é o mesmo que a caridadezinha pífia que muitos católicos gostam de apresentar como cartão de visita, como coisa sua. Maldita propriedade: "Já dei a minha esmolinha", diria a beata da freguesia, "ao meu pobrezinho" - numa versão utilitária da pobreza, desenhada a partir da Idade Média.

A opção pelos mais pobres significa tolerância zero com a pobreza. Mas não ao jeito das políticas europeias dessas épocas, em que a escolha das autoridades balançava entre «a piedade e a forca», na expressão de Bronislaw Geremek*.

Tolerância zero com a abundância que não serve a ninguém, com os excedentes agrícolas feitos lixo, com uns a terem tanto e cada vez mais e tantos a terem pouco e cada vez menos. Tolerância zero com o fosso que aumenta entre os salários dos patrões e a precariedade e ordenados dos empregados. Tolerância zero com políticas que esquecem os mais pobres e com políticos que se dizem católicos e combatem algumas das medidas mais sérias e duradouras, no tempo e na forma, a favor do fim dos ciclos da pobreza - como é o rendimento mínimo garantido, por exemplo.

A opção pelos mais pobres não é um slogan político. É uma prática difícil. A Igreja Católica também ajudou à confusão ao deixar propagar-se a ideia (descontextualizada) e, muitas vezes, a prática de «felizes os pobres»... Mas também lemos na Bíblia que «será mais difícil um rico entrar no reino dos Céus do que um camelo passar o buraco de uma agulha». Não sejamos camelos. Aqui não se prega a pobreza franciscana, mas também não se quer o fausto dos greens. Pede-se antes uma luta mais simples e ao alcance: uma redistribuição dos bens, de todos os bens, sem olhar a quem - um campo de golfe com todos a dar tacadas, onde o miúdo tailandês da fábrica da Nike ganhará muito mais do que 4 dólares.

* - Bronislaw Geremek, A Piedade e a Forca - História da Miséria e da Caridade na Europa, Terramar, Lisboa, 1995.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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5,160 PARA “INFORMAÇÃO + CRISTÔ.

Uma das coisas mais interessantes de pensar debaixo da esfera de influência cristã e debaixo de um pensamento que se foi construindo ao longo dos séculos, é o facto de isso ter pouco a ver com a situação habitual de quem hoje em dia pensa. Quem o faz hoje em dia, lamenta-se com frequência da dificuldade de lidar com todos os dados disponíveis, tanto naquilo que contextualiza o seu trabalho, como no que tem a ver com a esfera específica onde se move o seu pensamento. Para o constatar basta ver o que acontece aos que pensam as ciências, ou àqueles que pensam as artes. Uns e outros vivem a dificuldade de fazerem o que fazem, sem conhecerem todos os elementos que permitiriam uma maior segurança no que dizem.

Em abono da verdade, também é verdade que o pensador cristianizado não foge por muitas vezes a esse tipo de lamento. Isto diz quanto o seu modo de encarar o trabalho está permeável à cultura do tempo. Contudo, ainda assim, acaba por sentir de modo mais ou menos claro que tem neste capítulo menos razões do que os outros para se lamentar. Quer o pense ou não, quer o diga ou não, ele é apenas peça e parte de um corpo maior onde outros vão dando conta daquilo que ele não consegue dar.

Dito de outro modo, se vive por um lado as dificuldades da especialização contemporânea do trabalho, como qualquer outro trabalhador, tem por outro subjacente a esta vivência a percepção de que melhor ou pior – e isto é já outra discussão – outros vão completando aquilo que nele é lacuna. Para além disso e mais importante ainda sabe que esse trabalho complementar é feito tendo em consideração aquilo que verdadeiramente conta, o tentar ser fiel à fonte que a todos inspira.

As coisas são como são. Podiam ser melhores e poderiam ser piores. Para que fossem melhores seria preciso primeiro encontrar uma atitude, um pathos, menos permeável ao que de pior existe na cultura do tempo. Depois, uma movimentação teórica que lhe desse voz. Por fim, uma prática coerente com tal teorização.

Facilmente se perceberá que muito há para fazer e que muitas lacunas precisam de ser suprimidas. Se pensarmos em termos práticos e por exemplo em Portugal e por exemplo apenas no exemplo da difusão cultural do cristianismo, e se afunilarmos o zoom, e olharmos para a net, vemos na net todo um conjunto de sítios onde a influência cristã é visível e pode ser lida, mas não vemos nenhum sítio que seja capaz de economizar tarefas e de dar conta da diversidade do labor disponível.

Para o constatar fizemos, no dia vinte e dois de Maio, uma pequena e breve pesquisa no Google, à procura do tópico “informação + cristã” nas páginas de Portugal. Obtivemos qualquer coisa como: “5,160 para informação + cristã”.

O exercício vale o que vale e não é certamente nenhuma experiência crucial. Mas se pode dizer da pluralidade que por vez nos é negada, pode dizer naquilo que hoje nos interessa que é relativamente fácil afirmar a dificuldade que temos para encontrar a unidade e a economia que deviam reger estes esforços. Informativos e não só.

Fernando Macedo (A BORDO)

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A CADEIRA DO BISPO OU AS COISAS COMO ELAS SÃO (4ª E ÚLTIMA PARTE)

