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sexta-feira, dezembro 8

 

Despedimo-nos da Terra da Alegria

Caríssimos leitores,
acaba aqui a Terra da Alegria. Como começou, com as palavras de Ruy Belo.

E, em jeito de celebração festiva, publicamos dois posts de cada um dos fundadores deste blog. Um escolhido pelo próprio autor e o outro escolhido por um dos outros ciber-companheiros, de acordo com a ordem alfabética em vigor.

Saudações cristãs.


Os discípulos de Emaús - Caravaggio


Despeço-me da Terra da Alegria

O que dirá de mim o castanheiro do outono
a estação do que passa e se desfaz
Esqueci a minha infância e não sei nada
Estou à sombra e espero alguém virá
sombria melodia do meio-diao perfume dos campos cavalgados
na quente luz do dia em que eu vivia
Alguém me chegará desse distante bosque
onde eu errei a minha juventudenas formas levemente tacteadas pelos dedos
Não me demoro ou moro em sítio algum
já nada significam as palavras
neste deserto onde vigilo e estou desperto
terrivelmente só dentro da noite.
Alino silêncio profundo da floresta ao
teu singular olor de singular mulher
crucifiquei a minha juventude
A vida tem aspectos criminosos como
a subida da chama silenciosa na hasta da mulher que se procure
Não há nenhum regresso nos meus passos
a lua era outra lua de hora a hora
a natureza espera-me faz-me sofrer
troncos incendiados no outono
depois adormecidos no inverno
o aspecto humano de uma terra cultivada

(...)

Ruy Belo

*

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Cristo viveu, morreu e ressuscitou. Ressuscitado, apareceu aos apóstolos que duvidaram da Sua presença. Provou-lhes que era o Cristo vivo antes de partir uma vez mais. Vinte e um séculos depois continuamos a acreditar que Ele morreu para nos salvar e que um dia estaremos a Seu lado. No decurso destes vinte e um séculos propagámos a Palavra e a Salvação. Fomos ardinas da Sua vontade, tementes da Sua justiça, crentes do Seu amor. Fomos mais fortes que os apóstolos que com Ele conviveram e ainda assim d´Ele duvidaram. A nós Cristo não apareceu. A nós, discípulos de Tomé, Cristo deixou-nos a hercúlea tarefa de perpetuar a Sua doutrina, de repudiarmos o pecado, de praticarmos o amor em tempo de solicitações diversas, de incentivos apetitosos ao desvio. De nós espera-se que continuemos a perdoar aos nossos inimigos, em tempo de feroz inimizade, em tempo de fome e de pobreza, em tempo de guerras e de contrastes. Continuamos a martirizar-nos pelas nossa crises de fé, pela nossa falta de espiritualidade, pela nossa fraqueza face ao mundo materialista que nos rouba tempo às preces, à meditação, ao estudo, à tertúlia, aos outros, à vida. Nós, os filhos que nunca viram o Pai, procuramos a Sua presença e justificamos as Suas omissões. Vamo-nos procriando de acordo com a Sua vontade, vamos transmitindo aos nossos filhos o Seu baptismo e os outros sacramentos, damo-lhes a conhecer o maternal regaço da Sua casa, vamo-lhes exigindo o respeito, o amor, a entrega ao Pai ausente em tempo de virtualidade. E talvez assim eles O percebam, a esse Pai virtual que não responde às mensagens e que parece nunca ter tempo para estar on-line. Talvez assim eles O possam compreender, à luz dos pais que têm e que também quase nunca têm tempo para os acompanhar. Será esta uma promissora esperança da Sua aceitação? A comunhão virtual com a ausência, a fé pela fé no Companheiro ocupado, porventura com os últimos preparativos da casa onde nos acolherá. Que este Pai prepare à Sua direita o espaço condigno para receber filhos tão valentes aos quais não presenteou com os Seus milagres, com a Sua mão, com a Sua resposta.
Nós somos os pescadores dos mares poluídos, das águas possuídas que arrastam casas e filhos, os escravos do trabalho pela sobrevivência, os descrentes nos sistemas políticos e os mártires dos sistemas económicos. Somos os apóstolos pós-modernos que não herdaram sandálias nem óleos unguentes. Os reinterpretadores da Sua vinda adiada que se recriminam por se sentirem abandonados, os que olham as estrelas e rezam fervorosamente para que o Pai não tenha feito o log out.

