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quarta-feira, abril 28

 

NÓS OS VENCIDOS DO CATOLICISMO

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

Ruy Belo

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NÓS, HERDEIROS DOS VENCIDOS

João Bénard da Costa editou em livro, no final de 2003, o conjunto dos textos publicados em Agosto de 1997 n'O Independente, nos quais faz um exercício de memória partindo da sua experiência pessoal enquanto militante católico confrontado com o Regime.
O título, Nós, os vencidos do catolicismo é o primeiro verso de um poema de Ruy Belo.
Bénard da Costa conta a sua história. Conta-a do seu ponto de vista pessoal, mas com fidelidade ao plural do título. Não faz julgamentos pessoais, apesar do entusiasmo com que narra episódios e situações, por vezes de sabor bem amargo.
Os católicos rebeldes e assumidamente de esquerda (ironicamente ficaram marcados com o rótulo de progressistas, que recusavam) que aparecem nestas "memórias" marcam o início de um revigoramento da vivência do catolicismo, numa sociedade tão marcado pela cristalização dos valores e das práticas da fé e pela ignorância institucionalizada.
O “movimento” de católicos surgido desse novo dinamismo vai ficar marcado por uma abertura radical ao mundo, ao seu tempo. Para espanto (e incompreensão) da maioria dos que tinham a religião como coisa segura e estável. Das fileiras mais activas do catolicismo havia jovens a ousar ter dúvidas e a tomar atitudes.
Talvez a grande marca desse grupo tenha sido a sua relação com a cultura, a postura de diálogo com tudo o que mexesse na sociedade de então. Da literatura às ciências, passando pelas artes, tudo foi pretexto para assumir uma postura, mais do que de humanismo, de humanidade vivida através da fé enquanto realidade que contamina a vida toda.
Desse grupo nasceu a Livraria Moraes editores e a revista O Tempo e o Modo e basta olhar para os títulos e os autores que por lá passaram para perceber a verdadeira catolicidade que soprava por aqui: as Fioretti de São Francisco ou a Imitação de Cristo a par de Pascal, mas também de Chestov e do Cardeal Newman ou de Mounier e do padre Charles de Foucault - numa convivência a ousar subversão.
E de convivência se tratava quando se juntavam católicos e não-católicos para falar de questões comuns: de democracia, de religião, de cidadania de problemas económicos, da ordem internacional. Não é de estranhar que o primeiro número de O Tempo e o Modo tenha textos de Mário Soares e de Jorge Sampaio.
Mas era inevitável que houvesse intervenção de carácter mais político e mais arriscada nesse País pasmado. Abaixo-assinados, cartas de denúncia, grupos clandestinos, a associação de apoio aos presos políticos, a participação nas listas eleitorais possíveis, tentativas de golpes ou as reflexões sobre a guerra colonial.
E talvez fosse inevitável, também, para a muitos deles a saída da Igreja. A ambiguidade da "hierarquia", o ambiente geral do País para isso os empurravam. Muitos perderam a fé, outros apenas a esperança, mas o entusiasmo desses "vencidos" criou raízes que são testemunho para os que se confrontam hoje com a Igreja e com o Mundo.

Rui Almeida (RUIALME)