Na semana passada pus aqui a minha visão sobre as profundas alterações ocorridas desde há 30 anos no código de valores do povo português e também no seu inconsciente colectivo. É uma visão a que, pela minha idade, falta certamente distanciamento. Ao fim e ao cabo, tinha eu 10 anos em 74 pelo que todo este mundo novo entrou em mim como em terreno virgem. Mas como será que a Igreja Católica, enquanto instituição pensante, viu e vê toda esta mudança que ocorreu? É uma pergunta a que, por falta de fontes bem colocadas, só posso responder especulando. E é isso que vou fazer, se mo permitem.
Já aqui disse que o 25 de Abril encontrou a Igreja bem preparada para ele. A inteligência moderada do Cardeal D.António fez escola e a Igreja navegou à vista para junto de um estado e uma sociedade mais modernos. Nessa navegação esteve sobretudo atenta a um possível Adamastor: o regresso aos tempos violentamente anti-clericais da I República em que ela se viu perseguida, espoliada e quase impedida de exercer o seu ministério. Foi sobretudo a repetição de tudo isso que quis evitar e para tal geriu com mestria o seu relacionamento com o poder. Já quanto ao seu relacionamente com os fiéis, a Igreja quis sem dúvida prestar os serviços mínimos, mas tal como não quis dar muito nas vistas enquanto instituição também não o quis enquanto corpo social, enquanto comunidade de crentes. Viveram-se tempos estranhos e mal compreendidos e quiseram-se evitar manifestações de religiosidade exarcebada com medo de destoar negativamente e provocar reacções difíceis de controlar. Houve sempre Fátima, algumas visitas papais, as campanhas anti-aborto, mas tirando isso, as manifestações de religiosidade católica primaram por uma discrição prudente.
E digo prudente porque é minha convicção profunda que a Igreja durante pelo menos 20 destes 30 anos olhou para as transformações da sociedade com muita atenção e receio mas com pouca vontade de as compreender. É preciso ter em conta que a crise das vocações vinha já bastante de trás, penso que desde o apogeu da guerra colonial que arrastou tantos jovens para longe, devolvendo-os à Patria diferentes do que eram quando partiram. Essa crise de vocações levou a um envelhecimento do clero que se hoje ainda é grave, já há 30 anos era crítico. E esse envelhecimento, aliado a uma perspectiva geneticamente conservadora, levou à tal prudência e incompreensão perante o que se estava a passar.
São pois a prudência excessiva e falta de vontade de toda uma geração do clero em compreender o que ia na cabeça das gentes, as únicas razões que me permitem explicar um certo abandono a que os fiéis, os novos fiéis sobretudo, foram votados pela Igreja.
Digo abandono, sim senhor. Pois o facto, a meu ver inequívoco, é que pelo menos durante duas décadas a Igreja Católica mantêve-se do lado de lá do altar, a ministrar os sacramentos, a confortar os fiéis pela continuidade da sua presença, a satisfazê-los pela continuidade da sua influência, mas abdicou de fazer uma coisa aparentemente simples: conversar connosco, saber o que pensávamos, conhecer tudo aquilo que perturbava a nossa Fé. Para ser inteiramente justo, devo dizer que esta atitude vinha de trás, de tempos onde tais coisas não eram vistas como necessárias. Mas o facto é que de repente, tudo mudou e essas coisas passaram a sê-lo e muito. Uma vez mais o facto de se ter um clero envelhecido em muito contribuiu para esta carência que se sentiu e que deixou consequências profundas. Devo também dizer que a culpa não deve ser toda assacada à Igreja: nós, comunidade de fiéis, aceitámos em silêncio o silêncio da Igreja. Talvez por andarmos distraídos com outras coisas mas também por aquele antigo atavismo católico que espera que a Santa Madre Igreja pense e supra as nossas necessidades espirituais. Um dia temos de mudar isso...
Mas sejamos concretos.
A catequização (coisa essencial para uma Fé pois como acreditar no que não se conhece?) andou largos anos desaparecida. A Igreja ainda se fiou, por demasiado tempo, na Religião e Moral das escolas, que não podia nem devia nem foi catequese coisíssima nenhuma. Nas paróquias (disso lembro-me eu bem) os catequistas faltaram e muito e os que havia eram normalmente boas almas a precisar de reciclagem ou também, eles próprios, de catequese! E, por outro lado, com a suburbanização das cidades, as paróquias existentes esvaziaram-se de pessoas e as novas levaram eternidades a serem formadas e a ganharem vida de comunidade. Este católico que vos escreve fez a 1ªcomunhão (ainda no marcelismo) mas não chegou ao crisma por falta de catequese que me atraísse em vez do contrário...
Passemos agora aos movimentos de leigos, pois também nós somos Igreja. Também aí, durante os tais vinte e tal anos, andámos um bocado por vielas escuras: tirando vetustas irmandades que usam opa e desfilam em procissões, pouco mais houve de relevante e socialmente visível durante anos a fio.
Quanto à administração dos sacramentos, sobretudo o baptismo e o matrimónio, talvez com a intenção de não impôr, não afastar, não melindrar uma sociedade que não se compreendia bem, o facto é que (e isto é uma impressão baseada naquilo que me é próximo) durante largos anos esses sacramentos foram mais celebrações rituais do que oportunidades de evangelização e catequização dos fiéis. Nestas décadas mais recentes tanta gente pôde casar-se sem perceber e sem se compromenter com aquilo que é sagrado no matrimónio, tanta gente pôde baptizar os seus filhos sem sentir a mínima obrigação moral em os educar na fé... Está também aí uma das razões pela qual em tantas e tantas famílias formalmente católicas, o sentido do religioso ter sido completamente varrido da vivência e da consciência familiares. Se olharmos para a geração dos que tem hoje entre 15 a 30 anos de idade e verificarmos o espectacular e generalizado alheamento da Fé e da Igreja não devemos ficar minimamente surpreendidos. Tenho pois para mim que uma geração de casais abandonados pela Igreja e tornados católicos não praticantes gerou uma geração praticamente inteira de jovens intrinsecamente agnósticos.
Olhemos agora de novo para o clero. A falta de vocações pré-existente ao 25 de Abril e consequente falta de renovação do mesmo, provocou uma desmotivante estagnação ao nível da liturgia, ao nível da linguagem e ao nível da intervenção na sociedade. Recordo missas nos anos 80, na minha paróquia de sempre, missas deprimentes em que a talha dourada da igreja acentuava o ambiente funerário da liturgia. E as homilias, dessas melhor é nem falar. Perdi aí a minha fé que perdida andou durante uns 10 anos.
A propósito de homilias chegamos à questão da linguagem da Igreja. E novamente aí temos que, pelo menos durante os primeiros 20 anos da democracia, a linguagem católica não evoluiu com os novos tempos. Repare-se que não estou a falar do conteúdo, estou a falar da forma e do tom do discurso da Igreja. Esteve longos anos cristalizado. Muitos católicos deixaram de o compreender e de se identificar com ele.
Parece-me que vou ficar por aqui. Esta é a minha visão pela qual no período de que falei a Igreja Católica em Portugal foi perdendo os fiéis e estes foram perdendo a Igreja e ambos foram perdendo a espiritualidade, o espírito de comunidade e o espírito de solidariedade que são pilares fundamentais do acreditar em Cristo e viver em Seu nome, isto é, do ser-se Cristão e Católico.
Contudo, a partir de determinada altura as coisas começaram a mudar. Recordo-me da pedrada no charco que foi o bispo D.Manuel Martins em Setúbal no princípio dos anos 90: a Igreja tinha novamente intervenção social e do lado dos pobres! Recordo da surpresa que foi o novo cardeal D.José Policarpo: dele vinha uma nova linguagem que já era entendível aos nossos ouvidos. Dele vinha um novo interesse pela catequese dos fiéis, pela reevangelização da sociedade. E sentiu-se a partir daí uma nova espiritualidade na Igreja. Começaram a aparecer padres novos (ou nem tanto) que falavam coisas que entendíamos e precisávamos de ouvir. Cito alguns, de memória e que eu conheço, dos mais diversos géneros e tendências mas que renovaram a linguagem católica e lhe trouxeram de novo a autoridade intelectual e espiritual que andavam escondidas: o padre Resina, o frei Bento Domingues, o padre Janela, o frei Bernardo (no Porto), o padre João Sabra, o padre Stilwell, o padre José Manuel Pereira de Almeida, o bispo D.Januário, o padre Francisco (da Serafina), o padre Tolentino (um dos novíssimos), o padre Pinto de Magalhães, etc., etc.
E os movimentos de leigos reanimaram-se, sobretudo, a partir dos anos 90: a MCE, as ENS, o CVX, a C&L, etc. Passou a haver uma nova atenção aos jovens, aos casais, aos trabalhadores, aos sem-abrigo. O Banco Alimentar do Padre Vaz Pinto foi uma manifestação mediaticamente visível da solidariedade católica organizada.
Eu diria também que a Igreja a certa altura abandonou a ideia de se apoiar na sua base sociológico-política de sempre e abriu-se e virou-se para outras sensibilidades. E isso foi bom para evitar tentações de elitismo. Daí que neste momento eu sinta genuinamente haver uma recuperação de algumas coisas essenciais: a comunhão entre a Igreja e os leigos, a abertura à sociedade no seu todo e duma forma transversal, a renovação da linguagem católica, o ressurgimento duma espiritualidade mais genuína. Sinto também que a arrogância da instituição perante os próprios crentes e as outras confissões tem vindo a ser substituída por uma atitude de respeito pela individualidade e desejo de procura dum caminho em comum. E sinto outra coisa: hoje que somos notoria e reconhecidamente minoritários na sociedade portuguesa, a afirmação pessoal de catolicismo já não provoca aquele sentimento, em nós próprios e nos outros, de se ser uma avis rara. Raros continuamos talvez a ser, mas não avis!
Tudo isto atrás escrito são ideias e impressões de um leigo católico que pouco mais faz do que ir à missa e ter um blogue. E que anda um bocado mais optimista com tudo isto.
Mas atenção, ainda há coisas esdrúxulas! Por exemplo, tudo o que se passou e está a passar à volta da nova Concordata, deixa-me a sombra dum incómodo e duma perplexidade. Parece que na Igreja, ainda há quem se preocupe activamente em manter a cadeira do bispo no palanque constitucional...
Mas isso é conversa para outra altura...

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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A CASA DE DEUS, A NOSSA CASA

Habituámo-nos a pensar nas igrejas apenas como a casa de Deus. Parece até que só fazemos silêncio para não incomodar o velhote das barbas que ainda paira nas nossas imaginações...
A igreja é a casa dos crentes, Deus não precisa de tecto: Ele é O mais alto.
A própria história da Igreja mostra-nos que o templo dos cristãos (e o de todas as religiões, em princípio) tem sido desde sempre espaço de encontro de pessoas. Espaço de convívio e celebração em que é suposto estarmos juntos e em sintonia. O destaque das igrejas nas aldeias, vilas e até nas cidades dos países de tradição cristã demonstra-o - são espaços de confluência, com uma função de unidade por onde passavam todos os actos importantes da comunidade.
Deixámos de perceber o templo como a nossa casa. O ser (somente) a casa de Deus, torna-o num local distante e formal, não estamos à vontade. O silêncio é necessário para podermos reparar uns nos outros, para nos ouvirmos como comunidade que se junta para celebrar, para se reunir no Amor de Cristo, como diz o rito inicial. Obviamente que Deus está presente (“onde dois ou três estiverem em meu nome”...).
É natural que, com a descristianização da sociedade, os templos percam afluência. O que não é natural é que aqueles (e ainda são muitos) que continuam a frequentar a casa da Igreja se dispersem. Especificando: as celebrações tendem para ser a única coisa das comunidades católicas, depois vai cada um para seu sítio. Quando muito fazemos uma ou outra actividade religiosa e pronto... Não contaminamos o resto da vida com o que recebemos da celebração.
É óbvio que nem todas as comunidades são assim, mas tendemos para isso.
É o ritmo de vida moderno? Sim, está bem... Mas temos que contrariar.

Rui Almeida (RUIALME)

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segunda-feira, maio 24

 

A TERRA A QUEM A TRABALHA

Hoje a Terra da Alegria inicia uma nova fase. O objectivo para que foi criada transcende os egos, os conhecimentos, as espiritualidades, a fé, as inteligências e as vontades de nós os seis que a iniciaram. Por isso foi nossa ideia, desde o início, partilhar a Terra com outras sensibilidades, outras perspectivas, outras fés, outras relações com o transcendente. Foi para isso criado um espaço dentro deste espaço, ou seja, uma edição especial, a saír às 2ªs feiras, em que a prosa é da responsabilidade e autoria de outras pessoas. Pessoas com perspectivas diferentes, umas mais outras menos. Pessoas católicas e não católicas, cristãs e não cristãs, crentes e não crentes. Começámos e continuaremos com pessoas que conhecemos aqui da blogosfera, a quem reconhecemos honestidade intelectual e a quem reconhecemos uma vontade comum de descobrir e partilhar caminhos que dem um pouco de sentido a tudo isto.
Começámos por convidar 4 amigos: o Marco Oliveira do Povo de Bahá, o Bernardo Mota dos Espectadores, o Lutz do Quase em português, o Filipe Alves da Respública. E a eles agradecemos do fundo do coração a disponibilidade, a abertura e o empenho. Iremos convidar outras pessoas, que lemos e respeitamos, umas mais expectáveis, outras se calhar não tão previsíveis. Mas não se pense que isto é só para convidados. Aqueles leitores, bloggers ou não bloggers, que vejam a Terra da Alegria como um sítio onde queiram vir conversar, devem mandar textos pois gostaríamos de os publicar. Critérios? Muito poucos: os do bom senso, da civilidade, da procura de algo, da generosidade e, claro, da alegria.