Carlos Cunha [BAIXA AUTORIDADE] - 26 de Janeiro de 2005

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Evangelho neo-liberal

Naquele tempo, encontrava-se Jesus no campo, a olhar os lírios, quando d'Ele se acercaram Pedro, João e os restantes discípulos do costume. Ao vê-l'O cabisbaixo e de sobrancelhas franzidas, os discípulos entreolharam-se e Pedro, enchendo-se de coragem, perguntou a Jesus: «Senhor, porque estais triste?». Ao que Jesus, fazendo um gesto circular com a mão direita para que se sentassem em Seu redor, retorquiu: «Em verdade vos digo que olhava para estes campos, onde florescem os lírios, em que as aves cantam e em que toda a Criação exulta ao Pai».
Ainda mais surpreendidos, os discípulos interrogavam-se interiormente sobre qual a causa da tristeza e irritação de Jesus, e João perguntou: «Senhor, queres descansar um pouco?». Suspirando, disse Jesus: «Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar».
E reparando que os discípulos continuavam sem nada compreender, disse: «Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram».
Tendo-se acercado deles muitos homens e mulheres, para escutarem o que dizia Jesus, levantou-se um certo doutor de contabilidade e, para O experimentar, disse: «Mestre, que farei para herdar a vida eterna?»
Perguntou-lhe Jesus: «Que está escrito na lei? Como lês tu?»
Respondeu-lhe aquele: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo».
Tornou-lhe Jesus: «Respondeste bem; faze isso, e viverás».
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Jesus, prosseguindo, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: "Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar".
Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu o doutor da contabilidade geral: «O levita, Mestre. Pois o sacerdote, investido como está na sua autoridade, caso manifestasse misericórdia, nada mais faria que a sua obrigação natural. Se nada fez, tal é muito condenável, pois é à Igreja que se deve exigir tudo e tudo severamente condenar, em caso da mínima falha.
Já o samaritano imiscuiu-se no que não lhe dizia respeito, intervindo abusivamente no que o mercado o acaso decidira livremente dispor em favor dos salteadores.
Foi o levita que teve a atitude mais correcta. Compreendeu que o que o rodeava não era nada com ele e que se o mercado o acaso ou Deus assim o quisessem, teriam intervindo. Não compete a nós, seus servos, intervir fora da esfera da espiritualidade».
Disse, então, Jesus: «Vai, e faze tu o mesmo».

Carlos Cunha [BAIXA AUTORIDADE] - 20 de Outubro de 2004 [post escolhido por Timshel]

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O Martelo de Aliocha

Em texto anterior e com a pata do urso, demos conta de uma das estratégias preferenciais do diabo: a imobilização; não através de chave de judo, nem de outra qualquer arte marcial, mas pela tentativa de fazer com que fiquemos agarrados às nossas recordações mais penosas.
Contudo, no passeio no passadiço das praias de Gaia, depois de nos esquecermos de agradecer ao Luís Filipe Menezes, a maresia, a praia e o sol, a verdade é que nos irritamos com os rapazes que da montanha circulavam de bicicleta em cima das traves de madeira com pequenas mochilas às costas. E não os desculpamos nem mesmo quando os vimos parados num bar a beber bebidas energéticas, com ar suado e feliz…
Muitas vezes, não sabemos nas festas concentrarmo-nos na festa. E como não sabemos, deixamos que nos irritem os comensais que comem de mais, os que falam e falam demasiado alto, os que se apalpam com propósito, ou aqueles que nos incomodam com propostas sucessivas para dançar. Assim, não estamos preparados nem para combater aquilo que o diabo nos pode levar a fazer, nem preparados para evitar o que nos pode impedir de andar fluidamente no caminho do bem.
Porque se quando ficamos presos à dor, fiquemos bloqueados, prontos para o medo, agarrados ao poder satânico, mas quando ficamos agarrados à alegria, ás recordações de alegria, ficamos prontos para desbloquear dificuldades e prontos para desentupir as veias e o colesterol que se atravessa no caminho do bem.
É uma lição repetida e geral. A ela se agarram os amantes quando a distância os separa. Agarram-se à memória do sol que entrou pela janela tornando transparente o local onde pela primeira vez deram as mãos. A ela se agarra a mãe, quando a criança sofre com dores de ouvidos ou problemas na escola, quando recorda a primeira vez que teve o filho no colo. A ela se agarram as nações quando o tempo presente desmente o tempo passado.
E isto sem qualquer pompa e em muitas circunstâncias. A nossa memória está cheia de pequenos nichos de alegria que usamos em caso de acidente. Contudo, por vezes em caso de emergência não é fácil quebrar o vidro. O martelo está lá, mas a nossa força é demasiado pequena para a espessura do vidro.
Por isso, na célebre reunião após a morte do pequeno amigo, e rodeado de pequenos amigos, Aliocha nos Irmãos Karamázov, recomendava: lembrem-se muitas vezes deste momento em que estivemos todos verdadeiramente juntos; será certamente uma das coisas mais ricas que tereis no futuro.
De facto, só quando deixamos impregnar a memória pelos momentos de alegria, a memória fica pronta para nos devolver a força necessária para empregar o martelo.

Fernando Macedo [A BORDO] - 29 de Setembro de 2004

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A propósito da Providência

No apelo de alguns salmos, porque permitis isto Senhor ao meu povo e a mim, vejo a dificuldade de lidar com a noção de Providência, de penetrar nos mistérios do desígnio de Deus. A noção de Providência anda nos nossos tempos de férias. Raramente é evocada. Mesmo quando se dão cataclismos pessoais ou colectivos. Ninguém a usa para a explicar o dia do desemprego, como ninguém a usa para o 11 de Setembro ou para o Iraque a que Setembro deu origem. Não parece bem que Deus tenha semelhantes desígnios. Que nos Seus planos esteja o subsídio, os aviões ou as bombas.
Há no cristianismo algo de conformista. Isto, claro, se não estivermos a cortar os textos nos sítios onde nos convém. Uma das lições maiores de conformismo parece a lição que é dada em Lucas 3:13-14 aos soldados. Perguntam os soldados: o que havemos de fazer na nossa profissão? – Na resposta não vem um mudai de vida e deixai-vos de guerra, nem um continuai com a guerra, mas um simples não desejeis mais soldo. Não se proclama nenhum fervor pacifista, nem qualquer apelo bélico.
Contudo, este conformismo é – por paradoxal que pareça – um conformismo activo. Por exemplo, na conhecida história da mulher que pouco dando, dá mais do que os muito mais deram. À pobre mulher que dá apenas um soldo, Jesus não lhe diz para parar de dar, para não dar nada, porque pouco já ela tem. Louva o facto de ela dar o que pode.