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CONVENCIDO DE CATOLICISMO

Eu tenho Fé. Acredito em Deus. Sou pois um homem religioso. E sou cristão.
Sou portanto religioso e cristão. Mas serei religioso por ser cristão ou cristão por ser religioso? Será que esta é uma pergunta meramente retórica? Será simplesmente uma questão de gradação do geral para o particular e por isso sem especial interesse?
Pois a mim parece-me que não, parece-me antes uma pergunta que vale a pena ser respondida. E é o que vou fazer, pedindo desculpa desde já pela aparência duma erudição que é mesmo só aparência...
Todas as manifestações religiosas, independentemente da natureza ou forma da sua revelação original, tem especificidades próprias no modo como os fiéis procuram chegar a Deus, procuram fazer a Sua vontade, procuram afinal serem salvos.
Aliás, o que é que procuram verdadeiramente os crentes? Uns procuram simplesmente obter nesta vida a sua salvação na próxima. Outros procuram sobretudo submeter-se à Vontade de Deus pois é assim que entendem a sua condição de homens. Outros procuram seguir os preceitos de vida que Deus lhes revelou como sendo a Sua Vontade para os homens. Outros procuram essencialmente praticar os rituais que os aproximem de Deus e Deus deles. Outros ainda, mais ambiciosos e apressados, procuram laboriosamente ver a Deus, conhecê-Lo, percebê-Lo, iniciarem-se nos Seus mistérios e tudo isso ainda nesta vida terrena.
Temos assim religiões com manifestações de Fé predominantemente ritualistas, outras predominantemente preceitualistas, outras predominantemente gnósticas, outras essencialmente místicas, etc. Aliás e em rigor, todas as grandes religiões tem, em si próprias, manifestações múltiplas dentro das tipologias que acabei de referir e de outras que não conheço sequer.
Temos por exemplo o Islão legislativo da Sunna e da Sharia e o Islão místico dos sufis. Temos o Judaísmo ético da Torah e da Mishnah e o Judaísmo gnóstico e místico da Kabbalah e do Zohar. Temos o Hinduísmo ritualista impregnado das tradições dravidianas e o Hinduísmo metafísico dos vedas arianos.
E no Cristianismo? Aqui também há de tudo um pouco: legisladores severos e teólogos especulativos, vendedores e compradores de indulgências, crentes que não praticam e praticantes que não compreendem, santos que querem salvar todos nós e iluminados que descobriram o caminho e já o reservaram para os seus seguidores, privilegiados pela Graça Divina e obreiros que se oferecem ao próximo, encenadores de liturgia e leigos que a dispensam, caçadores de gnose modernista e artesões de doutrina.
Não é pois a coerência interna da minha religião que me faz dizer que se hoje eu tenho Fé é porque sou cristão e católico. Não, de todo. Nem é por pensar que a minha Fé é o melhor caminho para a salvação e a vida eterna. Nem é por achar que a minha Fé é a que me dá um melhor conhecimento da natureza de Deus. Nem é por uma maior identificação estética com a nossa liturgia. Nada disso.
Nem sei dizer isto sem recorrer a um estafadíssimo lugar comum: o que me faz cristão é mesmo Cristo, a Sua pessoa, a Sua palavra, a Sua vida.
Pois Cristo não nos veio dar um conjunto de preceitos que se forem seguidos nos garantem a salvação na vida eterna. Cristo veio sim transformar-nos. Como disse há dias Frei Bento Domingues, Cristo viveu entre nós numa insurreição permanente contra tudo o que degrada a vida humana. Essa insurreição era para ele uma questão de obediência à vontade de Deus e dela se alimentava. E ao ser crucificado, abriu, a todos, o caminho e o processo da ressurreição. Jesus, ao perdoar aos próprios inimigos, ao entregar nas mãos do Deus vivo aqueles que o entregavam à morte, consumou a sua insurreição contra tudo o que degrada e separa os seres humanos, isto é, o poder do ódio, o poder da morte.
Ou seja, o Deus em que acredito, o Deus que me foi dado a conhecer por intermédio de Cristo, não quer ser adorado, respeitado, obedecido, glorificado. Não. Como nosso Pai que nos ama, Ele quer sim que vivamos em plenitude e graça a condição humana que por Ele nos foi oferecida, condição que contém em si própria algo da Sua natureza. Como Pai que é, Deus quer ensinar-nos a viver e também a morrer. Foi para isso que nos enviou Cristo. Foi para isso que Cristo nasceu, viveu e morreu entre nós.
Há outra coisa que, penso eu, Deus também quer. Uma coisa que talvez seja a razão da ressurreição de Cristo. Deus, como nosso Pai que é, quer-nos de volta a Ele. E quer que saibamos sempre que isso é possível.
Ah! Esquecia-me doutra coisa que Deus também quer de nós: quer que nós O amemos. E como não O amar?
Esta é a razão do meu cristianismo e esta é a razão da minha Fé.
Quanto ao meu catolicismo, eu sei bem que a história da minha Igreja é uma história complicada, nem sempre coerente com a Palavra. Mas apesar do que fez e do que faz, a Igreja Católica consegue ainda ao fim de 2.000 anos dar-nos pleno acesso à Palavra e Vida de Cristo para que “acreditemos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhamos a nossa vida em seu nome”. A força da Palavra é demasiado grande face às fraquezas da sua Igreja.
Isso me basta. Isso agradeço. Por isso permaneço.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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BREVES NOTAS PARA (TAMBÉM) DIZER UM POUCO DE MIM