A EQUIPA DA TERRA DA ALEGRIA

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RELAÇÕES COM A TERRA

Então os seis habitantes da Terra da Alegria convidaram-me como colunista não residente! - Nunca imaginei que um dia iria escrever num blogue católico. (Mas também nunca imaginei, quando comecei o Quase em Português, que ia escrever, e com uma reincidência que me surpreende a mim mesmo, sobre questões - num sentido lato - religiosas.) O único motivo que me fez hesitar em aceitar o convite foi a dúvida se iria conseguir corresponder a ele com a qualidade e frequência desejável. Mas sabia logo que aceitaria, grato e com alegria! O que gostei mais no convite foi o mero facto que ele me foi feito: os habitantes da Terra da Alegria sabem que tenho poucas certezas para contribuir, que trarei para aqui provavelmente nada mais do que dúvidas, dúvidas e dúvidas! E que não virei como o menino da catequese que apresenta a suas dúvidas na humilde expectativa de poder levar as certezas, na forma de respostas categóricas, mais tarde para casa.

Encorajado pelos textos do Timshel e do Guia dos Perplexos já antecipei a Terra da Alegria também como terra da dúvida e – directamente daí decorrente – do desafio. Há dias assisti a uma troca de posts sobra a "apologia da dúvida" do Guia dos Perplexos, em que ao David Bengelsdorff parecia exagerado o valor que o José deu à dúvida. Acabaram por entender-se que o diferendo não seria mais do que uma questão de terminologia. Claro que não me cabe a mim dizer que estão enganados, mas a mim tinha me parecido que foi algo mais. Quando primeiro li o post do David entendi que a sua objecção resultava da noção da dúvida como antagonismo da Fé. Duma coisa má, porque ela nos separa da Fé, e logo como algo a evitar. Enquanto a ideia do José seria como a minha, que o facto de a dúvida se encontrar entre nós e a Fé, inevitavelmente nos obriga para viramo-nos para ela...
Eu sei que soa um pouco estranho eu usar a palavra Fé com tanto à-vontade, não me assumindo como crente cristão nem de outra religião. Se o conseguir vou explicar numa próxima ocasião porque não me sinto incoerente em falar da Fé como se a conhecesse...

Gosto da Terra da Alegria também e especialmente porque ela é nova e ainda muito pouco explorada. E porque não é colonizada. Tenho para mim que o objectivo dos seus habitantes não é colonizá-la. Em contraste aos que entendem a Fé como resultado dum trabalho de colonização, duma luta árdua em que se arranca a Verdade, pedaço a pedaço, da selva da dúvida e dos equívocos, e as guarda, protege e defende contra perigos e influências potencialmente nocivas, sejam eles o clima, parasitas ou predadores. Onde o cuidado da planta da Fé se concentra mais do que na rega e na aplicação de adube, no arrancar das ervas daninhas e fazendo a poda, seguindo os exemplos e instruções de quem sabe como a planta deve ficar. E onde se entende a Fé como uma coisa que se possa possuir. (Como se fosse possível tratar, no domínio da religião, qualquer coisa como propriedade...)
Claro que não faria sentido algum, convidar uma pessoa com eu, se a Terra da Alegria fosse assim. Imagino a Terra da Alegria como um vasto pais ainda largamente incógnito, com segredos, perigos, desafios e aliciantes. Uma terra cuja exploração será uma aventura. Não sabemos os caminhos que nos estão pela frente e eu, pelo menos, também não sei o que nos espera no fim deles.Mas sei que não há melhores caminhos para percorrer e que - como recompensa mínima - sempre se pode fazer um amigo no percurso.

Creio quem aqui na Terra da Alegria está no caminho em direcção a Deus não procura atalhos nem tão pouco procura contornar questões incómodas que nele encontra. É isso que aprecio. Porque posso saber muito pouco sobre os caminhos que levam à Deus, mas de uma coisa tenho mesmo a certeza: atalhos não fazem parte dele!

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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"DAN BROWN", OU QUANDO UM ROMANCE ASPIRA A VOOS MAIS ALTOS

Cenário: ABC News Special sobre "O Código Da Vinci" (2003)
Entrevistado: o autor Dan Brown

Dan Brown tem um ar "arrumadinho". Limpo e asseado. Mas não parece diferente de
muitos americanos. É expressivo e comunicativo. Entusiasmado. Transmite confiança às suas palavras.

Diz ele que, de início, tencionava refutar a tese que lhe assolava o intelecto. Que queria chegar ao fundo das questões para as refutar. Claro que, numa abordagem que já se está a tornar típica, Dan Brown acabou por aderir inquestionavelmente à veracidade desta "tese".

A "tese" de Dan Brown afirma que Jesus se casou com Maria Madalena, e que esta após a morte do marido escapou para o sul de França com a sua prole. Os descendentes desta "linhagem sagrada" teriam entroncado com a primeira dinastia dos reis de França: a dinastia merovíngia. Ao longo dos séculos, esta dinastia altamente perigosa para a autoridade católica teria sido guardada e escondida do zelo destruidor da Igreja Católica por uma sociedade secreta, o "Prieuré de Sion". Esta sociedade teria contado entre os seus ilustres membros com Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Victor Hugo, entre outros mais ou menos conhecidos.

Durante dois milénios a luta teria sido árdua: a Igreja Católica, furiosa defensora do primado de Pedro, teria decidido riscar da face da história o primado de Maria Madalena, a mulher do Salvador. E para quê? Para afirmar o seu poder machista e recusar autoridade aos descendentes da "linhagem sagrada", portadores do sangue sagrado de Cristo.

E o Graal? O Graal seria a própria Maria Madalena, sendo a palavra "cálice" uma graciosa metáfora do útero de Maria Madalena. Para o autor, Maria Madalena teria, de facto, transportado o "sangue" de Jesus sob a forma de descendência.

Seguindo a "tese", hoje, em pleno século XXI, o Prieuré de Sion continua a travar uma árdua batalha contra a autoridade católica, ocupando as suas fileiras com homens e mulheres de grande craveira, e tentando através da sua pretensa influência inflectir os destinos da humanidade na direcção da criação de uma pan-monarquia encabeçada por um herdeiro portador do sangue real e divino de Cristo.

Loucura? Está Dan Brown louco?

Bom, a questão é mais complexa. Dan Brown utilizou um vasto leque de material bibliográfico, algum do qual já tem mais de quarenta anos. Brown apenas travestiu esta teoria na forma de um romance, possivelmente para melhor se escudar dos inevitáveis ataques.

Qual é o problema de um romance? Porquê tanta polémica com um romance?

O problema é que Dan Brown não está interessado em entreter os leitores, mas sim em fazer dinheiro à custa da ignorância dos seus leitores, enganando-os propositadamente.

Num nível básico, procura o lucro fácil. Até aqui, é o habitual. Num nível mais complexo, procura trazer de volta à psique hodierna um ambiente de suspeição em relação à autoridade católica, que já tinha surgido há duas décadas com o explosivo "The Holy Blood and The Holy Grail" de Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh.

Porque é totalmente falsa e forjada a tese que Dan Brown mascara de romance?

Basta uma pesquisa na Internet pelos nomes de Pierre Plantard e Phillipe de Chérisey.

São eles os detentores da propriedade intelectual da brilhante teoria de Dan Brown, e os criadores dos famosos "Dossiers Secrets" depositados na Biblioteca Nacional francesa, em Paris, onde se encontram as falsas linhas dinásticas merovíngias e a fantasiosa lista de grão-mestres do Prieuré de Sion. Dan Brown, adicionalmente, pilhou de forma descarada dezenas de livros anteriores ao seu, e é conhecido por ter passado vários anos em grupos de discussão na Internet, a tentar saber tudo o que pudesse sobre o Prieuré de Sion, e sobre o tristemente célebre mistério de Rennes-le-Château, peça fundamental nesta mistificação.

Para quem gosta do género, descobrir as peripécias que originaram este romance de Dan Brown é tempo bem passado. Mas também é esforço árduo.

Para finalizar: façamos esse esforço. Não nos deixemos ludibriar pelas insanidades nada originais de Dan Brown, e dos autores em que ele se baseou. A intenção de enganar é bem clara. O intento anti-católico é descarado. A Verdade está acessível em abundante literatura e também na Internet.

Este romance é obra de desinformação. Mostra de forma clara os perigos de se estar mal preparado em termos históricos e teológicos. Só há uma forma de o combater: através do conhecimento.