De facto, se podemos pouco, a lição cristã é de que temos de potencializar o pouco que temos. O resto é com Deus… Contudo, perguntamo-nos vezes sem conta se este pouco que podemos e o muito que Deus pode não gera no mundo a injustiça. Se não devemos revoltar-nos contra ela. E assim, inquirimos o que andará Deus a fazer nos dias que antecedem e procedem do 11 de Setembro.
Não sabemos. E essa é a lição de Job. Mas dizer que não sabemos é de algum modo, curto e é também mentir. E essa é também a lição de Job.
Porque se não sabemos o que vai fazer Deus daqui a um pouco – e já agora, vai mesmo, porque Deus é presente e activo no mundo, não só mas também no milagre –, sabemos que sempre vai amar.
Contudo, se alguém perguntar onde está o amor em 11 de Setembro, e porque é que esse amor não se traduz no evitar que as torres caiam e que as crianças do Iraque sofram, ou se quisermos de um modo mais geral, porque não usa a omnipotência para acabar com o mal no mundo e para acabar no mundo com aqueles que no mundo fazem mal, voltamos novamente ao espanto – e por vezes à indignação de Job e dos salmos.
Até aqui, penso que não há novidade nenhuma. É corrente para muitos que a vontade de Deus é insondável e que não se traduz num transformar a terra no Paraíso. Ou se quisermos, que não se traduz hoje no acontecer hoje do Paraíso. Contudo, ainda assim qualquer coisa do Paraíso vem hoje até nós.

Se Jesus nos diz o que Deus nos quer dizer, diz-nos então que Deus não vai impor hoje o Paraíso pela força. Entretanto, se assim não o temos perto de nós, temos sempre qualquer coisa do Paraíso a brilhar em nós. Quer isto dizer que no meio de qualquer tormenta contemporânea e por maior que ela se apresente, se por um lado não é prometido que a tormenta acabe, é por outro prometido que a semente da paz – o amor – nunca naufragará no seu seio.
Dirão os mais cínicos Diz isso à criança queimada. Respondo: é mesmo isso que lhe é dito. Quando essas palavras se transformam em acções, nas faces que a televisão distorce, nas camas dos hospitais, há a certeza de que a paz não dorme. Nem morre. E isso é providencial.

Fernando Macedo [A BORDO] - 22 de Setembro de 2004 [post escolhido por Carlos Cunha]

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Evangelho social

Nota: o Carlos Cunha é o meu amigo mais antigo da blogosfera. Foi com ele que pela primeira vez abdiquei do anonimato sem rosto dos blogues e almocei um dia para nos conhecermos melhor. Não foi certamente por acaso. Partilho com ele muita coisa: uma Fé insatisfeita mas estruturante, uma certa visão do mundo e da vida, um pessimismo esperançado a meias com um optimismo reticente, uma heterodoxia que gosta das coisas no seu lugar, uma iconoclastia conservadora, um certo prazer em se ser diferente do estereótipo que nos querem colar na testa, os engarrafamentos no IC-19 ouvindo a música que se reserva para essa solidão, uma série de coisas mais. Discordamos na generalidade e surpreendemo-nos muitas vezes ao concordar na especialidade. Eu vejo nele um comuna às direitas, daqueles como deve ser. Mas adiante. Escreveu esse meu estimado amigo na Terra da semana passada uma versão apócrifa e capciosa dum belo trecho dos Evangelhos. Pois eis uma outra coisa que eu partilho com o Carlos: também eu sei fazer disso. Cá vai.