À mesa, o lugar da palavra, falava-se dos percursos de uns e outros. Uma amiga constatou, sem formular juízos, que num determinado grupo umas quantas pessoas tinham um discurso e uma prática social muito marcados e elaborados. Mas surpreendiam-se com a novidade de aspectos que eram (são) a trave-mestra da sua fé. Back to basics, então? Hesitei, hesito na resposta.
O meu percurso de católico entronca nos movimentos sociais e políticos da Igreja (que os há), apesar de ter "resistido" até tarde na catequese e nas aulas de religião e moral, para os padrões apressados da formação cristã praticado neste país...
É na sede de justiça que acabo por encontrar esse basics. Mas também no riso de Deus, no humor profano, na festa pagã, no mistério da natureza. Ou no confronto com os outros, no diálogo com o diverso, a alteridade...
Nesta história, feita de pequenas histórias, o que fica então é a aprendizagem da liberdade. Como um desafio que sempre me marcou: «A nossa liberdade não começa onde acaba a do outro», pelo contrário, «a nossa liberdade começa onde começa também a do outro».
As pessoas, claro! Retomo esta expressão - já por mim inscrita noutros momentos significativos da minha vida - para sublinhar aquilo que aqui me trará: todas as pessoas, mesmo aquelas que encontrei apenas uma vez. E aquelas de quem nunca soube o nome. De uma forma ou outra, elas ajudam-me a descobrir novas coisas, a encontrar e a viver a liberdade. Como aqui, com novos companheiros de viagem, para construir uma terra de alegria.

Miguel Marujo (CIBERTÚLIA)

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DÚVIDAS

Este é um texto de dúvidas. Dúvidas às quais tento dar respostas. Todavia as respostas que encontrei não me satisfizeram totalmente. E é esse o motivo porque escrevo este texto. Ele visa partilhar dúvidas. Mas é assim que eu também vejo o catolicismo. Sempre com dúvidas. Sempre a procurar. Sempre a caminho.

"Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam" (Lucas 6, 27).
Que quer isto dizer?
Se o meu inimigo quiser os meus bens, eu devo dar-lhos?
Se o meu inimigo quiser a minha liberdade, eu devo dar-lha?
Se o meu inimigo quiser a minha dignidade, eu devo dar-lha?
Se o meu inimigo quiser a minha vida, eu devo dar-lha?
E a resposta de Cristo é sempre a mesma. Sim.
Mas isto parece impossível. Imaginemos que um bando de totalitários ateus quer a vida de todos os cristãos. E que estes em conformidade com o seu catolicismo lha dão. Isto não significaria o desaparecimento do Cristianismo?
Esta última pergunta é mais fácil de responder que as anteriores e por isso vou abordá-la em primeiro lugar. Na hipótese de esta estranha e mais que improvável realidade acontecesse é óbvio que o Cristianismo não desapareceria. Os assassinos teriam ficado com a experiência do assassinato daqueles que mataram e com a experiência do que isso significava. Por outro lado, ficaria a Palavra. Só com o extermínio da espécie humana se poderia conceber como provável o desaparecimento da Palavra. Mas mesmo neste caso diz a Bíblia que no princípio era o Verbo ("No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1,1).
Depois de ter tentado responder à pergunta mais fácil passo agora às outras. Podem-se resumir numa única pergunta radical:
Se o teu inimigo estiver a matar ou a torturar o teu filho e se a única possibilidade de parar esse
comportamento for matares o teu inimigo, que fazes?
Entregas o teu filho como Deus entregou Cristo?
Estas são as dúvidas para as quais não consigo responder. Sei que não seria capaz de fazer o que Ele fez (talvez porque não sou Deus).
Mas, felizmente que a realidade não é a preto e branco. Talvez a resposta para estas questões tenha sido dada em dois posts fundamentais do palombella rossa e do companheiro secreto há uns tempos atrás.
Só saberá ser cristão quem assumir a ressurreição como uma superação de todos os limites. Talvez assim a fasquia esteja mesmo alta demais. Mas não é de todo inatingível. Porque cada pequena conversão antecipa, em pequena escala, a ressurreição plena (manuel).
Talvez o mais importante seja saber para onde vivemos voltados (Tolentino).
Talvez que se possa viver um cristianismo aceitável com uma prática quotidiana de vivência dos princípios cristãos, no respeito do princípio da proporcionalidade, e em que cada pequena conversão antecipa, em pequena escala, a ressurreição plena.
Recordo-me de um princípio comunista: "De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades."
Talvez o termo "capacidades" signifique também a capacidade de dar, a capacidade de partilhar, a capacidade de amar.
Talvez que o que se exige de um cristão seja, apenas e tão somente, dar, partilhar e amar um pouco acima das suas capacidades de dar, partilhar e amar.
É uma visão prosaica do cristianismo? Sem dúvida. Por isso tenho dúvidas.