Bernardo Sanchez da Motta (ESPECTADORES)

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APENAS PALHA

Durante muitos anos assinei os meus e-mails com uma frase de S. Tomás de Aquino: "Tudo que escrevi foi apenas palha." Esta frase suscitava alguns comentários bem divertidos dos destinatários. Por vezes apenas aquela frase na assinatura chegava para pôr em causa todo o conteúdo da mensagem.
Esta frase tem suscitado muitas e diversas interpretações; algumas pessoas entendem-na como uma negação de S. Tomás em relação à sua própria obra; outras preferem interpretá-la como um reconhecimento da insignificância de qualquer palavra proferida por um ser humano, perante a grandeza e o poder da Palavra de Deus.
Prefiro esta segunda interpretação. Nas escrituras sagradas podemos ver exemplos do poder da palavra divina, na forma como influenciou e transformou consciências, sociedade e nações. Foi pela influência da Palavra de Deus que os inimigos da fé se transformam em defensores e mártires da religião; foi pela influência da Palavra que sociedades tribais se transformaram em nações organizadas e prósperas.
Nas escrituras Bahá'ís, afirma-se que a Palavra de Deus é tão poderosa que Deus apenas teve de pronunciar a palavra "Sê" (forma do verbo ser) para chamar toda a criação à existência. É, obviamente, uma imagem figurativa do poder da Palavra, que nos leva a reflectir. Se uma pequena palavra tem assim tanto poder, imagine-se uma epístola ou um livro sagrado!
As palavras dos seres humanos também podem ter uma influência poderosa; podem destruir uma reputação ou criar a fama de uma pessoa; podem incutir sensações, desejos e afectos.
A blogosfera está repleta de palavras. O que aconteceria se entre estas surgisse um blog de autoria do próprio Deus?
Como iriam as palavras humanas reagir à presença e influência das palavras divinas? Como iriam reagir os blogs mais conhecidos?
É divertido imaginar algumas reacções:
O Abrupto elaboraria sobre influências políticas desse blog e incluiria alguns Salmos nos Early Morning Blogs?
O BDE quereria saber que partido tinha Ele tomado na Guerra do Iraque?
O Blasfémias tentaria classificá-lo na sua tabela do Blasferas?
O Barnabé iria insistir que Ele era de esquerda e tratá-lo por "Camarada"?
O Jumento iria logo demonstrar que Deus tinha impostos em atraso?
A Ana Gomes iria denunciá-lo por passividade durante a crise de Timor?
O Blog 19 iria pedir a intervenção d'Ele em milhares e milhares de casos de violação de direitos humanos?

É difícil conter um sorriso ao especular sobre possíveis reacções dos diferentes blogs. No fundo, a grande questão seria saber com que rapidez iríamos reconhecer que as nossas palavras (não apenas na blogosfera!) são apenas palha, perante o poder e influência da Palavra Divina.

Marco António Oliveira (POVO DE BAHÁ).

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O CONSTANTINISMO

No dia 28 de Outubro do ano 312 da nossa era, a cidade de Roma recebia de braços abertos o seu novo imperador, Flávio Valério Constantino, doravante conhecido como Constantino, o Grande (306/337). Era mais um na longa lista de líderes militares que, pela força das armas, ascenderam às mais altas magistraturas da República e à púrpura imperial. Mas a população da Urbs ficou estupefacta com a atitude do novo príncipe; ao contrário dos seus antecessores, Constantino não agradeceu a difícil vitória sobre o seu rival, Maxêncio, aos velhos deuses do Capitólio. Para escândalo de muitos, o novo príncipe atribuiu a vitória ao “Deus dos Cristãos”.

Mas a benevolência de Constantino para com o Cristianismo não era nova. Constantino era filho de Constâncio Cloro, um dos quatro imperadores previstos pela tetrarquia instituída por Diocleciano. Quando o pai faleceu, no ano 307, Constantino ocupou o seu lugar como Augustus da metade ocidental do Império. Nessa altura, o jovem imperador agradeceu a Marte e a Apolo a sua ascensão à púrpura. Mas, ao mesmo tempo, suspendeu a perseguição aos Cristãos (que fora decretada por Diocleciano), e ordenou, inclusive, a restituição dos bens das igrejas.

Entretanto, aproveitando o facto de Constantino se encontrar em Treveri (actual Trier), junto da fronteira do Reno, o Senado e a Guarda Pretoriana proclamaram imperador o seu cunhado Maxêncio, filho do antigo Augustus Maximiano. A princípio, Maxêncio adoptou o título menor de Princeps, manifestando assim a sua submissão ao Augustus. Mas a luta entre ambos era tida como inevitável, tanto que Maxêncio não perdeu tempo em reclamar para si o título de Augustus; e abertas as hostilidades no ano 312, Constantino invadiu Itália, enfrentando o exército do rival em duas grandes batalhas, nas proximidades de Roma: Saxa Rubia e Ponte Mílvio.

Segundo escreveu o bispo Eusébio de Cesareia, na primeira destas batalhas o imperador terá tido um momento de êxtase, em que viu uma enorme cruz pairar nos céus, enquanto escutava uma estranha voz proferir as seguintes palavras: “Meus Pace est cum vos... In Hoc Signo Vinces” (“A minha paz está contigo…com este símbolo vencerás”(1)). De facto, e não obstante a inferioridade numérica, Constantino derrotou o exército adversário. Dias depois, travava-se nova batalha na Ponte Mílvio. Para entrar no centro da Urbs, Constantino tinha de tomar aquela ponte, então defendida pelas legiões de Maxêncio. Nessa altura, escutou novamente a mesma voz, que desta vez que lhe ordenava que substituísse as águias imperiais dos escudos romanos, por outro símbolo à sua escolha. E assim fez Constantino, que se apressou a afixar nos escudos as letras “chi” (“c” em grego, que tinha forma de um xis) e “rho” (“p” em grego), que vinham a ser as iniciais gregas de Cristo, logo encimadas pela coroa de espinhos. Mais uma vez, a vitória sorriu a Constantino; o exército inimigo não conseguiu manobrar devidamente naquela ponte demasiado estreita, e o próprio Maxêncio afogou-se no Tibre. Constantino era, doravante, o senhor de Roma e da metade ocidental do Império. E, anos depois, venceria o Augustus do Oriente, Licínio, tornando-se senhor absoluto do Império (324). Nessa altura, terminou definitivamente a perseguição dos cristãos.

Até que ponto corresponderá esta lenda à verdade? Teria o imperador recebido um sinal divino? Creio que, independentemente da sinceridade da sua conversão ao cristianismo, Constantino manifestou ser detentor de um apurado sentido político. Os Cristãos eram uma grande minoria, especialmente nas cidades mediterrânicas; o seu apoio seria crucial, principalmente em metrópoles como Roma, Cartago, Antioquia ou Alexandria. Conquistar o seu afecto seria, efectivamente, um passo importantíssimo no sentido da construção de uma nova ideologia imperial.

Em 313, Constantino decretou o famoso Édito de Milão, segundo o qual o cristianismo era declarado religio licita. Ou seja, os cristãos eram livres de praticarem a sua religião. Mas o imperador não se ficou por aqui; apercebendo-se da importância da Igreja, Constantino envolveu-se pessoalmente nas disputas e querelas entre as diferentes seitas e correntes. O imperador não ficou alheio às lutas entre ortodoxos, arianos e donatistas, presidindo ele mesmo a sucessivos concílios. Procurou forçar os cristãos à unidade, legislando sobre religião e perseguindo os “hereges”. Fundou uma “Nova Roma”, Constantinopla (actual Istambul), que seria a capital cristã, em oposição à velha Roma, que era ainda o coração do paganismo. Com certeza que outros factores, essencialmente económicos e militares(2), influíram na decisão do imperador em transferir a capital do império para as margens do Bósforo; mas com certeza que a vontade de construir uma capital totalmente cristã, sem quaisquer templos e monumentos pagãos, teve também o seu peso no processo decisório.

Não obstante a propaganda oficial o descrever como um dilecto filho da Igreja, Constantino não ficou atrás dos seus antecessores, no que diz respeito ao despotismo, à paranóia securitária e aos vícios privados. Mandou matar o filho e outros familiares e amigos, por suspeitas de traição, muitas vezes infundadas; agravou o código penal para um inaudito nível de brutalidade (a pena de morte passou a ser aplicada para dezenas de delitos, dos mais insignificantes aos mais gravosos). No entanto, procurou melhorar a condição dos escravos, coisa rara entre os governantes da época. Antes de falecer, e como era hábito então, o imperador fez questão de se fazer baptizar pelas mãos do ariano Eusébio, bispo de Cesareia. Nessa altura (337), já o cristianismo era a religião “da moda”; era-se bem visto socialmente por ser cristão. De tal modo contavam as aparências, que centenas de sacerdotes pagãos se “transferiram” automaticamente para a agora poderosa Igreja Cristã. De religião dos escravos e dos perseguidos, o cristianismo passou a religião da corte e dos cortesãos...

Para se tornar útil aos seus interesses políticos, Constantino compreendeu que a Igreja tinha de estar na devida ordem; daí que a tenha organizado um pouco à semelhança do governo imperial, então hierarquizado em prefeituras, dioceses, províncias e conventus. Além disso, atribuiu cargos políticos e administrativos ao clero cristão, inserindo-o assim nas engrenagens do governo imperial. Com Constantino, a Igreja ganhou em riqueza(3), influência política e estatuto social aquilo que perdeu em liberdade e pureza evangélica. Daí que um cardeal renascentista tenha dito: “A Igreja teme menos os Neros que os Constantinos!”. Esta é, também, a minha opinião pessoal.

Há que ter em conta que o sincretismo religioso foi um fenómeno constante ao longo da história de Roma. Desde os últimos séculos da República que os cultos orientais floresciam na Urbs e entre as classes dominantes. No século IV, Cibele, Isis, Mitra e Serápis tinham tantos ou mesmo mais adeptos que o cristianismo. Numa sociedade politeísta como a romana, uma pessoa podia adorar um deus sem que tivesse de deixar de adorar outro; vários governantes e imperadores tinham os seus deuses de eleição, sem que entrassem em ruptura com a religião oficial. Aureliano, por exemplo, adorava o “Sol Invicto” (tal como Constantino, na sua juventude), mas nem por isso deixava de ser o Pontifex Maximus da crença tradicional. Mas Constantino e Teodósio, no século IV, transformaram este cenário de relativa tolerância.