Naquele tempo, encontrava-se Jesus no campo, a olhar os lírios, quando d'Ele se acercaram Pedro, João e os restantes discípulos do costume. Ao vê-l'O cabisbaixo e de sobrancelhas franzidas, os discípulos entreolharam-se e Pedro, enchendo-se de coragem, perguntou a Jesus: «Senhor, porque estais triste?». Ao que Jesus, fazendo um gesto circular com a mão direita para que se sentassem em Seu redor, retorquiu: «Em verdade vos digo que olhava para estes campos, onde florescem os lírios, em que as aves cantame em que toda a Criação exulta ao Pai». Ainda mais surpreendidos, os discípulos interrogavam-se interiormente sobre qual a causa da tristeza e irritação de Jesus, e João perguntou: «Senhor, queres descansar um pouco?». Suspirando, disse Jesus: «Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar».E reparando que os discípulos continuavam sem nada compreender, disse: «Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram».
Tendo-se acercado deles muitos homens e mulheres, para escutarem o que dizia Jesus, levantou-se um certo judeu de Alexandria, que ensinava semiótica helenística no Liceu de Cesaréia e, para O experimentar, disse: «Mestre, que farei para herdar a vida eterna?»
Perguntou-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês tu?»
Respondeu-lhe aquele: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo».
Tornou-lhe Jesus: «Respondeste bem; faze isso, e viverás».
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Jesus, prosseguindo, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: "Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar”. Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu o professor: «O levita, Mestre. Pois o samaritano, indivíduo sem cultura, que da Lei só conhece os 5 livros da Torah, esse ignorante ao ajudar o homem vítima dos salteadores, só fez atenuar a revolta que este deveria sentir perante as sevícias que lhe foram infligidas por uns salteadores que são também eles vítimas da opressão que se abateu sobre este povo que vive enganado pensando ter sido o escolhido. Foi escolhido sim por esta casta de saduceus que se aliaram ao imperialismo romano para o oprimirem fazendo-o pensar que é Deus que o castiga por um lado e o consola por outro. O samaritano, ao praticar uma caridade pontual, atenuando uma dor legítima, está a contribuír para atrasar a revolta contra esta sociedade que o oprime também a ele, pobre tolo que é. Já o levita, embora membro da casta opressora, esse sim é que teria interesse em amparar o pobre homem. Se não o fez e não sendo ele estúpido, pois os levitas nunca o são, suspeito que esse levita guarda no segredo do seu coração a semente da revolta contra os seus iguais, o desejo duma sociedade sem levitas nem samaritanos, sem vítimas nem salteadores, sem oprimidos nem opressores, sem romanos imperialistas nem lacaios saduceus. Ao negar o auxílio ele estava certamente a querer aumentar o desespero daquele homem, por forma a que ele se liberte das peias da doce ilusão com que o dominam. Está assim a ajudar à sementeira da revolução que trará finalmente o fim da injustiça e a verdadeira irmandade entre os homens.”

O professor calou-se, esperando um momento pela resposta de Jesus que o escutou sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo. De repente, Jesus aproxima-se em silêncio do professor e beija-lhe os lábios exangues, sem mais dizer. O professor tem um sobressalto, mexe os lábios mas afasta-se de Jesus que lhe diz: "Vai e faz como quiseres". E Jesus deixa-o ir, nas trevas da cidade. O professor vai-se, o beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua idéia.*

* plágio de Dostoievski (d´O Grande Inquisidor)

José [GUIA DOS PERPLEXOS] - 27 de Outubro de 2004

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Epístola sobre o orgulho I

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se o orgulho habitar em mim serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se o orgulho habitar em mim nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se o orgulho habitar em mim nada disso me aproveitará.
O orgulho é paciente, é insidioso e maligno. O orgulho arde sem doer, por tudo se ufana, por tudo se ensoberbece. O orgulho só conduz a si mesmo, só procura os seus interesses, não se exaspera mas espera. O orgulho não se ressente nem do mal nem do bem, não se alegra com a injustiça nem com a justiça. O orgulho regozija-se com a verdade e, mais ainda, com a mentira. Em nome do orgulho tudo se sofre, em tudo se crê, tudo se espera, tudo se suporta.
Ainda que em nós permaneçam a Fé, a Esperança e o Amor, sendo que o Amor é o maior destes três, todos eles, mesmo o Amor, podem soçobrar pelo peso do Orgulho, que de tudo se alimenta e que a todos nós alimenta, podendo assim encher o nosso coração, esvaziando-o de tudo o resto. E assim sendo, no fim de tudo, depois de tudo ter sido apagado pela força do Orgulho, é ele que permanece em nós, no vazio imenso em que nos tornámos.

Perdoar-me-ão certamente esta apócrifa adaptação do belíssimo e célebre trecho da 1ª Carta de S.Paulo aos Coríntios, mas desde que cheguei à Fé que hoje tenho, tal como Paulo desde a estrada de Damasco, também eu sinto permanentemente em mim e permanentemente receio em mim algo como o «espinho na carne» de que ele se queixava. Só que, sendo eu um simples pecador e não um apóstolo como Paulo, esse espinho não é «algo que lhe foi dado a fim de que não se orgulhasse» (2 Cor 12, 2-10). Não, a mim esse espinho que me fere ferindo a crença que tenho no valor da minha Fé, é precisamente o orgulho, esse que penso ser o pecado original, o pai de todos os pecados, o pai de todo o mal.
Já uma vez falei no Guia de algo que me afige, o meu orgulho de crente: um imenso e absurdo orgulho, um orgulho de ter Fé, um orgulho de pressentir e julgar discernir Deus, um orgulho de me achar um justo, tal como Job achou ser, um orgulho de ser humilde, um orgulho de ser manso, um orgulho de ser desprendido. Este é um orgulho insidioso que já existia antes de existir a minha fé e que, tendo ela chegado, foi dela alimentar-se, foi encontrar nela razões para se gloriar. É de tal modo insidioso este orgulho que se exalta por ser reconhecido e exulta por querer ser combatido.
Uma belo dia, ao ler S.Paulo (sempre este homem fatal) a dizer que «tudo nos é permitido mas nem tudo nos convém», tive finalmente a terrível percepção de que esta fé que eu tenho é para mim essencialmente algo que me convém, que me ajuda a viver, que me dá sentido à vida e ao sofrimento, que consola o meu coração e satisfaz a minha inteligência. A minha fé alimenta-me e aperfeiçoa-me mas não me consome. É um bem em si mesmo, quase só para mim, eu que sou habitat de tão grande orgulho.
Não se pense que isto são pruridos de homem excessivamente escrupuloso. Isto é uma dôr de alguém que receia por si próprio. E que lamenta a sua esterilidade. Porque, como também disse S.Paulo aos inefáveis Coríntios, «agora vemos como em espelho, obscuramente, e então veremos face a face; agora conheço em parte e então conhecerei como sou conhecido».