Timóteo Shel (TIMSHEL)

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EM TORNO DA AGENDA

Abre-se por aqui um espaço novo de intervenção. A pergunta que primeiro me ocorre quando o começo a percorrer, «qual deve ser a sua primeira fala?», confronta-me com a questão da determinação da agenda. Devo falar o que os outros falam?
Quando somos confrontados com o fenómeno da determinação da agenda, deparamos com algo problemático. Nunca me tinha apercebido do fenómeno e das suas complexidades se não fossem as lições de Chomsky. Há muito tempo atrás, Chomsky “divertia-se” a comparar o espaço atribuído pela imprensa de referência americana aos conflitos militares favoráveis à administração americana e o espaço que nessa mesma imprensa era atribuído aos conflitos militares que a administração americana queria ver esquecida. Por exemplo, Timor.
Não é preciso grande esforço para perceber que isto tem muito a ver com os brilhantes estudos efectuados por Girard dos mecanismos miméticos. Contudo, o pensador cristão parece por vezes tão fascinado pelo trabalho que o mimetismo lhe permite fazer - são brilhantes as suas explicações de Shakespeare ou Proust, o seu repensar da antropologia e de fenómenos como a vitimização real grega ou o canibalismo – que acaba por deixar de lado algo que consideramos de maior interesse. Se nos mecanismos miméticos, Girard assinala como interesse primeiro a pacificação social, nós podemos dizer que só há pacificação social quando os interesses sociais são coincidentes e que estas coincidências de interesse assumem múltiplas faces ao longo da história.
As agendas seculares reactualizam mimetismos diversos e mostram os interesses que hoje têm que ser perseguidos para que as nossas sociedades vivam em paz relativa. Entretanto, quem assume outras fontes de inspiração, como é o nosso caso, se tem que confrontar-se com essas agendas, tem também de saber como fazê-lo.
Há diversos modos de o fazer. O primeiro passa por ignorá-las. O segundo, por segui-las. O terceiro, por confrontá-las. O último parece-nos o mais válido. No entanto, é aquele que apresenta o maior número de problemas. O primeiro problema relaciona-se com a necessidade de construção de uma agenda própria, coisa pouco fácil, de tal modo estamos submetidos às questões que são colocadas pelos mass media – e outros órgãos de difusão de cultura e educação - que vivem longe das nossas fontes de inspiração. Partindo do suposto que isto é mais ou menos conseguido, partindo do suposto que somos capazes de elaborar um conjunto de temas e problemas caracteristicamente nossos, encontraremos num segundo momento um segundo leque de problemas. De facto, nem sempre aquilo que são os nossos temas e problemas são passíveis de ser jogados contra os temas e problemas seculares. Há alturas - e não são poucas - em que aquilo que poderemos dizer está longe de ser aquilo que o dia-a-dia da agenda secular está disposto a escutar. Assim, somos confrontados com a necessidade de um equilíbrio, com a necessidade de suportar o silêncio como eco das nossas palavras.

Fernando Macedo (A BORDO)

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TODOS ANIMAIS

Quanto aos homens penso assim: Deus põe-os à prova para mostrar que, em si mesmos, são como animais. De facto, os destinos do homem e do animal são idênticos: do mesmo modo que morrem estes, morrem também aqueles. Uns e outros têm o mesmo sopro vital, sem que o homem tenha nenhuma vantagem sobre o animal, porque tudo é fugaz. Uns e outros vão para o mesmo lugar: vêm do pó, e voltam para o pó.
(Eclesiastes 3, 18-20).