No século que se seguiu, a Igreja ganhou cada vez mais importância política e económica. O derradeiro combate entre o cristianismo e o paganismo deu-se na batalha do rio Frígido (394), em que o imperador cristão Teodósio venceu o pagão Eugénio, que usurpara o trono do Ocidente com o apoio do caudilho bárbaro Argobasto. Doravante, o cristianismo seria a religião oficial do Império e da Europa que lhe sucedeu. E isto, penso, foi mau para a Igreja e para a nossa civilização. Tal como Constantino não devia ter interferido nos assuntos da Igreja, também Teodósio não devia ter proibido o paganismo; ao querer impor o cristianismo como religião do Estado, Teodósio deu início ao triste capítulo das guerras de religião, da inquisição e do obscurantismo.
Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mat. 22, 15- 22).

Filipe Alves (RESPÚBLICA)

(1) É curiosa a semelhança entre esta lenda e a do nosso Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique. Até a frase é a mesma: “In hoc signo vinces!” O Constantinismo marcou o imaginário europeu durante muitos séculos.
(2) Muito poderia ser dito ainda a respeito das reformas de Constantino, o Grande, especialmente no que diz respeito às suas reformas do exército, que alguns autores do século V culpavam pela decadência militar romana.
(3) A chamada “Doação de Constantino”, documento com que, na Idade Média, os papas justificavam o seu domínio temporal sobre a Itália e o Ocidente é uma grosseira falsificação. Mas, e embora não tenha chegado a este cúmulo de oferecer ao Papa metade do seu império, é verdade que Constantino ofereceu à Igreja terras, palácios e outras incomensuráveis riquezas.



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quarta-feira, maio 19

 

DO RISO DE DEUS À POUCA FESTA DOS CRISTÃOS

[estante submersa] A minha biblioteca não é muito extensa. E, apesar de alguns esforços, na categoria de igrejas/religiões está mais ou menos como a maioria das livrarias portuguesas: um outro “best-seller”, algumas excentricidades e depois um conjunto de livros anónimos. Apesar deste quadro tinha esperanças em encontrar alguma coisa a que me “agarrar” sobre o humor, o riso – uma frase, uma ideia, uma pista. Mas nada. Melhor: quase nada. Neste assunto, como noutros, Bento Domingues está à frente. Dito de outro modo (porventura, mais correcto): está mais próximo de nós.
Em As Religiões e a Cultura da Paz (Porto, Figueirinhas, 2002), o terceiro volume das suas crónicas dominicais no Público, Bento Domingues introduz-nos (pp. 79-81) ao hino litúrgico do Evangelho de João – «No princípio era a Alegria» – para o contrapor como «uma atitude estranha ao cristianismo primitivo, mas, desde há séculos, profundamente infiltrada no seu tecido cultural»: lembra-nos frei Bento, «Nietzsche não foi o único a identificar o cristianismo com a religião do dever, do sacrifício, da tristeza e do ressentimento». Eu, hoje, também o descobri à espreita na minha estante.
[gargalhadas de Deus] «O prazer, o humor, o riso e a alegria deixaram de ser considerados os frutos normais das acções boas», escreve ainda Bento Domingues. Que viaja depois brevemente pelos que riram muito ao longo dos séculos, mas mais ainda por aqueles que olharam o riso como coisa perversa. Mas há – naquela pequena viagem – uma curiosidade histórica (estudada pela teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli*) que fará corar puristas da liturgia da dor e do sofrimento: «O costume popular de o padre fazer rir as pessoas durante as celebrações litúrgicas, especialmente no dia de Páscoa», um «costume popular que percorreu quase toda a Europa, desde o século IX até aos começos do século XX. [...] O “riso pascal” era a linguagem popular de sintonia com a alegria da ressurreição».
[século de Fátima] Chegados ao século XX, o mundo perde o riso – as duas Grandes Guerras, o muro da Guerra Fria, os conflitos regionais que se multiplicaram, as ditaduras sanguinolentas que espalharam o terror (dos campos de concentração de Hitler aos “gulags” de Estaline, dos totalitarismos genocidas de Pol Pot ou Suharto aos voos mortíferos dos militares na América do Sul, dos fuzilamentos de republicanos em Badajoz à morte lenta do Tarrafal). Este século é também – imagem grosseira? – o século de Fátima, com uma doutrina embebida neste mundo maniqueísta e bipolar, com a sua imagem de dor e sofrimento, angústia e esperança.
[andamos sérios] A Igreja ficou “séria”. Perdeu o “riso pascal” e preferiu o Calvário à Ressurreição. Os cristãos aplaudem a Paixão de Mel Gibson e escarnecem da humanidade de Deus manifestada num quadro de Paula Rego.

Aqui chegados: enxoframo-nos com os humores dos outros sobre nós e perdemos a capacidade de rir – a auto-crítica, o “ver, julgar e agir” que nos ajuda a trilhar o caminho do questionamento, não o das certezas sofridas. Rir é bom. Rir de nós, melhor remédio é. O pior é que preferimos responder ao eventual achincalhamento com presunções sérias e dogmas de virtude pública. Soubéssemos rir da «Última Ceia» caricaturada por Herman há uns anos, com uma «Última Ceia» ainda mais divertida...
[festa] Há festa na igreja – pode parecer quase blasfémia. Mas é mais do reino da blasfémia proibir música no espaço de culto, como recentemente determinou o bispo de Viana do Castelo, que fazer do templo um local de verdadeiro encontro, conhecimento e celebração. Não se pede um “barbecue”, pede-se a descoberta da festa também nas coisas da Igreja. Na celebração, e fora dela. Andamos sérios. Nada que uma boa anedota não resolva.
* - cf. Il Risus Pascalis e il Fondamento Teologico del Piacere Sessuale, Brescia, Queriniana, 1990. Pode ainda ler-se duas perspectivas “bloguísticas” opostas sobre a matéria: no Barnabé, um texto de Rui Tavares (O tabu da sátira religiosa), e no What do you represent, um texto de Eduardo sobre «O Barnabé [que] dá catequese aos seus 900 leitores» (post de 13 de Maio).

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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A CADEIRA DO BISPO OU AS COISAS COMO ELAS SÃO (3ª PARTE)