José [GUIA DOS PERPLEXOS] - 18 de Maio de 2005 [post escolhido por Fernando Macedo]

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Közsönöm!

Retomo um breve relato de há dias. A missa do lava-pés ouvi-a em húngaro, numa das mais belas igrejas que visitei até hoje - Mátyás templom, em Budapeste. Não percebi quase nada: apenas a cadência da oração, o Jezsus vivido ou o ámen universal. Na longa celebração, a estranheza da língua cuidou do tempo de outro modo. Com um coro, como nunca ouvi numa igreja portuguesa - a música tornada contemplação, e não um acrescento pop para arregimentar jovens. E depois o silêncio e a luz.
Lá fora, escurecia também. Mas os vitrais reflectiam cores de vida, para o interior da igreja, para o interior do templo de cada um. E do tempo de todos.
O tempo, por aqui, deixa marcas. Indeléveis, físicas. Como a da torre de Madalena, que resistiu às guerras que abriram fendas nos homens e romperam corações nos edifícios. Ao lado, uma janela (na foto) esventrada, enorme, deixa ver o que está do outro lado, é o outro lado. Metáfora de uma cidade de cruzamentos e cruzadas, em que as últimas parecem hoje ceder aos primeiros: nas esplanadas, o linguarajar indecifrável dos magiares mistura-se, bebe-se, saboreia-se com línguas de quem os visita e desvela.
Por estes dias de Páscoa, o belo e o indizível mostram-se assim, quase inexplicáveis. Ou talvez não. Como, em Sete Palmos de Terra, o diálogo do filho (que nunca seria o "pródigo" da parábola) com o pai, que ele e nós, telespectadores, sabemos já morto:
«Tens uma dorzinha. Mas estás vivo! O que é uma dorzinha comparada com isso!», diz-lhe o pai. «Não pode ser assim tão simples...», responde o filho. «É assim tão simples», remata o pai.
É assim, simples. Como naquela missa de lava-pés, celebrada em húngaro.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] - 19 de Abril de 2006

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Breve texto sobre a dificuldade da oração

Houve um tempo em que a oração era mecânica, coisa aprendida na catequese de raras dúvidas e absolutas certezas.
Houve um tempo em que a oração era emotiva, coisa vivida em encontros de jovens que despertavam para a intimidade e para a poesia.
Houve um tempo em que a oração era acção, coisa experimentada num movimento que privilegiava o ver-julgar-agir.
Hoje há um tempo em que a oração não nasce. Em tempos alguém dizia, e eu repetia, que a minha vida seja uma oração. Mas a vida não se compadece com tempos para reflectir e de nada nos valem as trovas do vento que passa. O vento sopra fraco e nem pela brisa da tarde sentimos Deus a passear.
Leio as palavras que os meus amigos da Terra vertem aqui e sinto um sobressalto - pela alegria, pela dúvida, pela provocação, pela história, pela memória, pela contemplação, pela poesia: a oração em cada um deles, em cada um dos seus textos.
A mim, quem me dera saber fazê-lo. Parar para escutar, saber ouvir, poder contemplar. Descreio. Queria, nestes tempos sem oração, sem que a oração nasça comigo, poder ser - à imagem de Francisco de Assis - «um instrumento de paz». Mas é difícil. Todos os dias fazer a paz, quando nos confrontam, nos insultam ou nos encorajam a aplaudir os senhores da guerra. Todos os dias cansa.
«Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz!
Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais.
Consolar, que ser consolado.
Compreender, que ser compreendido.
Amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
É perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna

Um dia, M. entrou na basílica de Assis. E ela que não crê escreveu-me que ali se tinha sobressaltado. Se fosse possível uma réstia para mim e para este nosso tempo...

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] - 6 de Outubro de 2004 [post escolhido por José]

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"Ide aprender..."

Há uns meses, gerou-se um burburinho a propósito de um anúncio publicado por um padre, em que este anunciava a recusa da comunhão eucarística a quem defendesse ou praticasse determinados actos. Os actos elencados remetiam apenas para questões relativas à reprodução humana. Instado pelos jornalistas o Cardeal Patriarca disse que não é aquela a maneira como a Igreja trata desses assuntos e até falou de obsessão por parte do sacerdote. Mais tarde, oportunamente, D. José afirmou que «pode haver casos em que, devido à matéria, a situação de pecado é pública, tornando-se então o acesso à Eucaristia numa profanação pública da santidade desse sacramento. Nesse caso compete à Igreja defender, também publicamente, a santidade da Eucaristia, não admitindo à comunhão eucarística aqueles que se mantêm publicamente numa situação moral, claramente definida nas normas morais, incompatível com a santidade deste sacramento. Esta é uma situação delicada, a ser posta em prática com grande caridade pastoral, pois não pode ser arma de arremesso contra ninguém ou argumento para teses pastorais, mas motivada pela solicitude pastoral pelas pessoas visadas, que precisam de ser esclarecidas e interpeladas, e também pelo respeito por toda a comunidade eucarística, que procura fielmente celebrar dignamente a Ceia do Senhor.» (Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa na Missa da Ceia do Senhor - 24 de Março de 2005)
Ou seja: o Pão Eucarístico não é uma recompensa por boas acções, nem uma prenda para os meninos que se portam bem... e a possibilidade de exclusão dos sacramentos não pode ser pretexto para alimentar guerrinhas pessoais ou arma de argumentação ideológica. Há algo de muito mais profundo nesta realidade a que, com todo o sentido, chamamos Comunhão, mas que frequentamos sem lhe reconhecermos a necessária marca de compromisso no dia a dia.