Duas narrações da Criação são relatadas nos primeiros capítulos do Génesis. A mais antiga, correspondente, grosso modo, ao 2º capítulo, escrita no tempo do rei Salomão (séc. X a.C.), de tradição javista, é claramente antropocêntrica. Apresenta o homem como centro primeiro da Criação, à volta do qual tudo o mais é gerado com o propósito de o servir: a natureza como lar para o Homem, os animais como resultado da procura de um auxiliar que lhe seja semelhante, e na mesma condição a mulher, criada a partir de uma costela de Adão.
A segunda narrativa, mais tardia, ligada à escola sacerdotal, foi escrita durante o exílio na Babilónia (séc. VI a.C.), e corresponde ao 1º capítulo do Génesis. Aqui não há propriamente um centro da Criação. Deus vai criando a luz, a água, o firmamento, a terra, as árvores, as estrelas, os animais, peixes, pássaros, etc., e, em cada momento, maravilha-se com a sua obra: «E Deus viu que era bom». Só ao 6º dia Deus criou o Homem, «homem e mulher os criou», em simultâneo e em paridade.
Nesta segunda narrativa, é atribuída ao Homem o domínio sobre todos os seres vivos mas, ao contrário da primeira, não lhe é conferido o poder de dar o nome aos animais – esse poder que significa uma autoridade superior, uma subjugação do nomeado. Pelo contrário. O homem é um elemento, entre outros, da Criação de Deus, na qual se insere e se relaciona como entre iguais. Parece mesmo haver aqui um apelo ao vegetarianismo (Gen. 1,29), apenas derrogado depois do dilúvio (Gen. 9,3).
No entanto, este assombro com a Criação, na qual o Homem se integra plena e irredutivelmente, ficou esquecido por todo o pensamento cristão até aos nossos dias. Se a autoridade de São Paulo ensina que é toda a natureza que anseia pela libertação do pecado de Adão, esperando a redenção por Cristo, pois «toda a criação tem gemido e sofrido dores de parto até agora» (Rom. 8:22), a teologia subsequente – amarrada ainda mais ao antropocentrismo da perspectiva cristã do mundo – tem-se negado a reflectir os factos incontestados da evolução do mundo que nos revelam as modernas ciências naturais.
Há uma forte resistência ideológica na teologia cristã em abandonar o conceito de singularidade do homem como ponto alto da Criação (ainda que contrariado ao longo de alguns textos canónicos). Com efeito, a mudança de paradigma do judaísmo/cristianismo face aos mitos pagãos é demasiado radical para permitir um olhar neutro: onde antes o homem se integrava na natureza, agora é a natureza que se integra no universo humano.
No entanto, estão visão é demasiado estreita para ser satisfatória. Basta que nos questionemos um pouco. Dizia Konrad Lorenz que «o missing link entre o macaco e o homem somos nós». Ainda que assim o não entendamos, podemos sempre perguntar-nos em que tempo histórico se deu a mudança evolutiva definitiva entre os ramos genealógicos do macaco e dos hominídeos.
A questão fundamental com que S. Tomás de Aquino resolveu a questão da imortalidade dos animais em contraponto aos humanos («nos animais não encontramos qualquer aspiração à eternidade; só são eternos como espécie, na medida em que neles existe uma aspiração à reprodução, através da qual perdura a espécie», Summa contra gentiles, II, 82) ressurge com os conhecimentos científicos contemporâneos. Sabemos hoje, por exemplo, que o homem e o macaco partilham 98% do genoma. Sabemos igualmente que o homem não é produto de intervenção pontual, determinada no tempo, de um acto concreto, mas sim o resultado (ainda em evolução) de um processo que se estende no passado, ao longo de muitos milhares de anos. Podemos mesmo perguntar, ao lado de Eugen Drewermann («Da Imortalidade dos Animais – Uma Esperança às Criaturas que Sofrem»), se são apenas os homens o objecto da salvação, as únicas criaturas merecedoras da graça, da fé e da ressurreição, então desde quando existem os homens?
Ora, esta errónea concepção antropocêntrica da doutrina cristã (errónea porque baseada em falsos pressupostos) tem legitimado um pecado maior contra a Criação de Deus: o desprezo por toda a natureza, a utilização cruel de todas as formas de vida e a iníqua relação com os animais, tornados produto económico sem qualquer autonomia, submetidos a sofrimentos injustificados e a tratamentos cruéis, sem respeito, sem reconhecimento da dignidade inerente à sua condição de pares da obra do mesmo Criador. Com a cumplicidade de todos nós, outros animais.

Carlos Cunha (A QUINTA COLUNA)

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