Começo esta 3ªparte pedindo desculpa por não ir cumprir o que prometi. Mas o facto é que enquanto reflectia sobre o que tinha prometido escrever de seguida, achei que deveria talvez explicar um pouco melhor o que entendo ter sido a tal “drástica evolução sociológica e cultural ocorrida nestes últimos 30 anos, que levou a uma profunda descatolicização e crescente agnosticização das novas gerações”. E só depois explicar então a minha visão do que é ser católico hoje e aqui. Não posso também deixar de advertir que não estou minimamente habilitado para escrever o que vem a seguir...
Olhemos pois de novo para estes últimos 30 anos. Não dum ponto de vista histórico ou político mas puramente sociológico. E aí, na minha opinião, aquilo que mais relevante foi acontecendo na cabeça dos portugueses foi a percepção crescente de que, primeiro no domínio político e mais tarde no domínio económico, era finalmente possível andarmos a par com a Europa, entidade mítica para nós desde os tempos do Marquês de Pombal, símbolo de tudo aquilo que sentimos longamente não ter: prosperidade, liberdade, modernidade, numa palavra, civilização.
Consequentemente, duma forma lenta e progressiva, pois tal é o nosso ethos provinciano, o povo português foi-se lentamente despojando daquele código de valores com que, durante longas décadas, foi espartilhado. Esse código, construído todo ele por Salazar, instilado sistematicamente pela máquina que ele criou, era essencialmente um conjunto de valores e noções que aquele homem superior mas pequenino, místico mas céptico, considerou servir melhor o consciente e inconsciente colectivos deste povo que ele desprezava intensamente apesar de talvez o amar como parte de si próprio.
Assim, como nos faltava o espírito industrioso e empreendedor, incensou-se a simplicidade de vida, a pobreza honrada e trabalhadora, o ruralismo bucólico, o aconchego do corporativismo. Como nos faltavam grandezas e feitos que naquele tempo impressionassem o mundo e inchassem o nosso patriotismo, glorificaram-se e mitificaram-se as grandezas e feitos passados. Como nos faltavam figuras figuram públicas de relevo e acção, endeusou-se naturalmente Salazar, ele próprio a Figura salvadora e redentora da Pátria, grande entre os grandes do mundo, mas ao mesmo tempo pequeno e simplório como qualquer um de nós. Como nos faltavam a prosperidade e o conforto material, valorizou-se a ascese e o conforto espiritual. Pressentindo-se a louca e perigosa deriva mundial para o choque entre blocos, invocou-se a protecção da Virgem para este reguengo amável e temente a Deus. E valorizaram-se o Estado, a Empresa, a Família, como entidades protectoras do indivíduo, cada qual na sua instância. Noutro domínio, a tristeza melancólica que nos sobra foi poetizada e musicada. E a irrelevância que pressentíamos ter era às vezes disfarçada pelo Benfica e pelo hóquei em patins. Enfim, éramos o país e povo dos três F´s: Fátima, fado e futebol. E assim se poderá talvez resumir o universo moral do povo português até há coisa de 30 anos. Universo em que o catolicismo ou pelo menos uma forma dele foi a roupagem espiritual de quase todos nós.
Mas isto pertence definitivamente ao passado. Esse código de valores evaporou-se, primeiro superficialmente, depois mais profundamente. E novos valores surgiram. De onde? Não das profundezas da nossa identidade colectiva mas, mais prosaicamente, do estrangeiro. Claro que as elites cultas já há muito vinham bebendo o caldo cultural francês: a literatura, o existencialismo, o cinema e toda essa parafernália. Mas após o 25 de Abril alargou-se a oferta e aumentou imensamente a procura.
Primeiro foi toda aquela ideologia e cultura revolucionárias vindas sobretudo da América Latina e mais circunscritamente dos países do Leste e que varreu toda aquela mítica da pobreza honrada e do trabalho sacrificial e santificador. Ao mesmo tempo, a descolonização possível levou-nos a ter de varrer para debaixo do tapete as recordações incómodas dum império anacrónico. Depois a Europa connosco e novamente a american way of life, levaram a classe média a sonhar com uma vida totalmente diversa da que lhe propôs o “António das Botas” e diversa também daquela que fora ameaçada pelos barbudos da Quinta Divisão. Por uma vez pareceu que querer uma vida material melhor já não era nem pecado nem crime contra o povo. Mais tarde veio a Gabriela e o Brasil pela televisão, e os seus encantos perturbantes entraram-nos pela sala dentro. O país boquiaberto olhou para os cafunés da dita com seu Nacib e para o Bataclan como coisa nunca vista, pelo menos em família. E aí, muito mais do que com a liberalização da pornografia, começou a ruir lenta mas irremediavelmente o luso puritanismo sexual que se sustentava sobretudo numa espessa e ingénua ignorância. Esquecia-me do divórcio, uma conquista de Abril merecedora duma emenda na Concordata. Primeiro lentamente mas com aceleração constante os problemas do casamento passaram a ser reconhecidos como uma realidade solucionável pela resolução do mesmo. A igualdade dos sexos foi finalmente reconhecida, sobretudo nos efeitos tidos por convenientes. A mulher casada passou a trabalhar e, mais ainda, a ter de trabalhar. O modelo de família alterou-se profundamente. A relação pais-filhos tornou-se em algo movediço com terras de ninguém e campos minados. O sistema educativo mudou, mudou, mudou e tornou a mudar. Continua sistema mas não sei se educativo. Mais tarde, já na CEE, a política agrícola comum deu o tiro de misericórdia no ruralismo bucólico que restava e o país tornou-se urbano, ou melhor, suburbano. A música também mudou. Depois do apogeu da música de intervenção, vista no fundo como mais chata ainda que o fado e o nacional-cançonetismo de antanho, veio o rock português e também a música que mais tarde ficou pimba. Ainda no domínio lúdico, apareceu o Herman e o seu humor iconoclasta. Vieram as novelas brasileiras e depois as portuguesas, que fixaram novos arquétipos nos relacionamentos familiares, afectivos, sociais, profissionais. Vieram as TV´s privadas e o tabloidismo dos media e a ânsia geral pelos 15 minutos de fama apagou o nosso secular recato. E com os anos de ouro do cavaquismo e guterrismo, chegou um novo Deus, o consumismo, que passou a ser possível, mais do que isso, socialmente bem visto, praticamente obrigatório. Mas, que diabo, pelo menos um século de pobreza franciscana ajudam a compreender a sofreguidão com que mergulhámos na aparência de uma abundância para quase todos...
Mas paro por aqui antes que se zanguem comigo ou apareça um sociólogo encartado a demolir estas inanes recordações. Aliás, quem quiser recordar e aprofundar esta revolução cultural à portuguesa relembro e recomendo as saudosas e míticas crónicas do Miguel Esteves Cardoso, felizmente publicadas em vários livros.
Regresso portanto ao meu ponto. E o meu ponto é que há 30 anos o consciente e inconsciente colectivos do povo português saíram abruptamente da pasmaceira em que estiveram amodorrados e foram submetidos desde então a uma irradiação maciça de estímulos, nos mais diversos campos, e que nos mudaram a nós de cima a baixo.
Ora, nesse turbilhão de novos estímulos que atroou pelas nossas cabeças, o que de relevante e novo surgiu em termos da nossa religiosidade nacional, a católica? Absolutamente nada! A Igreja, como já disse, continuou coesa e influente, mas isso a nível da instituição, da hierarquia, porque a nível dos crentes manteve-se o nosso profundo silêncio e iniciou-se uma erosão notória e contínua, factores que fizeram reduzir sensivelmente a influência social do catolicismo. E é sobre isso que vou reflectir um pouco na 4ª e definitivamente última parte deste artigo que eu não queria assim.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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O QUE NOS SALVA?

Talvez um dos principais sintomas da generalização da indiferença, não só religiosa, mas de todas as áreas na nossa vida, seja a descaracterização do sentido das palavras. Se não sabemos muito bem o que dizemos, também não saberemos muito bem o que sentimos.
Um conceito de grande importância para as religiões em geral e para os cristãos em particular é o de salvação. Geralmente, quando se fala de salvação, a primeira ideia que nos ocorre é a de salvamento: salvar alguém que se está a afogar ou um bombeiro numa escada magirus a resgatar uma pessoa do fogo.
É uma palavra que perdeu muito do que lhe é essencial.
Se formos aos dicionários de latim a palavra salus, de onde deriva salvação, constatamos que, alem deste significado vulgar de agora, nos aparecem também “bem estar”, “harmonia”, “alegria” e “felicidade”. Não sei se estão etimologicamente relacionados, mas aquela palavra tem uma proximidade com a hebraica shalom, que, redutoramente traduzimos por “paz”, mas que se refere a uma harmonia geral consigo próprio, com os outros, com o mundo e, de modo particular, com Deus.
Ou seja: andamos a pensar na salvação como algo muito teológico e transcendental e afinal é uma realidade bem mais prática. Algo que tem a ver com as relações, com a maneira como estamos na vida, como enfrentamos as situações, como entendemos o Amor de Deus, como nos deixamos conduzir pela via da Justiça.
Reflectindo nisto, parece-me que a salvação será, sobretudo, a capacidade que se tem para a felicidade a partir daquilo que se tem e que se é, pouco ou muito, no momento presente, olhando para o mundo e procurando entendê-lo. Não uma realidade adiada para um depois abstracto e inatingível.

Rui Almeida (RUIALME)

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A PROPÓSITO DE FÁTIMA

«Então, tu que és cristão como justificas Fátima? Não achas que é religiosidade popular, de baixo nível, assim e assim?» – Engraçado nisto é constatar que quem faz este tipo de questionamento pouco ou nenhum interesse tem em saber o que poderá dar consistência ao modo como usa o conceito «religiosidade». Não quer saber dos diferentes modos como pode ser concebido. Não quer saber se os diversos modos podem viver debaixo de alguma unidade. Não quer saber de quem os pensa. E julga para si que nada há a pensar.
A razão é óbvia. No tempo das incertezas multiplicáveis, julga que sabe. Sabe do assunto, viu lá em casa ou na casa do vizinho, viu – é isso de ir à Igreja, a procissão na televisão, outras coisas afins, e, munido desses dados julga a coisa evidente.
É aquilo. Reconhece a religiosidade como são reconhecidos os coelhos pelos nativos de W. O. Quine. Reconhece a religiosidade apontando-lhe o dedo e deleitando-se com o exotismo das sílabas...
Munido deste conhecimento, multiplica perguntas. Inquire sobre todos e sobre tudo. Sobre Fátima e os milagres. Sobre as barbas de Deus. Sobre a Inquisição. Sobre: «então és cristão?», como se o cristão fosse um ser estranhamente marciano… Entretém-se nisto... Pergunta, pergunta, pergunta. Se é lúcido sabe que quando pergunta exerce autoridade. Se a autoridade o atormenta, faz-se inocente... Não tem mal... Perguntar não tem mal…
O cristão tem de responder, mesmo se a pergunta é ofensiva, porque na definição de cristão está implicado o suportar das ofensas; contudo, em lado nenhum é incentivado a contribuir para o crescimento e multiplicação da ofensa no mundo... Deixando este enigma de lado, falemos, então, de Fátima, e comecemos com Dostoievski.
A cultura do tempo valoriza a leitura da obra de Dostoievski. Sartre ou uma boa história da literatura indicam-nos o ortodoxo russo para ler. Quando o lemos, vemos aparecer em obras como o Idiota ou os Irmãos dissonâncias específicas. Se o Idiota é dissonante porque põe em causa o valor absoluto da inocência, quando é hábito tomar a inocência por virtude absoluta, os Irmãos confrontam-nos com um modo dissonante de conceber a vivência religiosa comunitária.
Estas últimas dissonâncias podem ser traduzidas pelas seguintes questões: como é que alguém educado na grande tradição intelectual do Ocidente, como é que alguém educado na grande literatura, como é que alguém que foi um marco significativo da grande tradição cultural ocidental, como é que alguém que produz grande literatura, como é que alguém que produz grande cultura, como é que uma pessoa dessas se atreve a fornecer como modelo de religiosidade comunitária o que faz um povo que se arrasta obediente aos pés de monges excêntricos?
Não vamos responder. A partir destas questões, vamos introduzir uma outra questão: como é que a alta cultura europeia valoriza alguém que valoriza algo que se pode designar como religiosidade comunitária de baixa cultura?
Isso pode ter a ver com o modo como a vivência popular é retratada. Se é Manuel de Oliveira que projecta uma imagem das fainas fluviais, ou Dostoievski que projecta uma imagem da Rússia do fim do czarismo, o facto dessa projecção passar pelas mãos de alguém que é valorizado à luz dos mais altos padrões culturais ocidentais leva a que a realidade projectada seja encarada com tolerância.
Se isto for assim, temos então parte do que explica o repúdio de Fátima. Para percebermos este repúdio, vejamos o que acontece quando a peregrinação tem uma finalidade semelhante mas surge envolta em outras roupagens. De facto, se confrontarmos os juízos de valor correntes que são feitos a propósito da peregrinação a Fátima com os juízos que se fazem sobre a peregrinação a Santiago, podemos ver uma diferença substancial. O que vai a Fátima é desprezado, enquanto o que vai a Santiago não sofre tão severa reprovação.
Se Santiago parece viver sob os bons auspícios da cultura do tempo é porque é capaz de se apresentar como um exercício embalado pela preocupação com a história e com a ecologia e porque essa embalagem agrada aos actuais mentores sociais. O mesmo não acontece com Fátima. Hoje são muitos os que não valorizam o trajecto que o peregrino faz de casa ao santuário.
Isto levanta toda uma série de questões e pede outras tantas respostas. Coloca à cultura do tempo a tarefa de nos explicar toda uma série de movimentos aparentemente contraditórios, por exemplo, o seu apreço por Santiago e pela Capela Sistina e a desvalorização de Zossima e de Fátima, quando todos perseguem uma finalidade semelhante; deve explicar então como pode deixar nos seus juízos essas finalidades de lado. Quanto à cultura cristianizada, ela deve responder a quem primeiro tem autoridade para a questionar. E isso obriga necessariamente a procurar entender se Fátima é parte ou não da resposta que entretanto deve dar...