Num dos seus últimos textos pastorais, João Paulo II lembra que «não é por acaso que, no Evangelho de João, se encontra, não a narração da instituição eucarística, mas a do "lava-pés" (cf. Jo 13,1-20): inclinando-Se a lavar os pés dos seus discípulos, Jesus explica de forma inequívoca o sentido da Eucaristia. S. Paulo, por sua vez, reafirma vigorosamente que não é lícita uma celebração eucarística onde não resplandeça a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34)», para logo de seguida lançar um desafio aos cristãos de todo o mundo: «Por que não fazer então deste Ano da Eucaristia um período em que as comunidades diocesanas e paroquiais se comprometam de modo especial a ir, com operosidade fraterna, ao encontro de alguma das muitas pobrezas do nosso mundo? Penso no drama da fome que atormenta centenas de milhões de seres humanos, penso nas doenças que flagelam os países em vias de desenvolvimento, na solidão dos idosos, nas dificuldades dos desempregados, nas desgraças dos imigrantes. Trata-se de males que afligem, embora em medida diversa, também as regiões mais opulentas. Não podemos iludir-nos: do amor mútuo e, em particular, da solicitude por quem passa necessidade, seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo (cf. Jo 13,35; Mt 25,31-46)» acrescentando o Papa que, «com base neste critério, será comprovada a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas.» (Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine, nº 28)

Com base nestes textos, que não deixam margens para dúvidas, permito-me fazer uns pequenos exercícios de casuística:
1. Um empresário, católico, pai de família, benemérito habitual das obras sociais e caritativas, declara a falência de uma fábrica, lançando para o desemprego uma centena de funcionários, mas continua a ostentar sinais exteriores de riqueza.
Poderá ser admitido à comunhão eucarística?
2. Um grupo de jovens (ou menos jovens...) de uma cidade com valores morais mais conservadores, organiza-se em locais que sabem ser de encontro de homossexuais, para os atacar e agredir. Fazem alarde da "proeza" e, portanto, é do conhecimento geral.
Poderão ser admitidos à comunhão eucarística?
3. Numa pequena povoação onde tudo se sabe, uma jovem engravida e é abandonada pelo namorado. Os pais culpabilizam-na e recusam-se a tomar qualquer atitude. A comunidade paroquial, a que a jovem pertencia, rejeita-a, remetendo-se ao silêncio. Ninguém faz nada e a rapariga acaba por decidir abortar.
Poderá esta comunidade celebrar dignamente a Eucaristia?
Mas por muito óbvias que possam parecer as respostas a estes “exercícios”, este tipo de situações terá sempre que ser encarada com a tal “grande caridade pastoral” a que se refere o Patriarca. Na Igreja só se resolvem os problemas. As situações tomadas enquanto generalidades e abstracções são muito diferentes do necessário olhos nos olhos para a resolução dos problemas à maneira de Jesus Cristo, a Quem ainda este Domingo ouvimos dirigir-se, no Seu jeito desconcertante, àqueles ilustres conhecedores das leis e dos códigos dizendo-lhes para irem “aprender o que significa: Misericórdia é que eu quero e não sacrifício” (cf. Mt 9,13 e Os 6,6).

(o negrito das citações é da minha responsabilidade)

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA] - 8 de Junho de 2005

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Os pecados de ódio

Em Junho do ano passado, a propósito da admissão ou não à celebração da Eucaristia, coloquei aqui uma espécie de exercícios de casuística. Um deles era: «Um grupo de jovens (ou menos jovens...) de uma cidade com valores morais mais conservadores, organiza-se em locais que sabem ser de encontro de homossexuais, para os atacar e agredir. Fazem alarde da "proeza" e, portanto, é do conhecimento geral. Poderão ser admitidos à comunhão eucarística?».
Retomo a questão no momento em que se fala de acrescentar ao elenco dos "crimes de ódio" aqueles de motivações homófobas, porque me parece que a posição da Igreja, não só através daqueles com maior responsabilidade, mas de todos os cristãos, poderá ajudar a atacar as raízes desse tipo de crimes.
O pecado surge antes do crime. Diz Jesus que "todo aquele que se encolerizar contra o se u irmão terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão 'Cretino!' estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar 'Louco' terá de responder na geena de fogo" (Mt 5, 22). Ou seja: há uma responsabilidade individual em relação aos próprios sentimentos, uma necessidade de permanente exercício de conversão. Porque é sempre mais fácil alimentar o ódio do que olhar para o outro como idêntico a nós.
As grandes manifestações de ódio revelam-se na exaltação das diferenças, sobretudo como motivo de afirmação de superioridade. Muitas vezes a exaltação obsessiva e até a distorção de determinados pontos da doutrina da Igreja potenciam a criação de preconceitos geradores de ódio. A história dos cristãos está cheia de exemplos disso e só nos faz bem termos consciência desses erros.