Fernando Macedo (A BORDO)

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O DIREITO AO FUTURO

Habitamos um tempo marcado por profundos paradoxos. Se, por um lado, nunca, como nos nossos dias, foram tão vastos os conhecimentos científicos e tão grandes as possibilidades técnicas de produção de bens e serviços, por outro lado, raramente foram tão altos os índices da miséria mais desumana, da pobreza mais extrema e da mortandade pela fome.
Mesmo no interior dos países mais desenvolvidos, onde a riqueza criada e o bem estar social, económico e cultural atingem níveis nunca antes alcançados, crescem a um ritmo alarmante as “bolsas de pobreza”, a marginalidade social e o desemprego.
E a ditadura do novo economicismo, de que fala João Paulo II, esse novo ópio do povo, que apresenta o capitalismo como único e definitivo modelo de desenvolvimento, e que eleva a produção e o lucro à categoria de dogmas intocáveis, que gera “naturalmente”, como consequências inevitáveis, a persistência e o agravamento da pobreza, a miséria e o aumento crescente de homens e mulheres atirados para longe das condições mínimas de sobrevivência. A conquista do poder, o lucro e o “desenvolvimento” transformam-se em valores básicos operantes na sociedade e reguladores de toda a vida social e individual, que nos mandam obedecer resignadamente, submetidos à nova teologia do sacrifício que nos promete uns amanhãs que cantam – pelo menos para alguns.
Transposta para as relações dos homens para com a natureza, esta ideologia – que reduz o homem a factor de produção e a objecto de consumo, a mais uma mercadoria – leva à depredação da criação, olhada como fonte inesgotável de recursos numa sociedade insaciável. São notórios os reflexos na exaustão dos bens naturais, na destruição da vida selvagem, nos efeitos nocivos da poluição, no desaparecimento das espécies, na degradação generalizada – e, em parte, irreversível – do ambiente.
O olhar cristão tem partido de uma perspectiva antropocêntrica de domínio sobre a natureza, segundo a interpretação tradicional do mito bíblico das origens. E, nos últimos séculos, a profanidade reduziu o Universo a uma realidade inerte, mecânica e dissociada do Homem. A vocação do homem, segundo Descartes, seria a de ser «dono e senhor da natureza».
Hoje, porém, a reflexão cristã e teológica, a partir dos mesmos e de outros textos bíblicos, aproxima-se de uma «integração da história humana nos ciclos do ecossistema. Só isso pode garantir a sobrevivência» (Jürgen Molmann). Já S. Paulo, na Carta aos Coríntios (capítulo 8), reinterpreta a narrativa da criação à luz da fé em Cristo, na sua ressurreição. É toda a criação que clama e aguarda o momento da libertação da violência que o homem sobre ela exerce.
Vive-se numa mudança de paradigma. A ciência demonstra que o homem não é mais que o produto de uma longa (e ainda não concluída) evolução biológica e, portanto, transporta consigo, a par de todos os outros seres vivos, a memória do passado da criação. E é, simultaneamente, dependente da natureza que o rodeia, da qual não é possuidor, mas antes um mero administrador, com a responsabilidade de a transmitir às gerações vindouras.
Torna-se, então, urgente repensar as políticas de desenvolvimento, bem como repor a natureza no centro de uma nova cosmovisão, uma nova ordem ecológica, que busque novos caminhos de relacionamento do homem com a natureza. «O bem comum, hoje, não é mais apenas humano. É bem comum de toda a natureza. Inclui o direito ao futuro que todos os seres devem ter» (Leonardo Boff).
A economia, subordinada a critérios de justiça, de sustentabilidade e de qualidade de vida das pessoas e dos demais seres vivos; a política, alargando a participação dos cidadãos e das comunidades na decisão e gestão das opções; a ética, norteadora das acções com consequências perenes, são vertentes de uma ecologia nova, que não é, nem pode ser, cúmplice da injustiça. Mas que torne o homem, em comunhão com a restante criação, fonte de esperança e de libertação.

Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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PARTILHA

Uma das palavras que me é mais cara no cristianismo é a palavra "partilha". Por isso vou dedicar os dois próximos textos a este conceito.
De um modo algo esquemático e simplista o conceito de partilha parece-me ter dois sentidos: um, material, e outro, espiritual (estes dois sentidos interpenetram-se e não são destrinçáveis; utilizo esta distinção apenas como método de exposição).
Hoje irei abordar a vertente material.
Volto novamente a um princípio comunista que aqui referi logo no primeiro texto que escrevi aqui no Terra da Alegria ("Dúvidas"), "De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades".
É interessante ver o contexto no qual Karl Marx enunciou pela primeira vez este princípio ("Crítica ao Programa de Gotha"): "Numa fase superior da sociedade comunista, só então o limitado horizonte do direito burguês poderá ser definitivamente ultrapassado e a sociedade poderá escrever nas suas bandeiras: ‘De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades!’"
Para Marx "o limitado horizonte do direito burguês" só desaparecerá numa "fase superior da sociedade comunista", razão pela qual ele situava num horizonte temporal muito longínquo a aplicação do referido princípio. Para Marx, até se chegar a esta fase, seria necessário passar pelo socialismo. Segundo Marx, o princípio em vigor no socialismo seria "a cada um segundo as suas capacidades". Apresenta uma estranha similitude com o capitalismo selvagem. Estupidamente, quase sem se dar conta disso, Marx preconizou como necessário para se chegar a uma sociedade sem classes, uma etapa de legitimação do domínio dos mais fortes (os mais capazes) sobre os fracos (aqueles que tendo necessidades, não têm capacidades para as satisfazer) para que se chegue (de modo algo paradoxal) a uma sociedade sem classes.
Nos Evangelhos, um dos episódios mais significativos e reveladores sobre o conceito de partilha no cristianismo é descrito por São Mateus da seguinte forma:
"Chegada a tarde, aproximaram-se dele os discípulos, dizendo: O lugar é deserto, e a hora é já passada; despede a multidão, para que vão às aldeias, e comprem o que comer. Jesus, porém, disse-lhes: Ninguém precisa de se ir embora; dai-lhes vós de comer. Então eles disseram-lhe: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes. E ele disse: trazei-mos aqui. Tendo dito à multidão que repousasse na relva, pegou nos cinco pães e nos dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, os abençoou; e partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos à multidão. Todos comeram e ficaram satisfeitos; com os pedaços que sobraram encheram doze cestos. Ora, os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças".
A diferença da mensagem que resulta destes dois episódios é que, enquanto para Cristo o princípio "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades" é um princípio ético orientador, de aplicação imediata no dia a dia de cada um, para Marx, tal princípio é de natureza "científica" e de tal modo longínquo que é melhor não pensar muito nele. "A cada um segundo as suas capacidades" (a etapa socialista, segundo Marx): é essa a única etapa temporalmente concebível na fase de desenvolvimento actual em que se encontra a humanidade, nos termos da filosofia marxista.
Portanto, cada qual à sua vidinha e os outros que se lixem.

Timóteo Shel (TIMSHEL)

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quarta-feira, maio 12

 

ENTRISMO

Este texto foi provocado por um delicioso comentário do meu amigo José: “Entrei. Ajoelhei-me e comecei a rezar. Quando abri os olhos estava rodeado, por todos os lados, de comunas que rezavam também. Continuei a rezar com eles”.
Seguiu-se uma (para nós) divertida troca de comentários sobre o entrismo. Recorde-se que o entrismo era uma táctica utilizada por organizações trotzkistas que consistia em infiltrar "partidos operários reformistas" para os atrair para a causa da revolução. A título de curiosidade foi o próprio Trotzky que, em nome do combate ao sectarismo, preconizou este tipo de táctica. Enquanto táctica foi desenvolvida numa série de variantes e, embora se encontre em decadência enquanto expressão de uma específica táctica trotzkista, ainda hoje não se sabe (pela sua própria natureza semi-clandestina) exactamente quando e onde ela se encontra em execução (quem se quiser divertir um pouco, pode brincar aos detectives no Bloco de Esquerda).
Embora no início me tenha apenas divertido, comecei a pensar se de facto não existiria entrismo na Terra da Alegria. Mas que tipo de entrismo?
Seriam comunistas a infiltrar católicos? Ou vice-versa? Seriam democratas-cristãos a infiltrar sociais democratas? Ou trotzkistas a infiltrar cristãos? Pelo menos, um dos membros do Terra da Alegria é um confesso ex-maoísta (”ex” diz ele).
E, se isto se passava na Terra da Alegria, o que passava no país? Quem me garantia que os maoístas que infestam o poder politico deixaram realmente de ser maoístas? E os cristãos, com aquela obsessão pela partilha, devem ser certamente militantes da IV Internacional. Onde estão eles? O que pretendem realmente? Lamentei que o senador McCarthy já cá não estivesse para poder esclarecer todas estas infiltrações. Ou Torquemada.
O entrismo era uma espécie de proselitismo trotzkista. Mas, qual é o problema do entrismo?
Não por acaso ele surgiu não apenas como uma táctica mas igualmente como uma estratégia de luta contra o sectarismo. E uma das razões pelas quais tantas vezes falhou foi exactamente porque a partir de um dado momento aquele que tenta convencer é convencido. Ou por oportunismo politico ou por razões de consciência e de convicção.
Isto é, o entrismo (independentemente do jogo escondido que o define) implica diálogo.
Na sua versão pura e dura, o entrismo é um diálogo efectuado por um surdo, isto é, por uma pessoa cheia de certezas e que se só submete ao diálogo como estratégia de proselitismo.
Na Terra da Alegria somos todos entristas numa versão sem certezas e onde o conceito de "oportunismo politico" apenas pode fazer rir. Eu, por exemplo, sou infiltrado umas vezes por um entrista cristão que quer convencer um comunista, outras vezes por um esquerdista que quer convencer um católico da direita moderada, outras vezes por um agnóstico comportamentalista que quer convencer um moralista frouxo, outras vezes ainda todos estes papéis se invertem e o resultado dessa luta pelo poder pode-se ver naquilo que por aqui se vai escrevendo.
Assim, nos momentos de crise aguda de esquizofrenia (política?) o trotkista pega na globalização para me dizer que o socialismo num só país não é possível. O anti-marxista diz-me que o socialismo na versão de Marx (a cada um segundo as suas capacidades) não é
mais do que o capitalismo selvagem. O cristão marxista diz-me que o comunismo (de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades) é um modelo ético para se viver já perante o Outro e o cristão trotzkista acrescenta “em todo o mundo”. Tenho a certeza.

Timóteo Shel (TIMSHEL)

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A CADEIRA DO BISPO OU AS COISAS COMO ELAS SÃO (2ª PARTE)

Falava eu na semana passada da forma como o regime salazarista conseguiu confinar a Igreja Católica a uma parte restrita da sua sagrada missão, justamente aquela que mais conveniente era para estabilizar um sistema social e político imobilista e anacrónico, num Mundo em forte mudança.
A Portugal iam chegando os ecos não só de prosperidades e desenvolvimentos alheios como também ecos de que na própria Igreja Católica sopravam ventos de mudança e refundação para que ela pudesse cumprir verdadeiramente a sua missão e dar verdadeiro testemunho de Cristo. O pontificado de João XXIII e Concílio Vaticano II tiveram tal impacto que conseguiram chegar a este canto obscuro, onde uma nova geração de católicos, na JUC, na LOC, noutros movimentos, descobriu maravilhada uma outra dimensão para a Fé em que tinha nascido e crescido. E pensou que essa dimensão mais cristã, mais humana, mais social, poderia ser acolhida pela hierarquia da Igreja e, inclusivamente, ajudar à evolução do regime. Mas os condicionamentos criados por Salazar e interiorizados pela Igreja geraram fortes resistências a esta nova forma de laicado católico, mau grado também o aparecimento duma nova geração de padres, imbuídos do espírito do Vaticano II. O conflito foi surdo mas áspero e o resultado mais visível é bem conhecido. Mas esses Vencidos, que deixaram a Igreja, deixaram nela e no povo católico sementes que perduraram até hoje.
Agora passados 30 e tal anos e olhando o que nós, católicos e Igreja, somos hoje neste país dá ideia que “se rasgou ao meio o véu do templo” de tal modo são diferentes os problemas com que nos confrontamos. Neste período de tempo tudo aconteceu e tudo mudou.
Houve a primavera marcelista e um novo levantar de cabeça dos que queriam reformar a Igreja do mesmo modo que queriam reformar o regime. Foram os tempos em que apareceram os “católicos progressistas” e em que a Capela do Rato se agigantou perante a Basílica da Estrela.
Houve depois o 25 de Abril e o PREC. Foi este um período catártico, ambíguo e excitante para a Igreja Católica. Catártico porque passou a haver-se com um Estado em que, por um tempo, deixou de ser benvinda mas que a libertou das teias debilitantes de Salazar. Ambíguo porque no meio daquela voragem política e quase sem se perceber como, a Igreja conseguiu passar ao lado do naufrágio do regime com o qual esteve tão ligada. Excitante porque na tempestade de Verão em 75, a Igreja sentiu que mantinha a sua influência sociológica e, tirando alguns padres transviados pela utopia revolucionária, conseguia manter a sua coesão interna. Foram os tempos do cónego Melo, dos sinos a rebate, da manifestação dos tachos e das panelas mas também da perspicaz moderação do Cardeal D.António e, duma maneira geral, de toda cúpula da Igreja.
Depois vieram os tempos do reequilíbrio, da instituição duma normalidade democrática, à europeia. Veio o tempo em que a direita democrática se estreou no poder. Veio o bloco central e os anos de chumbo da economia. Veio a regeneração cavaquista, a euforia económica e mais tarde uma crispação cansada. Vieram depois os tempos em que as virtudes evangélicas pareceram chegar ao poder através duma esquerda amável e edulcorada. E por momentos pareceu-nos que o país era já inteiramente outro, rico como os nossos parceiros europeus, por causa dos carros novos, dos telemóveis, da Net, da TV Cabo, do milhão de portugueses de férias de Páscoa no Algarve, do crédito ao estalar dos dedos, da facilidade em comprar e ter e ir e acontecer. Depois, abruptamente, ao cair duma ponte, descobrimos que continuávamos portugueses e caímos, também nós, numa depressão que ainda hoje perdura.
Por entre tudo isto a Igreja Católica comportou-se galhardamente. Passou da ditadura à democracia, do corporativismo ao capitalismo, com uma revolução pelo meio, integrando-se num modelo de estado em mutação, como se nada fosse. Relacionou-se com todos, como quis, sem se hipotecar a ninguém. Consegue hoje a proeza de ter uma base sociológica aparentemente de direita mas ter uma hierarquia aparentemente a exibir posições de esquerda social. Consegue, num tempo de deliquescência de instituições, manter-se como instituição credível e ouvida. E consegue manter a cadeira do Bispo nas cerimónias da democracia!
Então agora é que são tempos de ouro para a Igreja e o Catolicismo triunfantes, certo? Errado!
A partir daqui, e para explicar esta guinada oratória, devo avisar que este pequeno ensaio deixa de ser factual e passa a ser meramente opinativo. E as opiniões que transmite tem a distância decorrente do facto de quem as emite limitar a sua relação com a Igreja à frequência dominical da missa e a participação num movimento de leigos fortemente atomizado.
E a minha opinião é a de que nestes últimos 30 anos, com uma suma habilidade, resultante não só das qualidades da hierarquia como também duma experiência acumulada duas vezes milenar, a Igreja Católica portuguesa concentrou a sua melhor atenção em duas entidades:
- o Estado, para melhor a ele se acomodar e evitar repetições de desvarios passados e também, seguramente, para o levar a não descurar a vertente social e sociológica de que se tornou paladina tal como para evitar nele desvios secularizantes ou anti-doutrinais excessivamente óbvios e formais.
- a base sociológica de crentes pré-existente na altura do 25 de Abril, e por cujas necessidades de assistência espiritual e ritual a Igreja tem velado com eficiência satisfatória, mau grado as óbvias dificuldades de recrutamento de novos sacerdotes.
Ora, a minha ideia é que por muito se ter focado nestas duas vertentes, a Igreja, passou ao lado dum fenómeno de grande magnitude cujas consequências estarão ainda para vir, mas que irão alterar completamente a relação da Igreja com o Estado e o posicionamento dos crentes católicos no ambiente sociológico português. Eu não digo que a Igreja não detectou o fenómeno. Detectou-o com certeza, mas o facto é que concentrou os recursos da sua inteligência colectiva na observação, assistência e “acompanhamento” das duas entidades atrás referidas.
O fenómeno de que estou a falar é a drástica evolução, não política, não económica, mas sobretudo sociológica e cultural ocorrida nestes últimos 30 anos, que levou por exemplo a uma profunda descatolicização e crescente agnosticização das novas gerações, o que começa já a ter consequências visíveis. Por ter estado tão atenta à potencial secularização do Estado, a Igreja viu acontecer, com protesto seu mas sem acção consequente, uma profunda secularização do tecido social português. Vemos um Estado ainda reverente (daí a cadeira) mas uma população indiferente. A tal ponto que já hoje e a partir de hoje, ser Igreja e ser católico nesta sociedade portuguesa é e será algo de radicalmente diferente do que foi no passado.
E a ideia que tenho é que muitos católicos leigos já sentem isto diariamente mas a Igreja, essa, enquanto instituição, não estou seguro que tenha percebido plenamente a nossa nova condição minoritária.
Definitivamente, falta-me capacidade de síntese. Sou por isso incapaz de acabar este artigo sem ter de recorrer a uma 3ª parte (a última, prometo), onde tentarei demonstrar que estes novos tempos que aí estão são os tempos onde tudo será de novo possível: a secularização do estado e sociedade deverá trazer-nos a espiritualização da Igreja. A ver vamos.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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terra da alegria. 2004.


 

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