A Igreja tem que ajudar a contrariar esses sinais de ódio sobretudo através do testemunho. Temos que saber distinguir o pecado do pecador. Temos que prever o alcance daquilo que dizemos e fazemos para que não seja entendido como pretexto para a violência. Temos que promover o aprofundamento das nossas convicções, com bases seguras e firmadas na inteligência e no amor. Temos que clarificar, nas nossas comunidades, se achamos correcto celebrar a Eucaristia juntamente com quem age, motivado pelo ódio, contra o vizinho do lado, contra os de outras convicções, contra os de outros clubes, contra homossexuais ou outro qualquer grupo ou modo de agir ou pensar.
Também por isto passa a vontade da Igreja de humanizar a sociedade, de que falava o Cardeal-Patriarca na sua mensagem do Natal do ano passado.

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA] - 1 de Março de 2006 [post escolhido por Miguel Marujo]

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A minha experiência de Taizé

Era minha intenção colocar aqui hoje a terceira parte do texto "Qual o modelo socio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida?" que aqui se anda a arrastar de há uns tempos a esta parte (a segunda parte apareceu na semana passada e seria suposto a terceira aparecer esta semana). Mas, corria o risco de deixar passar Taizé de prazo.

Devo sublinhar, já no início deste post sobre a reunião Taizé que ocorreu há uns dias em Lisboa, que não tenho vocação para mártir. A minha resistência à dor é mínima, desisto facilmente, detesto o desconforto e fico facilmente agressivo em situações físicas penosas.
Por outro lado sempre desdenhei certas manifestações físicas de Fé, normalmente associadas ao cumprimento de promessas, que consistem, nomeadamente, em a pessoa andar muito tempo de joelhos (tão comum em Fátima, por exemplo).
Diversos blogues e jornais descreveram a extraordinária manifestação de Fé que foi o encontro de Taizé em Lisboa. O encontro de Lisboa foi para os milhares de participantes uma oportunidade para fazerem uma experiência diferente de Deus e da Igreja. Os 40 mil jovens que se reuniram nos pavilhões da Expo (nunca deixarei de chamar aquela zona "a Expo") levantam uma interrogação mais premente do que nunca. Já não é possível adiar indefinidamente a comunhão entre os cristãos.
O fundador de Taizé, Irmão Rogier, antigo pastor calvinista, de 89 anos, não se desvia nunca da realidade que nos rodeia, mas não se esquece de procurar nela um sentido oculto, mais profundo. A proposta de Taizé foi de encontro aos temas da pobreza, da imigração, da fome, das prisões, falou-se de modelos de desenvolvimento e da construção da paz: "vida interior e solidariedade humana", como diz o “lema” da Comunidade.

Mas, este post não é para descrever Taizé mas a minha experiência. A minha experiência de Taizé resume-se a uma noite de oração num dos pavilhões da Expo há quase duas semanas atrás.
A oração dessa noite foi sublime. Raramente vivi em multidão tão intensos momentos de meditação e reflexão. Não gosto de multidões e, mesmo rezar é algo prefiro mais fazer só, comigo próprio, do que em comunidade. Mas nunca pensei que também a meditação e a reflexão pudessem ser tão profundas no meio de milhares de pessoas.
Acabado o momento de oração, começaram os meus problemas. Tendo ficado muito satisfeito com aquela vivência e desejando prolongá-la reparei que tal era possível pois as pessoas que assim o desejassem poderiam ir junto a uma cruz que se encontrava no chão e lá depor a testa na cruz como acção simbólica de, já não me recordo bem mas era algo como "depositar em Cristo as nossas preocupações e as preocupações dos nossos irmãos".
Eram muitas centenas, talvez mesmo milhares, as pessoas que desejaram esse particular modo de oração e suponho que a cruz não fosse muito grande. Por razões de segurança, as pessoas não podiam estar em pé pois existia o risco, dado o elevado número de pessoas comprimidas, de se dar um movimento que pusesse em causa a vida ou a integridade física de outras pessoas. Portanto as pessoas ajoelhavam-se (não havia espaço para estarem sentadas e por outro lado era uma atitude mais adequada àquele modo de oração). E, muito lentamente, as pessoas deslocavam-se de joelhos em direcção à cruz.
Ao fim de algum tempo de joelhos a deslocar-me lentamente na direcção da cruz, comecei a experimentar um desconforto acentuado associado a um certo grau de sofrimento. Continuei a rezar interiormente e a pensar que tinha que resistir até chegar à cruz. Bem fraca seria a minha Fé se, apenas por simples cansaço e desconforto, desistisse do caminho da cruz. Os minutos continuaram a passar, já se teria talvez passado mais de uma hora naquela lenta marcha de joelhos em direcção à cruz. As dores e o incómodo começavam a ser violentos e eu transpirava, cada vez mais abundantemente, apesar de não estar nenhum calor especial. Só pensava "não posso desistir, não posso desistir". Interrogava-me como era possível que aquilo demorasse aquele tempo todo e pensava que a velocidade e a capacidade de transmissão das preocupações para a cruz certamente permitiria que as pessoas chegassem lá e se limitassem a tocar a cruz com a testa durante um segundo. Pelo sim pelo não, meditava em todas as minhas preocupações, nas dos meus próximos e nas do mundo inteiro, de tal modo que quando chegasse a minha vez assim fizesse.
O sofrimento continuava mas lentamente aproximava-me da cruz. Só que enquanto a progressão na direcção da cruz era aritmética, a progressão do sofrimento era geométrica. O sofrimento era já, nesse momento, há cerca de duas horas arrastando-me penosa e lentamente de joelhos, insuportável. Decido a levantar-me e ver o que se passava pois já estava relativamente perto da cruz. Vejo algumas pessoas de joelhos debruçadas com a testa sobre a cruz durante alguns segundos ou minutos (que me pareceram horas) e pensei: "Porra, como é que esta merda não há-de durar este tempo todo. Estes filhos da puta chegam, espetam ali os cornos, e põem-se a descansar."
Compreendi aquilo que já deveria ter compreendido pelo menos há uma hora antes. Persignei-me, benzi-me e vim-me embora.

Gostaria de acabar aqui este relato. E deixar as conclusões para quem lê este post. Mas não desejo ser mal interpretado em matérias tão sensíveis. A ambiguidade é muito bela (sobretudo quando se vislumbra algo de nítido no meio do nevoeiro) mas tem limites. Deixo por isso apenas duas conclusões relativas tão somente à minha pessoa, e quem quiser ver mais no texto do que o que nele se encontra escrito, está à vontade.
A primeira conclusão é "cuidado com a arrogância intelectual e a soberba". Frequentemente ela é apenas o outro lado de uma moeda onde também se encontram a preguiça, o egoísmo e a incapacidade de sacrifício.
A segunda é que o sofrimento quer-se qb. Nem de menos nem de mais. Uma existência totalmente confortável deixa-nos sem forças. Físicas e espirituais. Mas o sofrimento excessivo abre as portas ao pecado. Pelo menos para aqueles seres que não se encontram preparados para ele.

Timshel [TIMSHEL] - 12 de Janeiro de 2005

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Dúvidas

Este é um texto de dúvidas. Dúvidas às quais tento dar respostas. Todavia as respostas que encontrei não me satisfizeram totalmente. E é esse o motivo porque escrevo este texto. Ele visa partilhar dúvidas. Mas é assim que eu também vejo o catolicismo. Sempre com dúvidas. Sempre a procurar. Sempre a caminho.

"Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam" (Lucas 6, 27).
Que quer isto dizer?
Se o meu inimigo quiser os meus bens, eu devo dar-lhos?
Se o meu inimigo quiser a minha liberdade, eu devo dar-lha?
Se o meu inimigo quiser a minha dignidade, eu devo dar-lha?
Se o meu inimigo quiser a minha vida, eu devo dar-lha?
E a resposta de Cristo é sempre a mesma. Sim.
Mas isto parece impossível. Imaginemos que um bando de totalitários ateus quer a vida de todos os cristãos. E que estes em conformidade com o seu catolicismo lha dão. Isto não significaria o desaparecimento do Cristianismo?
Esta última pergunta é mais fácil de responder que as anteriores e por isso vou abordá-la em primeiro lugar. Na hipótese de esta estranha e mais que improvável realidade acontecesse é óbvio que o Cristianismo não desapareceria. Os assassinos teriam ficado com a experiência do assassinato daqueles que mataram e com a experiência do que isso significava. Por outro lado, ficaria a Palavra. Só com o extermínio da espécie humana se poderia conceber como provável o desaparecimento da Palavra. Mas mesmo neste caso diz a Bíblia que no princípio era o Verbo ["No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1,1)].

Depois de ter tentado responder à pergunta mais fácil passo agora às outras. Podem-se resumir numa única pergunta radical:
Se o teu inimigo estiver a matar ou a torturar o teu filho e se a única possibilidade de parar esse
comportamento for matares o teu inimigo, que fazes?
Entregas o teu filho como Deus entregou Cristo?
Estas são as dúvidas para as quais não consigo responder. Sei que não seria capaz de fazer o que Ele fez (talvez porque não sou Deus).
Mas, felizmente que a realidade não é a preto e branco. Talvez a resposta para estas questões tenha sido dada em dois posts fundamentais do palombella rossa e do companheiro secreto há uns tempos atrás.
Só saberá ser cristão quem assumir a ressurreição como uma superação de todos os limites. Talvez assim a fasquia esteja mesmo alta demais. Mas não é de todo inatingível. Porque cada pequena conversão antecipa, em pequena escala, a ressurreição plena (manuel).
Talvez o mais importante seja saber para onde vivemos voltados (Tolentino).
Talvez que se possa viver um cristianismo aceitável com uma prática quotidiana de vivência dos princípios cristãos, no respeito do princípio da proporcionalidade, e em que cada pequena conversão antecipa, em pequena escala, a ressurreição plena.

Recordo-me de um princípio comunista: "De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades".
Talvez o termo "capacidades" signifique também a capacidade de dar, a capacidade de partilhar, a capacidade de amar.
Talvez que o que se exige de um cristão seja, apenas e tão somente, dar, partilhar e amar um pouco acima das suas capacidades de dar, partilhar e amar.
É uma visão prosaica do cristianismo? Sem dúvida. Por isso tenho dúvidas.

Timshel [TIMSHEL] - 28 de Abril de 2004 [post escolhido por Rui Almeida]

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